terça-feira, 7 de agosto de 2012

Parte # 13

O Pedro estava deitado. Pensava em tudo e ao mesmo tempo, em nada. Olhou à volta e por momentos voltou a viver os momentos com ela. Os beijos dela de bom dia, o pequeno almoço preparado por ela, o quão estúpido era e ela sempre esteve do seu lado. Levantou-se e foi lavar a cara. Até a falta da escova de dentes dela, na casa de banho, fazia-lhe falta. Ele andou pela casa, procurou pelo mais pequeno objeto que ela pudesse ter esquecido. Mas nada. Voltou à sala e deitou-se. Fechou os olhos e voltou a sonhar com tudo o que teve na sua realidade e que por sua culpa, agora não passa de um sonho perdido. Lembrou-se de como ela gostava de ler. Abriu os olhos e olhou para a estante. «Talvez esqueceu-se de algum livro, poderia ir devolver-lhe.» Pensou. 
Viu um livro muito estranho, pegou-o e leu o titulo. 
"Diário da Sofia. Não um diário banal, um diário completamente triste e muito sentimentalista."
Sabia que não devia abri-lo, era dela, era a sua vida, eram os seus pensamentos, mas ao mesmo tempo, sabia que ela não gostava dessas coisas e ficou curioso. Não resistiu e abriu-o.

"Não sei como começar isto. Talvez por nunca ter tido um diário nem perceber porque raio precisam as pessoas de um, ou porque eu nunca senti necessidade de ter. Porque comecei? Porque preciso desabafar, escrever... Preciso contar a "alguém" tudo o que sinto, tudo o que preciso sentir. Por falar em sentir...Um dos sentimentos que mais admiro no mundo é a credibilidade. Não sei quanto ao resto das pessoas, mas por experiência digo que quando alguém me transmite credibilidade, com ela trás-me confiança, respeito e mais meia dúzia de sentimentos bons. Existe alguma relação que se mantenha se não existirem estas palavras-chave como base? Não esqueças da palavra... CREDIBILIDADE. Às vezes magoas-me tanto. As tuas atitudes fazem-me duvidar de tudo o que construímos juntos até agora. Fazem com que eu duvide do teu amor por mim. Fazem-me pensar se valerá mesmo a pena ou não seguir um caminho contigo. E tenho tanto medo. Medo que deixe de dar certo, porque apesar dos meus planos de vida não serem muitos, o teu nome está escrito em cada um deles. Mas mesmo que certas coisas me custem muito, nada me custa mais que ver-te triste. Mesmo que a minha dor nesse momento me devore a alma, tratar de ti é sempre o melhor remédio. E espero sinceramente que tomes melhor conta de mim, porque se há coisa que eu não quero perder  é esta vontade de querer a minha vida ao teu lado. Por isso fala quando tiveres algo para dizer. Grita quando tiveres de gritar. Partilha comigo os teus medos. Não tenhas medo de dizer o que sentes. E pensa antes de falar... porque as palavras também magoam. Porque se há coisa que não quero é perder-te. É perder-nos."

«Ela não queria e eu sempre lutei... não por ela, mas pelo nosso "fim".» Pensou ele.
As lágrimas vieram-lhe aos olhos quando começou a pensar em tudo. Quando voltou a uns dias atrás e percebeu o quão estúpido e monstruoso foi. Percebeu que tinha perdido, a única pessoa, que demonstrou interesse e preocupação por ele. Porque apesar de haver muitas mulheres no mundo, em geral, podem querer só sexo, mas nem todas querem companheirismo. E ela queria. E sempre que ele estava triste, deprimido, quando não tinha tido o que queria na noite anterior, ela estava "lá". Ela sofria com ele se fosse preciso. Porque ela amava-o. Mesmo que ele não se importasse com isso, o bem-estar dele era o mais importante. Mas ela fartou-se que o bem-estar dele contribuísse para o seu mal-estar. 
«Acabou.» Era a única palavra que lhe passava pela cabeça.
Apesar de saber que cada página que virava, eram cada vez piores, que ela sofrera demasiado e que agora ele estava a sofrer em dobro tudo, continuou a ler...a sofrer... Porque merece. Ele sabe-o.

"Lembras-te o que disse sobre credibilidade? Pois... O pior é mesmo quando a perdemos. Porque perdemos tudo. Perdemos a confiança, a estabilidade, a segurança, o respeito. Para mim perdeste toda a credibilidade quando demonstraste ser uma pessoa diferente daquela que conheci. Perdeste o valor, perdeste o que te dava, perdeste o sentimento que tinha por ti, e a predisposição para fazer tudo o que te fizesse feliz, perdeste-te a ti e conseguiste perder-me a mim também. E culpa-te! Porque o único culpado aqui és tu. E sabes? Já nem pena consigo sentir. Foste tu que escolheste este caminho, és tu que continuas a achar que enquanto seguires por ele não tens problemas e, consequentemente, és feliz. Mas não és! Porque felicidade é muito mais do que isso e sei que vais perceber, um dia desses. Mas também sei que quando perceberes, será tarde demais.  Até lá, continua a contentar-te com migalhas."


Migalhas...era exatamente isso que ele tinha agora...migalhas. E ainda assim, já era bastante em comparação com o que ele merecia. 
As próximas páginas seguiram-se de dor da parte dela e de nostalgia, da dele. Como é possível ele nunca ter percebido isso? Na verdade, nunca estava tempo suficiente com ela para saber. Nunca lhe perguntava se estava bem, e se a resposta fosse negativa, não se interessava minimamente por saber o porquê. Ele estava-se nas tintas e agora percebe o quão burro foi.

"Fartei-me e com isto começo a fartar-me de estar a escrever sobre a minha desilusão por tua causa, estou farta que tu sejas sempre a base de tudo o que faço. Era preciso tão pouco para eu ficar contigo sem pedir mais nada. Só precisavas ser tu próprio, porque tu, vales muito mais do que isso que demonstras ser. Perdeste-me a mim sem sequer te aperceberes que te escapei por entre os dedos. No dia em que decidires entrar na realidade, perceberás que estás sozinho, que nenhuma das tuas "amiguinhas pegas" te darão aquilo que te dei. Nesse dia, não estarei ao teu lado para te mostrar o caminho certo, mas estarei nele para te atirar à cara que quem não quis vir comigo, foste tu e agora não há nada que possas fazer para voltar atrás. Já voltei várias vezes, achando que valia a pena, mas não valeu. Nenhuma das vezes!
Durante mais quanto tempo da tua vida vais esperar que as coisas te caiam aos pés sem teres de fazer nada por isso? Já reparaste que sempre foi assim? Sempre vieste com a mesma desculpa de - dar tempo ao tempo - ou de - deixar tudo acontecer com calma - mas a verdade é que tu nunca fazes para que aconteça.

Vives como se já tivesses vivido a vida toda e ao mesmo tempo, como se estivesses a vivê-la ainda desde o principio. Nunca lutas. Nunca gritas. Nunca enlouqueces. E isso destroi-me. Destroi-me que vivas de esperas.. E não te mexas. E o que me disseste ontem. O que tu me disseste ontem... não me sai da cabeça. E o que eu mais queria agora.. é que tu me saisses da cabeça... da alma, do coração. Sai!"

Ele não se lembra exatamente o que lhe tinha dito naquele "ontem", mas queria lembrar-se. Queria mesmo.
De repente, lembrou-se, outra vez, da discussão. Ele disse-lhe coisas horríveis, entre elas, insultos macábros, acabados num estalo. Isso tudo passou-se depois de uma festa. Na altura, uma grande festa.
Ela estava no quarto, ele convidou alguns amigos e amigas a irem a sua casa, porque ia dar uma festa. Sim, sem a consultar. Naquele dia começaram a aparecer pessoas que nem ele conhecia: Amigos dos amigos, dos convidados. A festa descontrolou-se, ele sabia-o, mas mesmo assim só queria "curtir".

"Estou sentada no meu quarto em frente à secretária. E de repente oiço a tua voz lá em baixo. Dizes olá a todos, e ficas na conversa. Já passaram uns 30 minutos desde que chegaste, será que já sentiste a minha falta? Ou será que os 20 degraus que nos separam são demais, e não tens vontade de subi-los? Eu não os vou descer. Não vou ter contigo, porque estou farta de correr atrás de ti quando a obrigação deveria ser tua. Mas apetecia-me ter a coragem de me levantar daqui, ir ter contigo, olhar-te nos olhos e perguntar-te porquê, Pedro? Porque é que tu tens de ser mais uma desilusão na minha vida? Porquê que não dás valor à tua familia? Porque é que não soubeste manter a nossa casa ''em pé'' ? Porque é que não soubeste lutar por nós nem um bocadinho  Porquê, Pedro? Porque é que preferes a solidão, ou a companhia de uma puta, em vez de te teres agarrado ao calor da nossa casa, ou ao amor da tua mulher?  Porque é que te afastas de quem te quer perto? Porquê ? Eram estas as perguntas que tinha guardadas para ti, mas não consigo. Porque te amo tanto... ainda que seja menos do que um dia já amei. "

Agora ele lembra-se de tudo. Apetece-lhe cometer a maior loucura de sempre e "jogar" com a sua vida. Mas sabe que isso não mudaria nada, que o culpado foi ele e apesar de saber que era o que merecia, sabe também, que ela está feliz agora. Mais do que alguma vez esteve com ele.

"Decidi que hoje era a última vez que escrevo para ti e sobre ti. A minha vida começa oficialmente a mudar. Não existe lugar onde eu mais queira estar do que no teu caminho. Mas esse não é o caminho certo, e é isso que eu preciso de procurar. Daqui para a frente declaro independência de ti e de tudo o que te dei nestes últimos meses. Espero que encontres o rumo certo, mesmo que ele não passe por mim. É que não sei se alguma vez te deste conta, mas o que eu quero e sempre quis, é o melhor para ti, independentemente de isso me incluir ou não. Até qualquer dia, Pedro. Vou em busca da minha felicidade, porque sei que ela também me procura."

Pelos vistos ultrapassou a procura, pois ela encontrou-a. Ambas se encontraram e nenhuma o incluia. Outrora, fora feliz porque sabia que depois da sua diversão, chegaria a casa e tinha uma mulher disposta a amá-lo. Agora, não tem a felicidade nem a mulher. E o que mais lhe doi é que ela tem as duas coisas, por culpa dele. Porque ela é feliz com outro alguém, que não ele. Mas se ele não fosse parvo, estúpido e todos-os-insultos-imagináveis-existentes-e-não-existentes, ela estaria feliz, com ele.
Será que vale mesmo a pena lutar por algo que ele deixou morrer e que ela aniquilou aos poucos?