quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Parte # 18

Uma semana já se tinha passado e a Laura não retornou a chamada. Nem uma simples mensagem a dizer porque não pôde comparecer ao encontro, nem tão pouco a desculpar-se por me ter feito esperar ao invés de desmarcar; No trabalho, felizmente está tudo bem e estranhamente, partilhar o mesmo local, diariamente com o Pedro, não tem sido assim tão difícil. Talvez, porque eu tento e faço de tudo para evitá-lo; Em casa, tudo na mesma. O nuno continua igual e eu já não falo no quão estranho ele se torna para mim, cada vez mais. Não falo, talvez pelo facto de estar cansada, farta de gastar saliva em vão e por ele nada mudar em relação a isso.
Neste momento saio de casa para ir trabalhar, mas antes vou ter de passar por uma pastelaria que fica a caminho, para comer qualquer coisa. 

***

Na pastelaria, sentada, olho para a janela e penso no tempo. Hoje está uma manhã fria e simultaneamente, confortável. Não chove, mas os ramos das árvores, deixam cair alguns vestígios de já ter chuviscado. Não está muito vento e isso ajuda-me na guerra que todos os dias faço com o meu cabelo. Está bem, admito, quando penso no tempo, não é esse. É no passado, no presente, no futuro. Do passado, penso e lembro-me de como em míseros meses conheci uma pessoa perfeita, uma pessoa que me transbordasse, que me apoiasse, que estivesse comigo, sempre. Conheci, ou foi o que o meu coração e a minha cabeça desejavam tanto? Não, não posso pensar assim, via-se nos seus olhos que o que ele sentia por mim era real e verdadeiro. Mas no presente é o que se vê, e se continuar assim, não quero que isso se torne rotina no meu futuro. Não quero. Não quero voltar a viver isso, e em contrapartida, não quero voltar a viver do zero. Limpo a lágrima que me cai pelo rosto e volto à realidade, quando alguém me chama.

- Boa tarde, Sofia Bonito?

Um enorme ramo de flores estava exposto numas mãos masculinas, não lhe consegui ver a cara.

- A própria.
- Então isto é para si.
- De quem?
- Isso já não sei, mas tem um cartão.
- Ok, obrigado.

Muito estranho. Ninguém sabia que eu estava ali, pelo menos ninguém que tencionasse mandar-me um monstruoso ramo de flores. Será que deva abrir? Tenho medo. E se for um psicopata que se apaixonou por mim, e quando me apanhar sozinha abusa de mim? Não, não, não. Pode ser do Nuno. Sim, ele pode ter mandado para me pedir desculpa pela sua distância. Ou para terminar tudo de forma a que não fosse tão pesado para mim. De qualquer das maneiras, seria. Abri rapidamente o envelope. Estava ansiosa, nervosa.
Não era um cartão, quase que era uma carta. Fiquei pior ainda. Li.

"Eu lembro-me, sabes? Estava naquela esplanada do restaurante, reparei numa mulher sentada a ler. Eras tu. Tinhas o cabelo castanho escuro, vestias um vestido Azul Turquesa. Descontraida e elegante. Não conseguia tirar os olhos de ti, e não percebia o porquê. Comecei a reparar nos pequenos pormenores: na forma segura e delicada como voltavas as páginas do livro, nos lábios; no sorriso inteligente e natural cada vez que passavas uma folha. Dizia aos meus colegas que tinha de te conhecer, de uma forma ou de outra. E conheci, mas não aproveitei. Pensava que ia ser mais uma passagem na minha vida, e não percebi que afinal eras a vida inteira. Mas agora que penso nisso, tudo faz sentido. A maneira como os teus olhos devoravam as palavras no livro. A forma inigualável de mexeres e puxares o cabelo para trás. E naquele dia, sem te conhecer, senti ciúme. O teu telemóvel tocou e mal olhaste para o ecrã sorriste pelo nome que mostrava no visor. Serias comprometida? Olhei desesperadamente para as tuas mãos para ver se tinhas aliança, mas as mulheres têm tantos anéis nos dedos que não deu para perceber. Mesmo que não te volte a ter, fico descansado por saber que pus tudo isto cá para fora e, principalmente, por saber que estás bem e mais feliz do que alguma vez te pude fazer.
Acabo com uma frase que me define neste exato momento, e quem sabe, para sempre.
“Aprendi que amar não significa estar junto, mas sim querer ver a outra pessoa feliz, mesmo que isso custe a minha felicidade.”

Sempre teu,
Pedro."

Oh-meu-deus! Não acredito nisto.
Levanto-me, pego no ramo de flores e deixo-as em cima do balcão.

- Desculpe, onde está aquela empregada que me atendeu?
- Só faz turnos à tarde, veio aqui de passagem. Algo que possa ajudar? - Responde-me o empregado.
- Sim. Espere um pouco.

Tiro rapidamente o meu bloco de notas e a esferográfica da mala.

"Não me conhece, mas eu conheço-a muito bem. (Mais ou menos) Sou muito observadora e reparei que de todas as vezes que a sua filha passa aqui só para lhe dar um beijo, o seu rosto ilumina-se, e foi a coisa mais mágica, mais apaixonante que vi. Aceite este pequeno presente, não só por me ter ensinado algo, mas por ser a grande mulher e mãe que é. Beijinhos, Sofia."

- Desculpe, pode entregar isto à empregada?
- Claro.
- Obrigada.

Segui pela rua cima, em direção ao escritório. Pelo caminho liguei para casa para saber se estava tudo bem com o Nuno. Começava a fartar-me também de ser sempre eu a ligar.

- Bom dia. - Atendeu uma voz feminina.
- Uh, bom dia, posso saber quem fala?
- Isso pergunto eu, foste tu que ligaste.
- Desculpe? Em primeiro lugar, não me trate por "tu" porque não andei na mesma escola que você. Em segundo, eu liguei para a minha casa, logo quem tem que dar esxplicações não sou eu.
- Ah, Sofia? Desculpe. Sou a Diana, assistente do Nuno...Não reconheci a sua voz, desculpe.
- Posso saber o que faz na minha casa? Onde está o Nuno?
- Ele foi buscar o nosso almoço, decidimos trabalhar cá em casa hoje.
- Ok, obrigada. Quando ele chegar diga-lhe para me ligar.
- Sofia, olhe pode me dizer...

Desliguei, sem deixar que ela acabasse. 
Muita informação para um dia só. Mas uma coisa de cada vez, primeiro irei ao escritório, falar com o Pedro e enterrar a cabeça em trabalho.
 Com que então trabalho extra, na minha casa...