Cheguei ao escritório o Pedro estava sentado na secretária, olhei para ele e segui caminho direto. O chefe interrompeu os meus pensamentos e a minha caminhada.
- Sofia, estás com pressa?
- Sim, estou. E sim para a outra pergunta também.
- Como assim?
- A sua próxima pergunta seria se já terminei o relatório que me pediu, está no meu computador, na pasta "Ficheiros", é só imprimir.
- E não podes fazer isso por mim?
- Faria, mas como disse, estou com pressa.
- Eu também não tenho, quando terminares as tuas coisas imprime-o, se faz favor.
Aceno com a cabeça, viro-lhe as costas e vou até ao Pedro.
Quando me falta apenas 3 passos para lhe enfrentar, penso em como hei-de começar a conversação. Com um "olá"? Não me parece conveniente.
Cheguei, e digo-lhe a primeira coisa que me passa pela cabeça:
- "Olá."
Sim, a sério que foi isso... Dou bofetadas em mim mesma, mentalmente.
Vê-se, claramente, que ele ficou sem reação.
- Uh... olá...Olá Sofia.
- Não achei bem da tua parte teres me dito algo por escrito e não teres coragem suficiente para mo dizeres frente a frente.
- Não é fácil para mim. - Diz-me ele.
- Não? E para mim é muito mais fácil, não é? Tu não tens noção do quão difícil foi esquecer tudo o que se passou, apagar aquilo que sentia, e quando finalmente consegui, ter de te ver diariamente. Eu sabia que não ia ter nenhuma recaída porque já te esqueci completamente, mas magoaste-me tanto que não imaginava trabalhar contigo. Mas não se tornou assim tão difícil.
- Pára! Eu sei que fui um idiota, um besta. Eu sei que perdi a única mulher que algum dia me valorizou, eu sei. Por isso é que por um lado, eu estou feliz por saber que tu estás feliz.
- Não sejas assim, tens uma longa vida pela frente, vais ver que encontrarás alguém que te compreenda e seja compatível contigo.
- Eu sei que não, nunca na vida temos as mesmas oportunidades repetidas. Tive a minha, perdi-a, e não a recuperarei. - Diz-.me ele com as lágrimas nos olhos.
- Acho que sempre tiveste medo quando falava daquele amor por ti. Tiveste medo de confiar, acreditar ou apostar naquela relação que poderia vir a ser eterna. A diferença é que sempre tiveste motivos para confiar e acreditar, eu nunca os tive. Revelaste insegurança, demonstrada pelas vezes que dissemos um ao outro para cada um seguir o seu caminho e horas mais tarde estávamos de novo juntos. Eras muito imaturo, dono de um mundo que se torna pequeno até mesmo para albergar a tua presença. Primeiramente lutei com todas as minhas forças para te conquistar daquela tua vida miserável. Eram imensos os meus sonhos optimistas. Ao final de alguns meses percebi que lutar não era tudo – decidi esperar por ti. Vivia uma mistura de amor com solidão e por fim, tinha chegado a altura de perceber que o nosso destino, aquele que nos juntou, era o mesmo que não iria querer que ficássemos juntos. - Disse-lhe, engolindo em seco. Finalmente estávamos a esclarecer as coisas e a enterrar o assunto.
- Após a tua ida, atravessei diversas fases. Aceitar que já não estarias mais ao meu lado, aceitar que não irias voltar a chamar-me de “meu amor”, acordar com o teu bom dia ou adormecer ao sabor da tua voz romântica, levou-me ao desespero. Chorei rios de lágrimas, não tenho vergonha de admitir. As saudades doíam, e ainda hoje doem. - Diz-me ele.
- Tu foste a minha grande aposta e a minha maior decepção. Acredita que nós nunca morremos, apenas passamos para uma outra dimensão e eis que tinha chegado o momento certo para te esquecer e ver a vida com outros olhos. Foram estes mesmos olhos que viram de novo uma forma de vida bem mais feliz, pela ausência da tua existência. Mas não é só isto que quero dizer-te, quero que saibas que hoje vivo imensamente feliz por ter vencido as lutas em teu nome e que iam destruindo a minha vida. Vivo de novo apaixonada por um homem, diria profundamente apaixonada e conhecedora dos meus sentimentos serem recíprocos. Ele faz-me sentir bem comigo mesma, bem com ele, bem com a vida e bem com todos. Este amor pode não ser para sempre, mas é inesquecível a cada dia que passa. Sabes que ele fez-me acreditar em coisas que eu mesmo desconhecia dentro de mim?
- Acredito. Eu vejo como tu olhas para ele, vejo como ele olha para ti! E o que mais me doi é que eu nunca fui capaz de te olhar dessa forma. - Uma lágrima corre-lhe pelos olhos enquanto fala. - Desejo-te do fundo do coração que sejas imensamente feliz. Peço ainda que me perdoes todo o mal que possa ter causado. Desejo que ames muito nesta vida. Desculpa, mas eu ainda te amo e para ti, não preciso fingir que te amo, nem esconder este sentimento. A realidade acaba por ser mesmo esta, a que acabo de apresentar.
- Pedro, não vou esticar muito mais esta conversa. Se porventura um dia quiseres falar comigo, a minha porta continua aberta para uma visita tua. Espero que venhas por bem, caso contrário, o caminho que te traz até mim, será o mesmo que te leva de volta. Não te arrependas por não termos ficado juntos, acredita que me sinto bem mais feliz com ele do que senti contigo. A vida é mesmo assim. - digo-lhe, com um sorriso acolhedor.
Ele levanta-se.
- Posso dar-te um último abraço? - Pergunta-me ele.
- Claro! - Digo-lhe eu esticando os braços. - Apesar de tudo, terás sempre uma amiga aqui para o que te puder ajudar.
***
Noutro ângulo, noutra visão. Na mesma empresa. Ele falou com o chefe.
- A Sofia já chegou do almoço?
- Já sim, está naquela sala.
- Obrigada.
Quando ele vê a sua mulher nos braços de outro, cai-lhe tudo ao chão. Aquele não é o ex-namorado que ela lhe falou? Será que teve uma recaída? Será que quando me falava todas aquelas vezes de estar a ficar farta, era a sério? Será que chegara o dia? Ele limitou-se a baixar a cabeça, virar costas e ir embora.
***
Depois do abraço, despedi-me do Pedro e vi o Nuno a sair da sala.
- Nuno, espera!
Ele não me ouviu, ou simplesmente ignorou-me... fui atrás dele, pois só me faltava o seu assunto. Cheguei à rua e não o apanhei.
Voltei para o escritório e rapidamente imprimi o relatório, deixei em cima da secretária do chefe e fui para casa.
Bip Bip. Uma nova mensagem recebida.
"Eu sei que nada depende de mim. Mas se dependesse eu ajudaria a curares essa dor que te atravessa. Talvez fizesse com que encontrasses outra saída para os teus conflitos internos e confusos. Mesmo que te causasse uma dor ainda maior, faria com que tu olhasses para dentro, onde repousa a serpente que te envenena todos os dias e que tu a alimentas através dos teus próprios pensamentos e atos. Eu peço desculpa pela falta de atenção que não te tenho dado, nunca pensei que chegasse a este ponto. Sei que nada depende de mim, porque cada um depende a própria vida e as suas próprias escolhas.
Sabes onde me encontrar. N."
