sábado, 15 de dezembro de 2012

Parte # 17


Já se passaram alguns dias e o ambiente em casa é do pior! O Nuno anda distante e não, não é da minha cabeça. Ele passa os dias a trabalhar e em reuniões e quando está em casa, fecha-se no escritório. Parece que arranja desculpas para não estar comigo. Como agora, ele está no escritório a “fingir” que trabalha. Abro a porta.
- Desculpa mas estamos à dias nisto e não suporto mais. Parecemos dois estranhos numa casa minúscula. Se já não sentes o mesmo por mim, compreendo. Por isso, diz de uma vez e acaba com isto.
- Isto o quê?
- Não te faças de estúpido, é coisa que tu não és. “Isto”, essa estranheza um do outro, estes impasses. “isto”, relacionamento.
- Estás doida? Eu…ah..
- Tu?
-  Eu, a..amo-te. Só estamos a passar uma fase má. Vem cá.
Ele puxa-me e abraça-me, penso em como lhe custou dizer aquele “amo-te”. Mas esqueço isso e deixo-me levar. Será mesmo que estava a ser sincero? Não me pareceu, mas espero que sim.
- Só não quero que estejas neste relacionamento para não me sentir mal. É obvio que me vou magoar e sofrer, mas entendo, acima de tudo, ponho-me no teu lugar e entendo.
- Cala-te, tonta.
Ele abraçou-me mais uma vez e não falamos mais nesse dia. Nem mais uma palavra. Eu saí e disse-lhe que iria voltar mais tarde. Não lhe disse para onde ia, porque nem eu sei. Quero apenas andar, apanhar ar. Hoje está um dia bom para isso, igual ao meu estado de espírito: Nublado, escuro, e prestes a chover. Tenho vestido umas calças beges, uma camisola de lã e um casaco vermelho, mas mesmo assim o frio teima em ser mais forte. A minha cabeça está longe. Tão longe que nem me apercebo que já andei bastante. Estou por cima da ponte, e que vista linda. Olho por cima da cidade e quase que “vejo” cada história, cada discussão, cada noticia boa em cada casa, em cada casal que passa na rua. Olho para o horizonte. Quem me dera não ter tantas coisas a preencher-me a cabeça. Naquele momento só gostava de estar a apreciar o por do sol com ele. Abraçada a ele para que o frio se tornasse escasso em comparação com o nosso amor presente num abraço, num beijo, numa simples presença. Porque é que as coisas têm de ser assim? E por incrível que pareça, apetece-me chorar. Com todas as coisas que se passaram na minha vida, aprendi a ser forte e a nunca chorar num mau momento, apenas lembrar sempre os lados bons e seguir em frente. Mas há momentos que estamos tão em baixo, que não vemos nenhum lado bom. E quando isso acontece, explodimos. E as pessoas têm diferentes maneiras de explodir – Ou riem, ou choram, ou suicidam-se, ou simplesmente, seguem em frente de cabeça erguida. Eu? Eu rio e choro simultaneamente; suicido-me várias vezes ao dia, psicologicamente; e sigo em frente de cabeça erguida, mesmo não tendo caminho para seguir.
Ligo à Laura para saber se ela pode vir tomar um café comigo, depois  de combinarmos o sitio, desliguei a chamada e mandei rapidamente uma mensagem ao Nuno:
“Ao ver o por do sol, só desejo ter-te aqui. Era tão bom sentir o teu abraço a minimizar o frio que sinto. Era tão bom…tudo. Amo-te.
S. “
Visto ele estar de folga, e ter tempo, deduzi que ele fosse rápido a responder, mas não foi esse o caso.
Quando cheguei, a Laura ainda não tinha chegado, o costume.
Olhei à minha volta. O ambiente estava mesmo perfeito, estava quente, mas não muito abafado, cheirava a café acabado de fazer e não havia muitas pessoas.
No balcão tinha um casal já idoso, olhavam um para o outro com ar tão apaixonado. É lindo isso, quando o amor é verdadeiro que ultrapassa tudo, incluindo o tempo. Quando existe amizade, companheirismo, respeito, lealdade, por cima de tudo e todos.
 Aproximei-me e pedi um batido de morango. O empregado disse-me que podia ir me sentar enquanto esperava pelo pedido. Sentei-me e tirei da mala um bloco de notas. Enquanto rabiscava, o empregado chega com um batido e um guardanapo por baixo do mesmo. Tinha algo escrito no guardanapo mas por causa do vapor do batido, molhou o papel e só se lia «, outra vez. Acredita.»
Olhei à minha volta e não vi ninguém conhecido, olhei para o empregado e tentei perceber se o conhecia, mas não.
- Olhe, desculpe, deu-me este guardanapo com algo escrito, foi um lapso ou era mesmo para mim?
 - Sim, era. Foi aquele Senhor que mandou entregar. - Ele apontou para o vazio. - Ele estava ali sentado, juro. Até pagou o seu batido.
- E sabe o nome?
- Não, não o conheço. Desculpe.
- Tudo bem, obrigado.

Quem será esse simpático ser que oferece batidos. Por favor, que não seja mais um "Nuno" que se interessou por mim. Por favor, por favor. Dou por mim a falar sozinha no meio da rua. Olho em redor e suspiro por ninguém estar perto e me chamar de maluca. Fui embora porque a Laura não apareceu e não me atende as chamadas.
Uma noite, duas horas, tudo muito estranho...