domingo, 17 de março de 2013

Parte # 20


Sentei-me na berma da estrada. O mais provável era haver pessoas à minha volta. Mas eu não as vi, não conseguia. Não via pessoas, animais, carros...nada. Porque estava no meu mundo. Estava a descontrair com o auscultadores colocados, e ao ritmo da música, cada músculo do meu corpo dançava. E os meus pensamentos giravam à volta de cada nota musical. Mas como tudo na vida, nada do que é bom, dura para sempre. A música acabaria, o MP3 ficaria sem bateria, entre outros motivos inexplicáveis. Comecei a ver as pessoas, comecei a viver a triste realidade, outra vez. Sentei-me naquela berma à espera de qualquer coisa. Algo sem nome, algo que nem eu sabia o que era, mas por que sempre esperei. Talvez uma boleia para a felicidade, talvez um sorriso dentro de um Mercedes Azul que me mostrasse o outro lado do mundo, sem que fosse necessário fazer perguntas. Sentei-me ali, e esperei. Esperei horas. Mas não podia continuar ali, sem que nada acontecesse, sem que eu fizesse algo para que acontecesse, seja lá o que for. Então decidi levantar-me e correr. Correr sem medo do que iria encontrar. O que procuras tu? Qual a primeira coisa que pensas quando acordas? Será que é mesmo isso, ou tu queres pensar que é isso? Procuro frases, fotos, recordações, vasculho todos os baús antigos na minha cabeça e nada. Vejo as fotografias de cada vivência, um pouco estragadas pela humidade e pelo tempo. Vejo pessoas desconhecidas que há muito, muito tempo, foram as mais chegadas. Eu vejo vida, ou pelo menos, parte dela. Vejo caminhos que se perderam, que se encontraram e outros que se cruzaram sem querer. Eu vejo felicidade, inocência... Vejo dor, falta, vazio. Não um vazio qualquer... Um vazio como um móvel que saiu do lugar, e deixou a sua marca no chão. Às vezes lembro-me de tudo, outras, parece que não vivi a minha própria vida. Nesses momentos, respiro fundo, olho à minha volta e toda a gente está à espera de algo vindo de mim. Não tenho tempo para pensar, e não me dão espaço para mover. Estou com o braço um pouco levantado e seguro algo. Mas quase não tenho força. Sinto-me a falhar. Estou apavorada mas sei que tenho de ser forte. Desistir é a última coisa a fazer. Volto a olhar à volta e toda a gente olha-me. Desejo poder fechar os olhos e depois abri-los para que estas pessoas desapareçam, e aí perceber que é um sonho. Mas tenho medo. E se ao fechar os olhos, não conseguir abri-los mais? Volto a respirar fundo. Fecho os olhos. Sinto a pressão das pessoas sobre mim. Abro os olhos e continuam ali. Não tenho outra saída... Fecho os olhos, respiro fundo e desta vez...decidida, puxo o gatilho.
Não é que não me apetecesse que fosse um gatilho verdadeiro, mas tenho de ser forte e ultrapassar isso, esse gatilho que puxei foi a coragem para reparar tudo da minha vida, da vida que partilho com o Nuno. Não podemos, nem tão pouco eu posso continuar assim.
Estacionei o carro, saí, coloquei a chave na fechadura e rodei-a. Esse era o último assunto que tinha de esclarecer e ainda assim, o mais complicado. Como haveria de começar a conversa?
"Olá, como estás?"- É obvio que não está bem, não posso começar assim.;
"Olá. Temos de falar." - É claro que temos de falar! Isso qualquer um de nós sabe.;
Só entradas estúpidas, tenho de começar com calma, mas não enrolando muito... Nem tão pouco posso começar com "Não é aquilo que estás a pensar." (O que qualquer pessoa diz e que quase sempre é aquilo que outrém pensa.).
Entro e fecho a porta atrás de mim. Ele está sentado no sofá, de costas para mim. Chego-me perto dele, pouso a mão no seu ombro.

- Nuno...

Ele vira-se e consigo ver-lhe a expressão triste no rosto e os olhos aguados. Nunca o tinha visto assim. E custa-me. Custa-me ver quem eu amo a chorar e saber que podia ter evitado isso.
Eu dou um passo atrás e deixo o silêncio invadir a sala, sou fraca, não consigo dizer nada, é aí que ele quebra o silêncio e lança uma bomba:

- Ele ainda mexe contigo?
- Nuno, percebeste tudo mal. Ele não mexe comigo de maneira alguma, dele só sinto pena e arrependimento, porque gastei tempo demais amando quem não merecia nada da minha parte. Tu foste completamente o contrário dele. Então podes-me chamar de tua, porque eu simplesmente não quero ser de mais ninguém. Eu prometo que vou lutar contra o mundo todo, se prometeres que vais estar a segurar na minha mão enquanto eu fizer isso. Para o bem dos dois. Porque quando há amor, as pessoas encontram uma solução para as coisas darem certo. Por isso, por favor não desistas de mim. Eu nunca me irei arrepender de nada que tenha feito contigo ou por ti, porque por agora e já há muito tempo, tens sido a maior razão do meu sorriso. Devo-te isso e muito mais. 

- Desistir de ti? Tu foste a melhor escolha que fiz na vida. Mesmo de me teres dado uma tampa naquele Bar, eu fui atrás de ti, porque sabia que se desistisse, iria perder a mulher da minha vida. Eu sei que foi o que ele fez, mas eu não conseguiria viver sabendo que fui um covarde. Por isso é que meto-me no lugar dele, porque ele deve estar arrependido de te ter deixado e agora ser um nada. 
- Como disseste, ele teve a sua oportunidade. Agora tenho a minha de ser feliz e ela és tu. És a minha felicidade e o meu motivo de sorrir. 

Nisto, as lágrimas dele começam a correr e as minhas também. 

- Não chores, por favor. - digo-lhe.
- Não aguentaria perder-te. Não posso, Sofia.
- No que depender de mim, não acontecerá. Mas, Nuno...
- Sim?
- Tu não me perdes se eu também não te perder.

Ele afasta-se um pouco, olha-me nos olhos e diz:
- Como assim?
- Já falamos sobre isso, tens andado distante, não me ligas nenhuma, recusas todo o tipo de convite que te faço. Tentei de todas as maneiras aproximarmo-nos mais mas tu cortaste qualquer tipo de aproximação vinda de mim, na ultima vez que disseste "Amo-te" custou-te pronunciar tais palavras e isso matou-me por dentro. Estavas de folga, liguei para cá e quem atendeu foi a tua assistente. 

As minhas lágrimas correram com mais força. Ele puxou-me para si e sussurrou:
- És uma tonta. Algumas vez trocaria a minha deusa por aquele bocadinho de mulher?
- Então?
- Ela veio cá, não trabalhar, mas ajudar-me numa surpresa que fazia para ti.
- Cá em casa? 
- Não. Eu queria que tivesse sido no escritório para que não ficasse nenhuma prova que pudesses desconfiar. Mas ela insistiu que tivesse sido aqui e não entendi porquê. Depois de vocês falarem pelo telefone ela contou-me que tu desligaste-lhe na cara e ela ficou abaladíssima, estranhei tal comportamento e questionei-lhe, ela disse-me que estava apaixonada por ti. - Não te rias. - E que se cá viesse, ficaria mais perto das tuas coisas.

Eu rio-me e depois fico séria:
- E a surpresa?
- Pois, com isso tudo cancelei-a. Mas o que conta é a intenção. E apesar de poder deixar isto para outra altura, não consigo ficar mais nenhum dia afastado de ti, e ver-te sofrer com isso.

Ele tira algo do bolso.

- Queres casar comigo?
                                 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Parte # 19

Cheguei ao escritório o Pedro estava sentado na secretária, olhei para ele e segui caminho direto. O chefe interrompeu os meus pensamentos e a minha caminhada.

- Sofia, estás com pressa?
- Sim, estou. E sim para a outra pergunta também.
- Como assim?
- A sua próxima pergunta seria se já terminei o relatório que me pediu, está no meu computador, na pasta "Ficheiros", é só imprimir.
- E não podes fazer isso por mim?
- Faria, mas como disse, estou com pressa.
- Eu também não tenho, quando terminares as tuas coisas imprime-o, se faz favor.

Aceno com a cabeça, viro-lhe as costas e vou até ao Pedro.

Quando me falta apenas 3 passos para lhe enfrentar, penso em como hei-de começar a conversação. Com um "olá"? Não me parece conveniente.
Cheguei, e digo-lhe a primeira coisa que me passa pela cabeça:

- "Olá."
Sim, a sério que foi isso... Dou bofetadas em mim mesma, mentalmente.
Vê-se, claramente, que ele ficou sem reação.

- Uh... olá...Olá Sofia.

- Não achei bem da tua parte teres me dito algo por escrito e não teres coragem suficiente para mo dizeres frente a frente.

- Não é fácil para mim. - Diz-me ele.

- Não? E para mim é muito mais fácil, não é? Tu não tens noção do quão difícil foi esquecer tudo o que se passou, apagar aquilo que sentia, e quando finalmente consegui, ter de te ver diariamente. Eu sabia que não ia ter nenhuma recaída porque já te esqueci completamente, mas magoaste-me tanto que não imaginava trabalhar contigo. Mas não se tornou assim tão difícil.

- Pára! Eu sei que fui um idiota, um besta. Eu sei que perdi a única mulher que algum dia me valorizou, eu sei. Por isso é que por um lado, eu estou feliz por saber que tu estás feliz.

- Não sejas assim, tens uma longa vida pela frente, vais ver que encontrarás alguém que te compreenda e seja compatível contigo.

- Eu sei que não, nunca na vida temos as mesmas oportunidades repetidas. Tive a minha, perdi-a, e não a recuperarei. - Diz-.me ele com as lágrimas nos olhos.

- Acho que sempre tiveste medo quando falava daquele amor por ti. Tiveste medo de confiar, acreditar ou apostar naquela relação que poderia vir a ser eterna. A diferença é que sempre tiveste motivos para confiar e acreditar, eu nunca os tive. Revelaste insegurança, demonstrada pelas vezes que dissemos um ao outro para cada um seguir o seu caminho e horas mais tarde estávamos de novo juntos. Eras muito imaturo, dono de um mundo que se torna pequeno até mesmo para albergar a tua presença. Primeiramente lutei com todas as minhas forças para te conquistar daquela tua vida miserável. Eram imensos os meus sonhos optimistas. Ao final de alguns meses percebi que lutar não era tudo – decidi esperar por ti. Vivia uma mistura de amor com solidão e por fim, tinha chegado a altura de perceber que o nosso destino, aquele que nos juntou, era o mesmo que não iria querer que ficássemos juntos. - Disse-lhe, engolindo em seco. Finalmente estávamos a esclarecer as coisas e a enterrar o assunto.

- Após a tua ida, atravessei diversas fases. Aceitar que já não estarias mais ao meu lado, aceitar que não irias voltar a chamar-me de “meu amor”, acordar com o teu bom dia ou adormecer ao sabor da tua voz romântica, levou-me ao desespero. Chorei rios de lágrimas, não tenho vergonha de admitir. As saudades doíam, e ainda hoje doem. - Diz-me ele. 

-  Tu foste a minha grande aposta e a minha maior decepção. Acredita que nós nunca morremos, apenas passamos para uma outra dimensão e eis que tinha chegado o momento certo para te esquecer e ver a vida com outros olhos.  Foram estes mesmos olhos que viram de novo uma forma de vida bem mais feliz, pela ausência da tua existência. Mas não é só isto que quero dizer-te, quero que saibas que hoje vivo imensamente feliz por ter vencido as lutas em teu nome e que iam destruindo a minha vida. Vivo de novo apaixonada por um homem, diria profundamente apaixonada e conhecedora dos meus sentimentos serem recíprocos. Ele faz-me sentir bem comigo mesma, bem com ele, bem com a vida e bem com todos. Este amor pode não ser para sempre, mas é inesquecível a cada dia que passa. Sabes que ele fez-me acreditar em coisas que eu mesmo desconhecia dentro de mim?


- Acredito. Eu vejo como tu olhas para ele, vejo como ele olha para ti! E o que mais me doi é que eu nunca fui capaz de te olhar dessa forma. - Uma lágrima corre-lhe pelos olhos enquanto fala. - Desejo-te do fundo do coração que sejas imensamente feliz. Peço ainda que me perdoes todo o mal que possa ter causado. Desejo que ames muito nesta vida. Desculpa, mas eu ainda te amo e para ti, não preciso fingir que te amo, nem esconder este sentimento. A realidade acaba por ser mesmo esta, a que acabo de apresentar.

- Pedro, não vou esticar muito mais esta conversa. Se porventura um dia quiseres falar comigo, a minha porta continua aberta para uma visita tua. Espero que venhas por bem, caso contrário, o caminho que te traz até mim, será o mesmo que te leva de volta. Não te arrependas por não termos ficado juntos, acredita que me sinto bem mais feliz com ele do que senti contigo. A vida é mesmo assim. - digo-lhe, com um sorriso acolhedor.

Ele levanta-se.

- Posso dar-te um último abraço? - Pergunta-me ele.

- Claro! - Digo-lhe eu esticando os braços. - Apesar de tudo, terás sempre uma amiga aqui para o que te puder ajudar.






***

Noutro ângulo, noutra visão. Na mesma empresa. Ele falou com o chefe.

- A Sofia já chegou do almoço?
- Já sim, está naquela sala.
- Obrigada.

Quando ele vê a sua mulher nos braços de outro, cai-lhe tudo ao chão. Aquele não é o ex-namorado que ela lhe falou? Será que teve uma recaída? Será que quando me falava todas aquelas vezes de estar a ficar farta, era a sério? Será que chegara o dia? Ele limitou-se a baixar a cabeça, virar costas e ir embora.

***
Depois do abraço, despedi-me do Pedro e vi o Nuno a sair da sala.

- Nuno, espera!

Ele não me ouviu, ou simplesmente ignorou-me... fui atrás dele, pois só me faltava  o seu assunto. Cheguei à rua e não o apanhei.
Voltei para o escritório e rapidamente imprimi o relatório, deixei em cima da secretária do chefe e fui para casa.
Bip Bip. Uma nova mensagem recebida.

"Eu sei que nada depende de mim. Mas se dependesse eu ajudaria a curares essa dor que te atravessa. Talvez fizesse com que encontrasses outra saída para os teus conflitos internos e confusos. Mesmo que te causasse uma dor ainda maior, faria com que tu olhasses para dentro, onde repousa a serpente que te envenena todos os dias e que tu a alimentas através dos teus próprios pensamentos e atos. Eu peço desculpa pela falta de atenção que não te tenho dado, nunca pensei que chegasse a este ponto. Sei que nada depende de mim, porque cada um depende a própria vida e as suas próprias escolhas.
Sabes onde me encontrar. N."

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Parte # 18

Uma semana já se tinha passado e a Laura não retornou a chamada. Nem uma simples mensagem a dizer porque não pôde comparecer ao encontro, nem tão pouco a desculpar-se por me ter feito esperar ao invés de desmarcar; No trabalho, felizmente está tudo bem e estranhamente, partilhar o mesmo local, diariamente com o Pedro, não tem sido assim tão difícil. Talvez, porque eu tento e faço de tudo para evitá-lo; Em casa, tudo na mesma. O nuno continua igual e eu já não falo no quão estranho ele se torna para mim, cada vez mais. Não falo, talvez pelo facto de estar cansada, farta de gastar saliva em vão e por ele nada mudar em relação a isso.
Neste momento saio de casa para ir trabalhar, mas antes vou ter de passar por uma pastelaria que fica a caminho, para comer qualquer coisa. 

***

Na pastelaria, sentada, olho para a janela e penso no tempo. Hoje está uma manhã fria e simultaneamente, confortável. Não chove, mas os ramos das árvores, deixam cair alguns vestígios de já ter chuviscado. Não está muito vento e isso ajuda-me na guerra que todos os dias faço com o meu cabelo. Está bem, admito, quando penso no tempo, não é esse. É no passado, no presente, no futuro. Do passado, penso e lembro-me de como em míseros meses conheci uma pessoa perfeita, uma pessoa que me transbordasse, que me apoiasse, que estivesse comigo, sempre. Conheci, ou foi o que o meu coração e a minha cabeça desejavam tanto? Não, não posso pensar assim, via-se nos seus olhos que o que ele sentia por mim era real e verdadeiro. Mas no presente é o que se vê, e se continuar assim, não quero que isso se torne rotina no meu futuro. Não quero. Não quero voltar a viver isso, e em contrapartida, não quero voltar a viver do zero. Limpo a lágrima que me cai pelo rosto e volto à realidade, quando alguém me chama.

- Boa tarde, Sofia Bonito?

Um enorme ramo de flores estava exposto numas mãos masculinas, não lhe consegui ver a cara.

- A própria.
- Então isto é para si.
- De quem?
- Isso já não sei, mas tem um cartão.
- Ok, obrigado.

Muito estranho. Ninguém sabia que eu estava ali, pelo menos ninguém que tencionasse mandar-me um monstruoso ramo de flores. Será que deva abrir? Tenho medo. E se for um psicopata que se apaixonou por mim, e quando me apanhar sozinha abusa de mim? Não, não, não. Pode ser do Nuno. Sim, ele pode ter mandado para me pedir desculpa pela sua distância. Ou para terminar tudo de forma a que não fosse tão pesado para mim. De qualquer das maneiras, seria. Abri rapidamente o envelope. Estava ansiosa, nervosa.
Não era um cartão, quase que era uma carta. Fiquei pior ainda. Li.

"Eu lembro-me, sabes? Estava naquela esplanada do restaurante, reparei numa mulher sentada a ler. Eras tu. Tinhas o cabelo castanho escuro, vestias um vestido Azul Turquesa. Descontraida e elegante. Não conseguia tirar os olhos de ti, e não percebia o porquê. Comecei a reparar nos pequenos pormenores: na forma segura e delicada como voltavas as páginas do livro, nos lábios; no sorriso inteligente e natural cada vez que passavas uma folha. Dizia aos meus colegas que tinha de te conhecer, de uma forma ou de outra. E conheci, mas não aproveitei. Pensava que ia ser mais uma passagem na minha vida, e não percebi que afinal eras a vida inteira. Mas agora que penso nisso, tudo faz sentido. A maneira como os teus olhos devoravam as palavras no livro. A forma inigualável de mexeres e puxares o cabelo para trás. E naquele dia, sem te conhecer, senti ciúme. O teu telemóvel tocou e mal olhaste para o ecrã sorriste pelo nome que mostrava no visor. Serias comprometida? Olhei desesperadamente para as tuas mãos para ver se tinhas aliança, mas as mulheres têm tantos anéis nos dedos que não deu para perceber. Mesmo que não te volte a ter, fico descansado por saber que pus tudo isto cá para fora e, principalmente, por saber que estás bem e mais feliz do que alguma vez te pude fazer.
Acabo com uma frase que me define neste exato momento, e quem sabe, para sempre.
“Aprendi que amar não significa estar junto, mas sim querer ver a outra pessoa feliz, mesmo que isso custe a minha felicidade.”

Sempre teu,
Pedro."

Oh-meu-deus! Não acredito nisto.
Levanto-me, pego no ramo de flores e deixo-as em cima do balcão.

- Desculpe, onde está aquela empregada que me atendeu?
- Só faz turnos à tarde, veio aqui de passagem. Algo que possa ajudar? - Responde-me o empregado.
- Sim. Espere um pouco.

Tiro rapidamente o meu bloco de notas e a esferográfica da mala.

"Não me conhece, mas eu conheço-a muito bem. (Mais ou menos) Sou muito observadora e reparei que de todas as vezes que a sua filha passa aqui só para lhe dar um beijo, o seu rosto ilumina-se, e foi a coisa mais mágica, mais apaixonante que vi. Aceite este pequeno presente, não só por me ter ensinado algo, mas por ser a grande mulher e mãe que é. Beijinhos, Sofia."

- Desculpe, pode entregar isto à empregada?
- Claro.
- Obrigada.

Segui pela rua cima, em direção ao escritório. Pelo caminho liguei para casa para saber se estava tudo bem com o Nuno. Começava a fartar-me também de ser sempre eu a ligar.

- Bom dia. - Atendeu uma voz feminina.
- Uh, bom dia, posso saber quem fala?
- Isso pergunto eu, foste tu que ligaste.
- Desculpe? Em primeiro lugar, não me trate por "tu" porque não andei na mesma escola que você. Em segundo, eu liguei para a minha casa, logo quem tem que dar esxplicações não sou eu.
- Ah, Sofia? Desculpe. Sou a Diana, assistente do Nuno...Não reconheci a sua voz, desculpe.
- Posso saber o que faz na minha casa? Onde está o Nuno?
- Ele foi buscar o nosso almoço, decidimos trabalhar cá em casa hoje.
- Ok, obrigada. Quando ele chegar diga-lhe para me ligar.
- Sofia, olhe pode me dizer...

Desliguei, sem deixar que ela acabasse. 
Muita informação para um dia só. Mas uma coisa de cada vez, primeiro irei ao escritório, falar com o Pedro e enterrar a cabeça em trabalho.
 Com que então trabalho extra, na minha casa...