Numa noite, recebi uma chamada do Gonçalo. Estivemos algumas horas à conversa, e entre uma ou outra coisa dita, ele já recuperou e convidou-me a mim e ao Nuno a irmos a um jantar em sua casa, no dia seguinte. Não lhe dei uma resposta fixa, pois nesse jantar os meus pais também estariam presentes. Ele insistiu:
- Vá-la, não sejas chata!
- Se sou chata tu também o és!
- Fogo, isto é uma treta! Nunca te posso ofender porque somos gemeos e assim estaria a ofender-me a mim também. Ah vida cruel!
- Não mudes de assunto. Eu não vou. Sabes perfeitamente que eu e os pais não podemos estar, se quer, a 10 quilómetros de distância.
- Pensa em como esse jantar pode servir para dares o braço a torcer.
- Já chega, Gonçalo! Não vou. Além disso não sou eu que tenho de dar o braço a torcer, são eles. Desde pequena fui excluída pela família e até hoje, não percebi o porquê. As coisas pioraram quando caíste daquela maldita árvore e eu fui culpada injustamente. E agora aconteceu uma espécie de dejavú com o teu acidente de moto. Juro, que à uns anos pensei em tudo o que pudesse ter feito para ser uma má filha e não cheguei a lugar algum. Foi então que me passou pela cabeça a adoção. Mas isso não faria sentido, porque se eu tivesse sido adotada, tu também foste. E eles adoram-te.
- Realmente, é estranho... Vou falar com eles.
- Não, não vais.
- Ah pois vou.
- Não!
- Sim!
- Não!
E ficamos nisto, metade da noite.
- Sim!
- Não! A sério que me chateio contigo.
- Não consegues. És doida por mim.
- Argh! Odeio-te.
- Também não consegues. Tu amas-me, maninha!
- Ok, eu vou!
Arrependi-me de ter dado uma resposta afirmativa, ainda antes de tê-la pronunciado.
Consegui ouvir o riso dele.
- Mas que fique bem claro que vou, porque gosto de ti e quero fazer-te a vontade e deixar-te feliz com a minha presença. Mas a mínima provocação, e vou embora, no exato momento.
- Ok. Traz o teu namorado para o conhecer, sim?
- Vou tentar. Beijo, cuida-te.
- Tu também, linda. Beijo na testa.
A campainha tocou, devia ser o Nuno.
Abri e era o Francisco.
- Olá, que surpresa agradável e um pouco duvidosa...
- Olá. Precisamos conversar.
- Uhm... entra. Queres beber alguma coisa?
- Estou bem obrigada.
- Fica à vontade. Vou fazer café.
Saí da sala e dirigi-me à cozinha. Tirei do armário uma chávena e comecei a fazer o café.
- De certeza que não queres tomar nada?
- Posso fazer-te companhia no café, já que insistes...
Saí da cozinha enquanto o café ficava a fazer. Sentei-me com ele na sala.
- Pareces-me preocupado...
- Não é preocupação. Eu vou demitir-me.
- Por alma de quem?
- Pela minha. A Matilde está com uma gravidez de risco e temos de ir para outro hospital, conversamos e decidimos mudar-nos também.
- Bem, se é pelo vosso bem, apoio-vos a 110%! Mas... quem te vai substituir?
- Ainda não sei, o chefe diz que está à procura de uma pessoa.
- Tudo há-de se resolver.
Saí da sala e fui buscar o café, dividi pelas chávenas e entreguei-lho.
Ficamos um pouco a conversar até que a campainha tocou.
- Deve ser o Nuno.
- Bem, aproveito e saio, já se faz tarde.
Abri a porta e o Nuno entrou, cumprimentou o Francisco, enquanto este saia.
- Gostei desta pequena conversa. Obrigada por me teres vindo dizer isto pessoalmente.- Abraceio-o - Desejo-te tudo de bom!
- Obrigada. A ti também.
Fechei a porta. Levantei da mesa da sala as chávenas e fui à cozinha preparar o jantar.
- Nuno, alguma preferência para o jantar?
- Não vou jantar contigo hoje.
A resposta foi seca, fria e completamente direta. Achei-o estranho...
Fui ter com ele à casa de banho e vi-o a arranjar-se para sair.
- Uhm... passou-se algo?
- Não.
- Algum stress do trabalho?
- Não.
- Queres falar?
- Já não o estamos a fazer? Para quê o interrogatório?
- Desculpa. Só estou preocupada.
- Preocupa-te menos.
Ele tinha dito tudo. Voltei à cozinha e lavei a loiça. Desliguei o fogão, perdi a vontade de fazer o jantar. Fui para o quarto, escolhi a roupa de dormir e pu-la em cima da cadeira. Deitei-me na cama a ler enquanto esperava que a casa de banho ficasse livre para ir tomar banho.
Meia-hora depois ele saiu da casa de banho, aproximou-se de mim e sentou-se ao meu lado. Não desviei os olhos do livro, onde já não estava a tenta, mas fingia estar. Ele pegou no livro, pousou-o e abraçou-me:
- Desculpa, desculpa, desculpa milhões de vezes!
- As desculpas não se pedem. Evitam-se.
- Mas quando nos é difícil evitar, pedem-se! Foi o stress do trabalho. Hoje tinha preparado uma surpresa para o nosso serão e convocaram uma reunião de urgencia. Desculpas-me?
- Sim.
- Já sei! Vens comigo à reunião!
- Não, não vou.
- Porquê?
- Porque se fosse possível eu ir, tinhas dito desde o inicio.
- Vais ficar sozinha?
- Não te preocupes comigo, eu ficarei bem. Boa reunião.
Ele deu-me um beijo e saiu. Se estou a ser injusta? Não. Sou excessivamente desconfiada. Não tenho culpa. Os homens fizeram-me ficar assim. E o Nuno estava estranho... Muito estranho. Se ele quisesse que eu fosse à tal reunião teria insistido mais, não? Ou estarei eu a fazer uma tempestade num copo de água? Não sei. O que sei é que a estranheza dele não justifica o seu comportamento. Ou justifica?