Sentei-me na berma da estrada. O mais provável era haver pessoas à minha volta. Mas eu não as vi, não conseguia. Não via pessoas, animais, carros...nada. Porque estava no meu mundo. Estava a descontrair com o auscultadores colocados, e ao ritmo da música, cada músculo do meu corpo dançava. E os meus pensamentos giravam à volta de cada nota musical. Mas como tudo na vida, nada do que é bom, dura para sempre. A música acabaria, o MP3 ficaria sem bateria, entre outros motivos inexplicáveis. Comecei a ver as pessoas, comecei a viver a triste realidade, outra vez. Sentei-me naquela berma à espera de qualquer coisa. Algo sem nome, algo que nem eu sabia o que era, mas por que sempre esperei. Talvez uma boleia para a felicidade, talvez um sorriso dentro de um Mercedes Azul que me mostrasse o outro lado do mundo, sem que fosse necessário fazer perguntas. Sentei-me ali, e esperei. Esperei horas. Mas não podia continuar ali, sem que nada acontecesse, sem que eu fizesse algo para que acontecesse, seja lá o que for. Então decidi levantar-me e correr. Correr sem medo do que iria encontrar. O que procuras tu? Qual a primeira coisa que pensas quando acordas? Será que é mesmo isso, ou tu queres pensar que é isso? Procuro frases, fotos, recordações, vasculho todos os baús antigos na minha cabeça e nada. Vejo as fotografias de cada vivência, um pouco estragadas pela humidade e pelo tempo. Vejo pessoas desconhecidas que há muito, muito tempo, foram as mais chegadas. Eu vejo vida, ou pelo menos, parte dela. Vejo caminhos que se perderam, que se encontraram e outros que se cruzaram sem querer. Eu vejo felicidade, inocência... Vejo dor, falta, vazio. Não um vazio qualquer... Um vazio como um móvel que saiu do lugar, e deixou a sua marca no chão. Às vezes lembro-me de tudo, outras, parece que não vivi a minha própria vida. Nesses momentos, respiro fundo, olho à minha volta e toda a gente está à espera de algo vindo de mim. Não tenho tempo para pensar, e não me dão espaço para mover. Estou com o braço um pouco levantado e seguro algo. Mas quase não tenho força. Sinto-me a falhar. Estou apavorada mas sei que tenho de ser forte. Desistir é a última coisa a fazer. Volto a olhar à volta e toda a gente olha-me. Desejo poder fechar os olhos e depois abri-los para que estas pessoas desapareçam, e aí perceber que é um sonho. Mas tenho medo. E se ao fechar os olhos, não conseguir abri-los mais? Volto a respirar fundo. Fecho os olhos. Sinto a pressão das pessoas sobre mim. Abro os olhos e continuam ali. Não tenho outra saída... Fecho os olhos, respiro fundo e desta vez...decidida, puxo o gatilho.Não é que não me apetecesse que fosse um gatilho verdadeiro, mas tenho de ser forte e ultrapassar isso, esse gatilho que puxei foi a coragem para reparar tudo da minha vida, da vida que partilho com o Nuno. Não podemos, nem tão pouco eu posso continuar assim.
Estacionei o carro, saí, coloquei a chave na fechadura e rodei-a. Esse era o último assunto que tinha de esclarecer e ainda assim, o mais complicado. Como haveria de começar a conversa?
"Olá, como estás?"- É obvio que não está bem, não posso começar assim.;
"Olá. Temos de falar." - É claro que temos de falar! Isso qualquer um de nós sabe.;
Só entradas estúpidas, tenho de começar com calma, mas não enrolando muito... Nem tão pouco posso começar com "Não é aquilo que estás a pensar." (O que qualquer pessoa diz e que quase sempre é aquilo que outrém pensa.).
Só entradas estúpidas, tenho de começar com calma, mas não enrolando muito... Nem tão pouco posso começar com "Não é aquilo que estás a pensar." (O que qualquer pessoa diz e que quase sempre é aquilo que outrém pensa.).
Entro e fecho a porta atrás de mim. Ele está sentado no sofá, de costas para mim. Chego-me perto dele, pouso a mão no seu ombro.
- Nuno...
Ele vira-se e consigo ver-lhe a expressão triste no rosto e os olhos aguados. Nunca o tinha visto assim. E custa-me. Custa-me ver quem eu amo a chorar e saber que podia ter evitado isso.
Eu dou um passo atrás e deixo o silêncio invadir a sala, sou fraca, não consigo dizer nada, é aí que ele quebra o silêncio e lança uma bomba:
- Ele ainda mexe contigo?
- Nuno, percebeste tudo mal. Ele não mexe comigo de maneira alguma, dele só sinto pena e arrependimento, porque gastei tempo demais amando quem não merecia nada da minha parte. Tu foste completamente o contrário dele. Então podes-me chamar de tua, porque eu simplesmente não quero ser de mais ninguém. Eu prometo que vou lutar contra o mundo todo, se prometeres que vais estar a segurar na minha mão enquanto eu fizer isso. Para o bem dos dois. Porque quando há amor, as pessoas encontram uma solução para as coisas darem certo. Por isso, por favor não desistas de mim. Eu nunca me irei arrepender de nada que tenha feito contigo ou por ti, porque por agora e já há muito tempo, tens sido a maior razão do meu sorriso. Devo-te isso e muito mais.
- Desistir de ti? Tu foste a melhor escolha que fiz na vida. Mesmo de me teres dado uma tampa naquele Bar, eu fui atrás de ti, porque sabia que se desistisse, iria perder a mulher da minha vida. Eu sei que foi o que ele fez, mas eu não conseguiria viver sabendo que fui um covarde. Por isso é que meto-me no lugar dele, porque ele deve estar arrependido de te ter deixado e agora ser um nada.
- Como disseste, ele teve a sua oportunidade. Agora tenho a minha de ser feliz e ela és tu. És a minha felicidade e o meu motivo de sorrir.
Nisto, as lágrimas dele começam a correr e as minhas também.
- Não chores, por favor. - digo-lhe.
- Não aguentaria perder-te. Não posso, Sofia.
- No que depender de mim, não acontecerá. Mas, Nuno...
- Sim?
- Tu não me perdes se eu também não te perder.
Ele afasta-se um pouco, olha-me nos olhos e diz:
- Como assim?
- Já falamos sobre isso, tens andado distante, não me ligas nenhuma, recusas todo o tipo de convite que te faço. Tentei de todas as maneiras aproximarmo-nos mais mas tu cortaste qualquer tipo de aproximação vinda de mim, na ultima vez que disseste "Amo-te" custou-te pronunciar tais palavras e isso matou-me por dentro. Estavas de folga, liguei para cá e quem atendeu foi a tua assistente.
As minhas lágrimas correram com mais força. Ele puxou-me para si e sussurrou:
- És uma tonta. Algumas vez trocaria a minha deusa por aquele bocadinho de mulher?
- Então?
- Ela veio cá, não trabalhar, mas ajudar-me numa surpresa que fazia para ti.
- Cá em casa?
- Não. Eu queria que tivesse sido no escritório para que não ficasse nenhuma prova que pudesses desconfiar. Mas ela insistiu que tivesse sido aqui e não entendi porquê. Depois de vocês falarem pelo telefone ela contou-me que tu desligaste-lhe na cara e ela ficou abaladíssima, estranhei tal comportamento e questionei-lhe, ela disse-me que estava apaixonada por ti. - Não te rias. - E que se cá viesse, ficaria mais perto das tuas coisas.
Eu rio-me e depois fico séria:
- E a surpresa?
- Pois, com isso tudo cancelei-a. Mas o que conta é a intenção. E apesar de poder deixar isto para outra altura, não consigo ficar mais nenhum dia afastado de ti, e ver-te sofrer com isso.
Ele tira algo do bolso.
- Queres casar comigo?
