domingo, 17 de março de 2013

Parte # 20


Sentei-me na berma da estrada. O mais provável era haver pessoas à minha volta. Mas eu não as vi, não conseguia. Não via pessoas, animais, carros...nada. Porque estava no meu mundo. Estava a descontrair com o auscultadores colocados, e ao ritmo da música, cada músculo do meu corpo dançava. E os meus pensamentos giravam à volta de cada nota musical. Mas como tudo na vida, nada do que é bom, dura para sempre. A música acabaria, o MP3 ficaria sem bateria, entre outros motivos inexplicáveis. Comecei a ver as pessoas, comecei a viver a triste realidade, outra vez. Sentei-me naquela berma à espera de qualquer coisa. Algo sem nome, algo que nem eu sabia o que era, mas por que sempre esperei. Talvez uma boleia para a felicidade, talvez um sorriso dentro de um Mercedes Azul que me mostrasse o outro lado do mundo, sem que fosse necessário fazer perguntas. Sentei-me ali, e esperei. Esperei horas. Mas não podia continuar ali, sem que nada acontecesse, sem que eu fizesse algo para que acontecesse, seja lá o que for. Então decidi levantar-me e correr. Correr sem medo do que iria encontrar. O que procuras tu? Qual a primeira coisa que pensas quando acordas? Será que é mesmo isso, ou tu queres pensar que é isso? Procuro frases, fotos, recordações, vasculho todos os baús antigos na minha cabeça e nada. Vejo as fotografias de cada vivência, um pouco estragadas pela humidade e pelo tempo. Vejo pessoas desconhecidas que há muito, muito tempo, foram as mais chegadas. Eu vejo vida, ou pelo menos, parte dela. Vejo caminhos que se perderam, que se encontraram e outros que se cruzaram sem querer. Eu vejo felicidade, inocência... Vejo dor, falta, vazio. Não um vazio qualquer... Um vazio como um móvel que saiu do lugar, e deixou a sua marca no chão. Às vezes lembro-me de tudo, outras, parece que não vivi a minha própria vida. Nesses momentos, respiro fundo, olho à minha volta e toda a gente está à espera de algo vindo de mim. Não tenho tempo para pensar, e não me dão espaço para mover. Estou com o braço um pouco levantado e seguro algo. Mas quase não tenho força. Sinto-me a falhar. Estou apavorada mas sei que tenho de ser forte. Desistir é a última coisa a fazer. Volto a olhar à volta e toda a gente olha-me. Desejo poder fechar os olhos e depois abri-los para que estas pessoas desapareçam, e aí perceber que é um sonho. Mas tenho medo. E se ao fechar os olhos, não conseguir abri-los mais? Volto a respirar fundo. Fecho os olhos. Sinto a pressão das pessoas sobre mim. Abro os olhos e continuam ali. Não tenho outra saída... Fecho os olhos, respiro fundo e desta vez...decidida, puxo o gatilho.
Não é que não me apetecesse que fosse um gatilho verdadeiro, mas tenho de ser forte e ultrapassar isso, esse gatilho que puxei foi a coragem para reparar tudo da minha vida, da vida que partilho com o Nuno. Não podemos, nem tão pouco eu posso continuar assim.
Estacionei o carro, saí, coloquei a chave na fechadura e rodei-a. Esse era o último assunto que tinha de esclarecer e ainda assim, o mais complicado. Como haveria de começar a conversa?
"Olá, como estás?"- É obvio que não está bem, não posso começar assim.;
"Olá. Temos de falar." - É claro que temos de falar! Isso qualquer um de nós sabe.;
Só entradas estúpidas, tenho de começar com calma, mas não enrolando muito... Nem tão pouco posso começar com "Não é aquilo que estás a pensar." (O que qualquer pessoa diz e que quase sempre é aquilo que outrém pensa.).
Entro e fecho a porta atrás de mim. Ele está sentado no sofá, de costas para mim. Chego-me perto dele, pouso a mão no seu ombro.

- Nuno...

Ele vira-se e consigo ver-lhe a expressão triste no rosto e os olhos aguados. Nunca o tinha visto assim. E custa-me. Custa-me ver quem eu amo a chorar e saber que podia ter evitado isso.
Eu dou um passo atrás e deixo o silêncio invadir a sala, sou fraca, não consigo dizer nada, é aí que ele quebra o silêncio e lança uma bomba:

- Ele ainda mexe contigo?
- Nuno, percebeste tudo mal. Ele não mexe comigo de maneira alguma, dele só sinto pena e arrependimento, porque gastei tempo demais amando quem não merecia nada da minha parte. Tu foste completamente o contrário dele. Então podes-me chamar de tua, porque eu simplesmente não quero ser de mais ninguém. Eu prometo que vou lutar contra o mundo todo, se prometeres que vais estar a segurar na minha mão enquanto eu fizer isso. Para o bem dos dois. Porque quando há amor, as pessoas encontram uma solução para as coisas darem certo. Por isso, por favor não desistas de mim. Eu nunca me irei arrepender de nada que tenha feito contigo ou por ti, porque por agora e já há muito tempo, tens sido a maior razão do meu sorriso. Devo-te isso e muito mais. 

- Desistir de ti? Tu foste a melhor escolha que fiz na vida. Mesmo de me teres dado uma tampa naquele Bar, eu fui atrás de ti, porque sabia que se desistisse, iria perder a mulher da minha vida. Eu sei que foi o que ele fez, mas eu não conseguiria viver sabendo que fui um covarde. Por isso é que meto-me no lugar dele, porque ele deve estar arrependido de te ter deixado e agora ser um nada. 
- Como disseste, ele teve a sua oportunidade. Agora tenho a minha de ser feliz e ela és tu. És a minha felicidade e o meu motivo de sorrir. 

Nisto, as lágrimas dele começam a correr e as minhas também. 

- Não chores, por favor. - digo-lhe.
- Não aguentaria perder-te. Não posso, Sofia.
- No que depender de mim, não acontecerá. Mas, Nuno...
- Sim?
- Tu não me perdes se eu também não te perder.

Ele afasta-se um pouco, olha-me nos olhos e diz:
- Como assim?
- Já falamos sobre isso, tens andado distante, não me ligas nenhuma, recusas todo o tipo de convite que te faço. Tentei de todas as maneiras aproximarmo-nos mais mas tu cortaste qualquer tipo de aproximação vinda de mim, na ultima vez que disseste "Amo-te" custou-te pronunciar tais palavras e isso matou-me por dentro. Estavas de folga, liguei para cá e quem atendeu foi a tua assistente. 

As minhas lágrimas correram com mais força. Ele puxou-me para si e sussurrou:
- És uma tonta. Algumas vez trocaria a minha deusa por aquele bocadinho de mulher?
- Então?
- Ela veio cá, não trabalhar, mas ajudar-me numa surpresa que fazia para ti.
- Cá em casa? 
- Não. Eu queria que tivesse sido no escritório para que não ficasse nenhuma prova que pudesses desconfiar. Mas ela insistiu que tivesse sido aqui e não entendi porquê. Depois de vocês falarem pelo telefone ela contou-me que tu desligaste-lhe na cara e ela ficou abaladíssima, estranhei tal comportamento e questionei-lhe, ela disse-me que estava apaixonada por ti. - Não te rias. - E que se cá viesse, ficaria mais perto das tuas coisas.

Eu rio-me e depois fico séria:
- E a surpresa?
- Pois, com isso tudo cancelei-a. Mas o que conta é a intenção. E apesar de poder deixar isto para outra altura, não consigo ficar mais nenhum dia afastado de ti, e ver-te sofrer com isso.

Ele tira algo do bolso.

- Queres casar comigo?
                                 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Parte # 19

Cheguei ao escritório o Pedro estava sentado na secretária, olhei para ele e segui caminho direto. O chefe interrompeu os meus pensamentos e a minha caminhada.

- Sofia, estás com pressa?
- Sim, estou. E sim para a outra pergunta também.
- Como assim?
- A sua próxima pergunta seria se já terminei o relatório que me pediu, está no meu computador, na pasta "Ficheiros", é só imprimir.
- E não podes fazer isso por mim?
- Faria, mas como disse, estou com pressa.
- Eu também não tenho, quando terminares as tuas coisas imprime-o, se faz favor.

Aceno com a cabeça, viro-lhe as costas e vou até ao Pedro.

Quando me falta apenas 3 passos para lhe enfrentar, penso em como hei-de começar a conversação. Com um "olá"? Não me parece conveniente.
Cheguei, e digo-lhe a primeira coisa que me passa pela cabeça:

- "Olá."
Sim, a sério que foi isso... Dou bofetadas em mim mesma, mentalmente.
Vê-se, claramente, que ele ficou sem reação.

- Uh... olá...Olá Sofia.

- Não achei bem da tua parte teres me dito algo por escrito e não teres coragem suficiente para mo dizeres frente a frente.

- Não é fácil para mim. - Diz-me ele.

- Não? E para mim é muito mais fácil, não é? Tu não tens noção do quão difícil foi esquecer tudo o que se passou, apagar aquilo que sentia, e quando finalmente consegui, ter de te ver diariamente. Eu sabia que não ia ter nenhuma recaída porque já te esqueci completamente, mas magoaste-me tanto que não imaginava trabalhar contigo. Mas não se tornou assim tão difícil.

- Pára! Eu sei que fui um idiota, um besta. Eu sei que perdi a única mulher que algum dia me valorizou, eu sei. Por isso é que por um lado, eu estou feliz por saber que tu estás feliz.

- Não sejas assim, tens uma longa vida pela frente, vais ver que encontrarás alguém que te compreenda e seja compatível contigo.

- Eu sei que não, nunca na vida temos as mesmas oportunidades repetidas. Tive a minha, perdi-a, e não a recuperarei. - Diz-.me ele com as lágrimas nos olhos.

- Acho que sempre tiveste medo quando falava daquele amor por ti. Tiveste medo de confiar, acreditar ou apostar naquela relação que poderia vir a ser eterna. A diferença é que sempre tiveste motivos para confiar e acreditar, eu nunca os tive. Revelaste insegurança, demonstrada pelas vezes que dissemos um ao outro para cada um seguir o seu caminho e horas mais tarde estávamos de novo juntos. Eras muito imaturo, dono de um mundo que se torna pequeno até mesmo para albergar a tua presença. Primeiramente lutei com todas as minhas forças para te conquistar daquela tua vida miserável. Eram imensos os meus sonhos optimistas. Ao final de alguns meses percebi que lutar não era tudo – decidi esperar por ti. Vivia uma mistura de amor com solidão e por fim, tinha chegado a altura de perceber que o nosso destino, aquele que nos juntou, era o mesmo que não iria querer que ficássemos juntos. - Disse-lhe, engolindo em seco. Finalmente estávamos a esclarecer as coisas e a enterrar o assunto.

- Após a tua ida, atravessei diversas fases. Aceitar que já não estarias mais ao meu lado, aceitar que não irias voltar a chamar-me de “meu amor”, acordar com o teu bom dia ou adormecer ao sabor da tua voz romântica, levou-me ao desespero. Chorei rios de lágrimas, não tenho vergonha de admitir. As saudades doíam, e ainda hoje doem. - Diz-me ele. 

-  Tu foste a minha grande aposta e a minha maior decepção. Acredita que nós nunca morremos, apenas passamos para uma outra dimensão e eis que tinha chegado o momento certo para te esquecer e ver a vida com outros olhos.  Foram estes mesmos olhos que viram de novo uma forma de vida bem mais feliz, pela ausência da tua existência. Mas não é só isto que quero dizer-te, quero que saibas que hoje vivo imensamente feliz por ter vencido as lutas em teu nome e que iam destruindo a minha vida. Vivo de novo apaixonada por um homem, diria profundamente apaixonada e conhecedora dos meus sentimentos serem recíprocos. Ele faz-me sentir bem comigo mesma, bem com ele, bem com a vida e bem com todos. Este amor pode não ser para sempre, mas é inesquecível a cada dia que passa. Sabes que ele fez-me acreditar em coisas que eu mesmo desconhecia dentro de mim?


- Acredito. Eu vejo como tu olhas para ele, vejo como ele olha para ti! E o que mais me doi é que eu nunca fui capaz de te olhar dessa forma. - Uma lágrima corre-lhe pelos olhos enquanto fala. - Desejo-te do fundo do coração que sejas imensamente feliz. Peço ainda que me perdoes todo o mal que possa ter causado. Desejo que ames muito nesta vida. Desculpa, mas eu ainda te amo e para ti, não preciso fingir que te amo, nem esconder este sentimento. A realidade acaba por ser mesmo esta, a que acabo de apresentar.

- Pedro, não vou esticar muito mais esta conversa. Se porventura um dia quiseres falar comigo, a minha porta continua aberta para uma visita tua. Espero que venhas por bem, caso contrário, o caminho que te traz até mim, será o mesmo que te leva de volta. Não te arrependas por não termos ficado juntos, acredita que me sinto bem mais feliz com ele do que senti contigo. A vida é mesmo assim. - digo-lhe, com um sorriso acolhedor.

Ele levanta-se.

- Posso dar-te um último abraço? - Pergunta-me ele.

- Claro! - Digo-lhe eu esticando os braços. - Apesar de tudo, terás sempre uma amiga aqui para o que te puder ajudar.






***

Noutro ângulo, noutra visão. Na mesma empresa. Ele falou com o chefe.

- A Sofia já chegou do almoço?
- Já sim, está naquela sala.
- Obrigada.

Quando ele vê a sua mulher nos braços de outro, cai-lhe tudo ao chão. Aquele não é o ex-namorado que ela lhe falou? Será que teve uma recaída? Será que quando me falava todas aquelas vezes de estar a ficar farta, era a sério? Será que chegara o dia? Ele limitou-se a baixar a cabeça, virar costas e ir embora.

***
Depois do abraço, despedi-me do Pedro e vi o Nuno a sair da sala.

- Nuno, espera!

Ele não me ouviu, ou simplesmente ignorou-me... fui atrás dele, pois só me faltava  o seu assunto. Cheguei à rua e não o apanhei.
Voltei para o escritório e rapidamente imprimi o relatório, deixei em cima da secretária do chefe e fui para casa.
Bip Bip. Uma nova mensagem recebida.

"Eu sei que nada depende de mim. Mas se dependesse eu ajudaria a curares essa dor que te atravessa. Talvez fizesse com que encontrasses outra saída para os teus conflitos internos e confusos. Mesmo que te causasse uma dor ainda maior, faria com que tu olhasses para dentro, onde repousa a serpente que te envenena todos os dias e que tu a alimentas através dos teus próprios pensamentos e atos. Eu peço desculpa pela falta de atenção que não te tenho dado, nunca pensei que chegasse a este ponto. Sei que nada depende de mim, porque cada um depende a própria vida e as suas próprias escolhas.
Sabes onde me encontrar. N."

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Parte # 18

Uma semana já se tinha passado e a Laura não retornou a chamada. Nem uma simples mensagem a dizer porque não pôde comparecer ao encontro, nem tão pouco a desculpar-se por me ter feito esperar ao invés de desmarcar; No trabalho, felizmente está tudo bem e estranhamente, partilhar o mesmo local, diariamente com o Pedro, não tem sido assim tão difícil. Talvez, porque eu tento e faço de tudo para evitá-lo; Em casa, tudo na mesma. O nuno continua igual e eu já não falo no quão estranho ele se torna para mim, cada vez mais. Não falo, talvez pelo facto de estar cansada, farta de gastar saliva em vão e por ele nada mudar em relação a isso.
Neste momento saio de casa para ir trabalhar, mas antes vou ter de passar por uma pastelaria que fica a caminho, para comer qualquer coisa. 

***

Na pastelaria, sentada, olho para a janela e penso no tempo. Hoje está uma manhã fria e simultaneamente, confortável. Não chove, mas os ramos das árvores, deixam cair alguns vestígios de já ter chuviscado. Não está muito vento e isso ajuda-me na guerra que todos os dias faço com o meu cabelo. Está bem, admito, quando penso no tempo, não é esse. É no passado, no presente, no futuro. Do passado, penso e lembro-me de como em míseros meses conheci uma pessoa perfeita, uma pessoa que me transbordasse, que me apoiasse, que estivesse comigo, sempre. Conheci, ou foi o que o meu coração e a minha cabeça desejavam tanto? Não, não posso pensar assim, via-se nos seus olhos que o que ele sentia por mim era real e verdadeiro. Mas no presente é o que se vê, e se continuar assim, não quero que isso se torne rotina no meu futuro. Não quero. Não quero voltar a viver isso, e em contrapartida, não quero voltar a viver do zero. Limpo a lágrima que me cai pelo rosto e volto à realidade, quando alguém me chama.

- Boa tarde, Sofia Bonito?

Um enorme ramo de flores estava exposto numas mãos masculinas, não lhe consegui ver a cara.

- A própria.
- Então isto é para si.
- De quem?
- Isso já não sei, mas tem um cartão.
- Ok, obrigado.

Muito estranho. Ninguém sabia que eu estava ali, pelo menos ninguém que tencionasse mandar-me um monstruoso ramo de flores. Será que deva abrir? Tenho medo. E se for um psicopata que se apaixonou por mim, e quando me apanhar sozinha abusa de mim? Não, não, não. Pode ser do Nuno. Sim, ele pode ter mandado para me pedir desculpa pela sua distância. Ou para terminar tudo de forma a que não fosse tão pesado para mim. De qualquer das maneiras, seria. Abri rapidamente o envelope. Estava ansiosa, nervosa.
Não era um cartão, quase que era uma carta. Fiquei pior ainda. Li.

"Eu lembro-me, sabes? Estava naquela esplanada do restaurante, reparei numa mulher sentada a ler. Eras tu. Tinhas o cabelo castanho escuro, vestias um vestido Azul Turquesa. Descontraida e elegante. Não conseguia tirar os olhos de ti, e não percebia o porquê. Comecei a reparar nos pequenos pormenores: na forma segura e delicada como voltavas as páginas do livro, nos lábios; no sorriso inteligente e natural cada vez que passavas uma folha. Dizia aos meus colegas que tinha de te conhecer, de uma forma ou de outra. E conheci, mas não aproveitei. Pensava que ia ser mais uma passagem na minha vida, e não percebi que afinal eras a vida inteira. Mas agora que penso nisso, tudo faz sentido. A maneira como os teus olhos devoravam as palavras no livro. A forma inigualável de mexeres e puxares o cabelo para trás. E naquele dia, sem te conhecer, senti ciúme. O teu telemóvel tocou e mal olhaste para o ecrã sorriste pelo nome que mostrava no visor. Serias comprometida? Olhei desesperadamente para as tuas mãos para ver se tinhas aliança, mas as mulheres têm tantos anéis nos dedos que não deu para perceber. Mesmo que não te volte a ter, fico descansado por saber que pus tudo isto cá para fora e, principalmente, por saber que estás bem e mais feliz do que alguma vez te pude fazer.
Acabo com uma frase que me define neste exato momento, e quem sabe, para sempre.
“Aprendi que amar não significa estar junto, mas sim querer ver a outra pessoa feliz, mesmo que isso custe a minha felicidade.”

Sempre teu,
Pedro."

Oh-meu-deus! Não acredito nisto.
Levanto-me, pego no ramo de flores e deixo-as em cima do balcão.

- Desculpe, onde está aquela empregada que me atendeu?
- Só faz turnos à tarde, veio aqui de passagem. Algo que possa ajudar? - Responde-me o empregado.
- Sim. Espere um pouco.

Tiro rapidamente o meu bloco de notas e a esferográfica da mala.

"Não me conhece, mas eu conheço-a muito bem. (Mais ou menos) Sou muito observadora e reparei que de todas as vezes que a sua filha passa aqui só para lhe dar um beijo, o seu rosto ilumina-se, e foi a coisa mais mágica, mais apaixonante que vi. Aceite este pequeno presente, não só por me ter ensinado algo, mas por ser a grande mulher e mãe que é. Beijinhos, Sofia."

- Desculpe, pode entregar isto à empregada?
- Claro.
- Obrigada.

Segui pela rua cima, em direção ao escritório. Pelo caminho liguei para casa para saber se estava tudo bem com o Nuno. Começava a fartar-me também de ser sempre eu a ligar.

- Bom dia. - Atendeu uma voz feminina.
- Uh, bom dia, posso saber quem fala?
- Isso pergunto eu, foste tu que ligaste.
- Desculpe? Em primeiro lugar, não me trate por "tu" porque não andei na mesma escola que você. Em segundo, eu liguei para a minha casa, logo quem tem que dar esxplicações não sou eu.
- Ah, Sofia? Desculpe. Sou a Diana, assistente do Nuno...Não reconheci a sua voz, desculpe.
- Posso saber o que faz na minha casa? Onde está o Nuno?
- Ele foi buscar o nosso almoço, decidimos trabalhar cá em casa hoje.
- Ok, obrigada. Quando ele chegar diga-lhe para me ligar.
- Sofia, olhe pode me dizer...

Desliguei, sem deixar que ela acabasse. 
Muita informação para um dia só. Mas uma coisa de cada vez, primeiro irei ao escritório, falar com o Pedro e enterrar a cabeça em trabalho.
 Com que então trabalho extra, na minha casa... 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Parte # 17


Já se passaram alguns dias e o ambiente em casa é do pior! O Nuno anda distante e não, não é da minha cabeça. Ele passa os dias a trabalhar e em reuniões e quando está em casa, fecha-se no escritório. Parece que arranja desculpas para não estar comigo. Como agora, ele está no escritório a “fingir” que trabalha. Abro a porta.
- Desculpa mas estamos à dias nisto e não suporto mais. Parecemos dois estranhos numa casa minúscula. Se já não sentes o mesmo por mim, compreendo. Por isso, diz de uma vez e acaba com isto.
- Isto o quê?
- Não te faças de estúpido, é coisa que tu não és. “Isto”, essa estranheza um do outro, estes impasses. “isto”, relacionamento.
- Estás doida? Eu…ah..
- Tu?
-  Eu, a..amo-te. Só estamos a passar uma fase má. Vem cá.
Ele puxa-me e abraça-me, penso em como lhe custou dizer aquele “amo-te”. Mas esqueço isso e deixo-me levar. Será mesmo que estava a ser sincero? Não me pareceu, mas espero que sim.
- Só não quero que estejas neste relacionamento para não me sentir mal. É obvio que me vou magoar e sofrer, mas entendo, acima de tudo, ponho-me no teu lugar e entendo.
- Cala-te, tonta.
Ele abraçou-me mais uma vez e não falamos mais nesse dia. Nem mais uma palavra. Eu saí e disse-lhe que iria voltar mais tarde. Não lhe disse para onde ia, porque nem eu sei. Quero apenas andar, apanhar ar. Hoje está um dia bom para isso, igual ao meu estado de espírito: Nublado, escuro, e prestes a chover. Tenho vestido umas calças beges, uma camisola de lã e um casaco vermelho, mas mesmo assim o frio teima em ser mais forte. A minha cabeça está longe. Tão longe que nem me apercebo que já andei bastante. Estou por cima da ponte, e que vista linda. Olho por cima da cidade e quase que “vejo” cada história, cada discussão, cada noticia boa em cada casa, em cada casal que passa na rua. Olho para o horizonte. Quem me dera não ter tantas coisas a preencher-me a cabeça. Naquele momento só gostava de estar a apreciar o por do sol com ele. Abraçada a ele para que o frio se tornasse escasso em comparação com o nosso amor presente num abraço, num beijo, numa simples presença. Porque é que as coisas têm de ser assim? E por incrível que pareça, apetece-me chorar. Com todas as coisas que se passaram na minha vida, aprendi a ser forte e a nunca chorar num mau momento, apenas lembrar sempre os lados bons e seguir em frente. Mas há momentos que estamos tão em baixo, que não vemos nenhum lado bom. E quando isso acontece, explodimos. E as pessoas têm diferentes maneiras de explodir – Ou riem, ou choram, ou suicidam-se, ou simplesmente, seguem em frente de cabeça erguida. Eu? Eu rio e choro simultaneamente; suicido-me várias vezes ao dia, psicologicamente; e sigo em frente de cabeça erguida, mesmo não tendo caminho para seguir.
Ligo à Laura para saber se ela pode vir tomar um café comigo, depois  de combinarmos o sitio, desliguei a chamada e mandei rapidamente uma mensagem ao Nuno:
“Ao ver o por do sol, só desejo ter-te aqui. Era tão bom sentir o teu abraço a minimizar o frio que sinto. Era tão bom…tudo. Amo-te.
S. “
Visto ele estar de folga, e ter tempo, deduzi que ele fosse rápido a responder, mas não foi esse o caso.
Quando cheguei, a Laura ainda não tinha chegado, o costume.
Olhei à minha volta. O ambiente estava mesmo perfeito, estava quente, mas não muito abafado, cheirava a café acabado de fazer e não havia muitas pessoas.
No balcão tinha um casal já idoso, olhavam um para o outro com ar tão apaixonado. É lindo isso, quando o amor é verdadeiro que ultrapassa tudo, incluindo o tempo. Quando existe amizade, companheirismo, respeito, lealdade, por cima de tudo e todos.
 Aproximei-me e pedi um batido de morango. O empregado disse-me que podia ir me sentar enquanto esperava pelo pedido. Sentei-me e tirei da mala um bloco de notas. Enquanto rabiscava, o empregado chega com um batido e um guardanapo por baixo do mesmo. Tinha algo escrito no guardanapo mas por causa do vapor do batido, molhou o papel e só se lia «, outra vez. Acredita.»
Olhei à minha volta e não vi ninguém conhecido, olhei para o empregado e tentei perceber se o conhecia, mas não.
- Olhe, desculpe, deu-me este guardanapo com algo escrito, foi um lapso ou era mesmo para mim?
 - Sim, era. Foi aquele Senhor que mandou entregar. - Ele apontou para o vazio. - Ele estava ali sentado, juro. Até pagou o seu batido.
- E sabe o nome?
- Não, não o conheço. Desculpe.
- Tudo bem, obrigado.

Quem será esse simpático ser que oferece batidos. Por favor, que não seja mais um "Nuno" que se interessou por mim. Por favor, por favor. Dou por mim a falar sozinha no meio da rua. Olho em redor e suspiro por ninguém estar perto e me chamar de maluca. Fui embora porque a Laura não apareceu e não me atende as chamadas.
Uma noite, duas horas, tudo muito estranho...

domingo, 18 de novembro de 2012

Parte # 16

Estou a chegar ao escritório e recebo uma chamada. Mas que raio, não podiam esperar mais um pouco? Entrei no elevador e tenho as mãos super ocupadas. O toque desliga-se, quando pousar as coisas, retorno a chamada. Pip. Entra o meu chefe.

- Bom dia, Sofy.
- Bom dia, boss. Alguma novidade sobre quem vai substituir o Francisco e ser meu "parceiro"?
- Claro que sim. Hoje, se tudo correr bem, vais conhecê-lo.
- "Lo"? Então é um homem...
- Claro. Achas que ia por duas mulheres a trabalharem juntas? Não é que eu não gostasse, mas...

Sim, era mesmo ele que não havia de gostar. Fiquei super curiosa por conhecer o meu novo colega e saber do que ele é capaz de fazer em trabalho.
A porta abre-se, saio do elevador e na minha secretária pouso o monte de papelada que me ocupava as mãos.
Sento-me e ligo o computador, entrando, em mais um dia stressante.
Esqueci-me de retornar a tal chamada, mas para terem ligado só uma vez, sem insistir é porque não era importante.

***
Hora de almoço. Hiberno o computador e pego na minha mala dirigindo-me à porta de saida. O telemóvel toca e aí lembro-me da tal chamada que havia recebido anteriormente.
- Sim?
- Miss Bonito? Gostaria de saber porque raio não atende as minhas chamadas, fazendo com que eu venha ao seu local de trabalho pessoalmente convidá-la para jantar.
- Ora bem, não atendi A chamada e não AS chamadas, ponto número um. Ponto número dois, como disse,  Menino Filipe, estou a trabalhar e não pude atender no momento. E verdade seja dita, prefiro mil vezes que venhas ter comigo do que falar-mos por chamada. Ponto número três: Tu gostas de vir ter comigo, porque caso contrário, terias insistido na chamada.
- Ahhh! Pronto, apanhaste-me.
- Como de costume. Então queres almoçar?
- Por isso é que aqui estou.
- Aqui?
- Sim, mesmo atrás de ti.
Olho para trás e lá estava ele. O meu maninho. Abraço-o apertadamente, quase esmagando-o.
Digirimo-nos a um restaurante ali perto.
- Então como vão as coisas com o teu príncipe encantado?
- Continuo encantada, mas ele já foi mais encantado.
- Como assim?
Contei-lhe toda a história, não falhando nenhum pormenor, porque o Filipe é muito cusco.
- Porque não lhe confrontas e perguntas diretamente se ele tem outra?
- Achas? E se não tiver, vou fazer papel de otária.
- Mas pelo menos, ficas a saber a verdade e mais descansada.
- E achas tu que se ele me estiver a trair, contar-me-á? Nem se eu o embebedar.
- Mas lá que o comportamento dele é estranho, lá isso, é.
- Pois, a ver vamos.
Bip Bip. Tem 1 nova mensagem recebida.
"Estou à tua espera para almoçarmos. No sitio do costume.
Beijos,
N."
Viro o ecrã para o Filipe e mostro-lhe a mensagem.
- Então, ias almoçar com ele? Podias ter dito, não levava a mal se recusasses o meu convite.
- Não entendeste. Se eu aceitei o teu convite, é porque não tinha nada combinado. Nada mesmo.
- De certeza? Olha que podes ter-te esquecido.
- Filipe, tu conheces-me. Sabes como sou exageradamente organizada com tudo.
- Lá isso é verdade. Responde-lhe, não tens nada a perder, se for engano, ele é que se enganou, não tu.
- Pois...mas eu sei que foi engano, por isso tenho medo da resposta.
O filipe faz um sorriso meio triste mas ao mesmo tempo transmitindo-me força.
Responder.
"E o sitio do costume seria qual? Não me lembro de termos combinado algo."
Resposta imediata.
"Uh. A mensagem não era para ti, era para a minha assistente. Sabes como é, almoço de negócios."
Responder.
"Claro que sei. Principalmente depois da mensagem de "negócios" acabar em «beijos». Bom almoço.
Se ele queria esconder algum tipo de amante, ao menos que fosse mais inteligente. A sério, os homens têm de ser, na geralidade, o sexo mais fraco? Que nervos!
Saímos do restaurante, o Filipe leva-me ao trabalho, na despedida ele abraça-me e deseja-me imensa força.
- Claro e preciso! Vou conhecer agora o meu novo colega.
- Não lhe dês com o teu mau-humor, coitado!
- Qual mau-humor? Sou tão simpática!
Ele dá-me um beijo na testa e afasta-se.
Entro no escritório e na receção estava o chefe com um sujeito virado de costas, devia ser o meu colega.
- Boa tarde.
- Boa tarde, Sofia. Ainda bem que chegaste. Apresento-te o teu novo colega.
Ele vira-se cuidadosamente, estou em pulgas para saber quem é e como é. Parece ser em camera lenta, com tanto suspense e a minha ansiedade à flôr da pele. Tal não é o meu espanto quando ele se volta, e ao mesmo tempo o meu chefe diz o seu nome. Não pode. Sinto as minhas pernas a tremer, a qualquer momento caio.

- Pedro Silva.

Porque carga de água, com tanto homem no mundo, ele tinha de contratar o meu ex-namorado?
Educadamente aperto-lhe a mão.

- Prazer.
 Ele aperta a mão, aproxima-se de mim e sussurra-me ao ouvido:
"O prazer é meu. Estás mais bonita desde a última vez que te vi."

Se desde o momento que o vi ali, irritei-me, agora, devia estar a fumegar pelas orelhas.
Empurrei-o, afastando-o de mim e disse:

- Não o voltes a fazer. Se isso vai ser assim, ter-te como colega, então faz para que resulte, caso contrário não sais vivo daqui. Não quero toques, conversas paralelas a não ser sobre trabalho, estamos entendidos?
- Sim, senhora.

Ultrapasso-os, e passando pelo meu chefe digo:

- Preferia ter três mulheres a dar em cima de mim, no escritório, do que trabalhar com esse sujeito. Má escolha.

Entro no elevador. O meu chefe chega-se perto do Pedro e diz-lhe:
- Nunca a vi assim, já se conheciam?
- Não viu que sim? Melhor do que julga.

O Pedro afasta-se e entra no elevador. O meu chefe sai do escritório abanando a cabeça:

"Isto vai ser divertido."

domingo, 11 de novembro de 2012

Parte # 15

Acordei de repente, eram 2:00 a.m. O Nuno ainda não tinha chegado, estranhei porque os seus jantares e/ou saídas de trabalho não costumam demorar tanto, e quando demoram, ele avisa-me, sempre. Vi se tinha alguma chamada ou mensagem no telemóvel. 1 mensagem não lida. Suspirei de alivio, afinal ele avisou.

"Contacte com os seus amigos, em qualquer lugar. Por apenas 3,30€ por mês, aceda ao facebook através do seu telemóvel. Para mais informações visite o nosso site: blablabla@operadora.da.treta.pt"

Afinal ele não avisou. Levantei-me e fui à cozinha beber àgua. Não acendi as luzes porque era escusado gastar eletricidade quando a lua estava cheia e brilhante nessa madrugada, e aclarava a casa.
Senti a porta a abrir. Seria um ladrão? Caso fosse o que era susposto fazer? Não tinha nenhuma frigideira à mão, e duvido que a vassoura pudesse adiantar alguma coisa...
Fiz STOP nos meus pensamentos quando, pela silhueta, vi que era o Nuno. Ele entrou sorrateiramente, quase em bicos dos pés para que, ninguém o sentisse a entrar, e como só vivíamos ali os dois, ele não queria que eu o visse a entrar àquela hora. Como uma criança que fez alguma asneira e sem que os pais percebessem, esquiva-se para o quarto para dar a entender que nunca saiu de lá. Mas o Nuno não é nenhuma criança, e pelo que que sei, até agora, ele não tinha feito nenhuma asneira. Se calhar sou eu a criar "bichos papões" na minha cabeça, talvez ele só não me queira acordar.
Ele fecha a porta cuidadosamente.

- Bom dia. - Digo eu, quebrando o silêncio da escuridão e acendendo a luz.

Ele salta e pela sua expressão, por pouco não lhe saltou o coração pela boca. Não, o seu cuidado para não fazer barulho, não foi para não me acordar. Ele assustou-se realmente como quem foi apanhado com a "mão na massa".

- Am-mor! Que su-susto! Não te queria acordar.
- Pois claro. Mas não te preocupes que não me acordaste. O jantar correu bem?
- Uh, pois o jantar, sim correu bem.
- Ainda bem! Porque tinhas-me falado de uma reunião mas não incluíste que seria um jantar.
- Não? Que estranho, julguei mesmo ter falado.
- Pois, mas para ter durado até agora é porque foi bem sucedido.
- Uh, pois. Olha trouxe-te uma tarte de nozes.
- Ah... Sabias que de tanta coisa existente no mundo, sou alérgica a só uma?

Ele olha para mim e depois para a tarte.

- Pois, és alérgica a nozes.
- E tu, sabia-lo.
- Desculpa.

Viro costas e dirijo-me ao quarto.

- Apaga a luz quando te fores deitar.

Ele sabia à muito tempo que eu sou alérgica a nozes. E com tanto tipo de tarte, trouxe logo essa. E pior, quando alguém dá um "presente", a uma hora destas, depois de estar com ar de quem fez asneira, não é só pelo presente em si, mas sim por fazer um pedido de desculpas sem que a outra pessoa perceba. Mas eu percebo, e o pior é que adoro fazer-me passar por idiota para ver até que ponto ele é capaz de ir.

Sinto-o a apagar a luz e a entrar no quarto, fecho os olhos e finjo estar a dormir. consigo perceber que ele ajoelha-se na cama e debruça-se sobre mim para ver se já durmo. Ele volta a por-se de pé e digita qualquer coisa no telemóvel, segundos depois recebe a resposta, sorri e pousa o telemóvel em cima do móvel e deita-se.

sábado, 15 de setembro de 2012

Parte # 14

Numa noite, recebi uma chamada do Gonçalo. Estivemos algumas horas à conversa, e entre uma ou outra coisa dita, ele já recuperou e convidou-me a mim e ao Nuno a irmos a um jantar em sua casa, no dia seguinte. Não lhe dei uma resposta fixa, pois nesse jantar os meus pais também estariam presentes. Ele insistiu:

- Vá-la, não sejas chata!
- Se sou chata tu também o és!
- Fogo, isto é uma treta! Nunca te posso ofender porque somos gemeos e assim estaria a ofender-me a mim também. Ah vida cruel!
- Não mudes de assunto. Eu não vou. Sabes perfeitamente que eu e os pais não podemos estar, se quer, a 10 quilómetros de distância.
- Pensa em como esse jantar pode servir para dares o braço a torcer.
- Já chega, Gonçalo! Não vou. Além disso não sou eu que tenho de dar o braço a torcer, são eles. Desde pequena fui excluída pela família e até hoje, não percebi o porquê. As coisas pioraram quando caíste daquela maldita árvore e eu fui culpada injustamente. E agora aconteceu uma espécie de dejavú com o teu acidente de moto. Juro, que à uns anos pensei em tudo o que pudesse ter feito para ser uma má filha e não cheguei a lugar algum. Foi então que me passou pela cabeça a adoção. Mas isso não faria sentido, porque se eu tivesse sido adotada, tu também foste. E eles adoram-te.
- Realmente, é estranho... Vou falar com eles.
- Não, não vais.
- Ah pois vou.
- Não!
- Sim!
- Não!

E ficamos nisto, metade da noite.

- Sim!
- Não! A sério que me chateio contigo.
- Não consegues. És doida por mim.
- Argh! Odeio-te.
- Também não consegues. Tu amas-me, maninha!
- Ok, eu vou!

Arrependi-me de ter dado uma resposta afirmativa, ainda antes de tê-la pronunciado.
Consegui ouvir o riso dele.

- Mas que fique bem claro que vou, porque gosto de ti e quero fazer-te a vontade e deixar-te feliz com a minha presença. Mas a mínima provocação, e vou embora, no exato momento.
- Ok. Traz o teu namorado para o conhecer, sim?
- Vou tentar. Beijo, cuida-te.
- Tu também, linda. Beijo na testa.

A campainha tocou, devia ser o Nuno.
Abri e era o Francisco.

- Olá, que surpresa agradável e um pouco duvidosa...
- Olá. Precisamos conversar.
- Uhm... entra. Queres beber alguma coisa?
- Estou bem obrigada.
- Fica à vontade. Vou fazer café.

Saí da sala e dirigi-me à cozinha. Tirei do armário uma chávena e comecei a fazer o café.

- De certeza que não queres tomar nada?
- Posso fazer-te companhia no café, já que insistes...

Saí da cozinha enquanto o café ficava a fazer. Sentei-me com ele na sala.

- Pareces-me preocupado...
- Não é preocupação. Eu vou demitir-me.
- Por alma de quem?
- Pela minha. A Matilde está com uma gravidez de risco e temos de ir para outro hospital, conversamos e decidimos mudar-nos também.
- Bem, se é pelo vosso bem, apoio-vos a 110%! Mas... quem te vai substituir?
- Ainda não sei, o chefe diz que está à procura de uma pessoa.
- Tudo há-de se resolver.

Saí da sala e fui buscar o café, dividi pelas chávenas e entreguei-lho.
Ficamos um pouco a conversar até que a campainha tocou.

- Deve ser o Nuno.
- Bem, aproveito e saio, já se faz tarde.

Abri a porta e o Nuno entrou, cumprimentou o Francisco, enquanto este saia.

- Gostei desta pequena conversa. Obrigada por me teres vindo dizer isto pessoalmente.- Abraceio-o - Desejo-te tudo de bom!
- Obrigada. A ti também.

Fechei a porta. Levantei da mesa da sala as chávenas e fui à cozinha preparar o jantar.

- Nuno, alguma preferência para o jantar?
- Não vou jantar contigo hoje.

A resposta foi seca, fria e completamente direta. Achei-o estranho...
Fui ter com ele à casa de banho e vi-o a arranjar-se para sair.

- Uhm... passou-se algo?
- Não.
- Algum stress do trabalho?
- Não.
- Queres falar?
- Já não o estamos a fazer? Para quê o interrogatório?
- Desculpa. Só estou preocupada.
- Preocupa-te menos.

Ele tinha dito tudo. Voltei à cozinha e lavei a loiça. Desliguei o fogão, perdi a vontade de fazer o jantar. Fui para o quarto, escolhi a roupa de dormir e pu-la em cima da cadeira. Deitei-me na cama a ler enquanto esperava que a casa de banho ficasse livre para ir tomar banho.
Meia-hora depois ele saiu da casa de banho, aproximou-se de mim e sentou-se ao meu lado. Não desviei os olhos do livro, onde já não estava a tenta, mas fingia estar. Ele pegou no livro, pousou-o e abraçou-me:

- Desculpa, desculpa, desculpa milhões de vezes!
- As desculpas não se pedem. Evitam-se.
- Mas quando nos é difícil evitar, pedem-se! Foi o stress do trabalho. Hoje tinha preparado uma surpresa para o nosso serão e convocaram uma reunião de urgencia. Desculpas-me?
- Sim.
- Já sei! Vens comigo à reunião!
- Não, não vou.
- Porquê?
- Porque se fosse possível eu ir, tinhas dito desde o inicio.
- Vais ficar sozinha?
- Não te preocupes comigo, eu ficarei bem. Boa reunião.

Ele deu-me um beijo e saiu. Se estou a ser injusta? Não. Sou excessivamente desconfiada. Não tenho culpa.  Os homens fizeram-me ficar assim. E o Nuno estava estranho... Muito estranho. Se ele quisesse que eu fosse à tal reunião teria insistido mais, não? Ou estarei eu a fazer uma tempestade num copo de água? Não sei. O que sei é que a estranheza dele não justifica o seu comportamento. Ou justifica?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Parte # 13

O Pedro estava deitado. Pensava em tudo e ao mesmo tempo, em nada. Olhou à volta e por momentos voltou a viver os momentos com ela. Os beijos dela de bom dia, o pequeno almoço preparado por ela, o quão estúpido era e ela sempre esteve do seu lado. Levantou-se e foi lavar a cara. Até a falta da escova de dentes dela, na casa de banho, fazia-lhe falta. Ele andou pela casa, procurou pelo mais pequeno objeto que ela pudesse ter esquecido. Mas nada. Voltou à sala e deitou-se. Fechou os olhos e voltou a sonhar com tudo o que teve na sua realidade e que por sua culpa, agora não passa de um sonho perdido. Lembrou-se de como ela gostava de ler. Abriu os olhos e olhou para a estante. «Talvez esqueceu-se de algum livro, poderia ir devolver-lhe.» Pensou. 
Viu um livro muito estranho, pegou-o e leu o titulo. 
"Diário da Sofia. Não um diário banal, um diário completamente triste e muito sentimentalista."
Sabia que não devia abri-lo, era dela, era a sua vida, eram os seus pensamentos, mas ao mesmo tempo, sabia que ela não gostava dessas coisas e ficou curioso. Não resistiu e abriu-o.

"Não sei como começar isto. Talvez por nunca ter tido um diário nem perceber porque raio precisam as pessoas de um, ou porque eu nunca senti necessidade de ter. Porque comecei? Porque preciso desabafar, escrever... Preciso contar a "alguém" tudo o que sinto, tudo o que preciso sentir. Por falar em sentir...Um dos sentimentos que mais admiro no mundo é a credibilidade. Não sei quanto ao resto das pessoas, mas por experiência digo que quando alguém me transmite credibilidade, com ela trás-me confiança, respeito e mais meia dúzia de sentimentos bons. Existe alguma relação que se mantenha se não existirem estas palavras-chave como base? Não esqueças da palavra... CREDIBILIDADE. Às vezes magoas-me tanto. As tuas atitudes fazem-me duvidar de tudo o que construímos juntos até agora. Fazem com que eu duvide do teu amor por mim. Fazem-me pensar se valerá mesmo a pena ou não seguir um caminho contigo. E tenho tanto medo. Medo que deixe de dar certo, porque apesar dos meus planos de vida não serem muitos, o teu nome está escrito em cada um deles. Mas mesmo que certas coisas me custem muito, nada me custa mais que ver-te triste. Mesmo que a minha dor nesse momento me devore a alma, tratar de ti é sempre o melhor remédio. E espero sinceramente que tomes melhor conta de mim, porque se há coisa que eu não quero perder  é esta vontade de querer a minha vida ao teu lado. Por isso fala quando tiveres algo para dizer. Grita quando tiveres de gritar. Partilha comigo os teus medos. Não tenhas medo de dizer o que sentes. E pensa antes de falar... porque as palavras também magoam. Porque se há coisa que não quero é perder-te. É perder-nos."

«Ela não queria e eu sempre lutei... não por ela, mas pelo nosso "fim".» Pensou ele.
As lágrimas vieram-lhe aos olhos quando começou a pensar em tudo. Quando voltou a uns dias atrás e percebeu o quão estúpido e monstruoso foi. Percebeu que tinha perdido, a única pessoa, que demonstrou interesse e preocupação por ele. Porque apesar de haver muitas mulheres no mundo, em geral, podem querer só sexo, mas nem todas querem companheirismo. E ela queria. E sempre que ele estava triste, deprimido, quando não tinha tido o que queria na noite anterior, ela estava "lá". Ela sofria com ele se fosse preciso. Porque ela amava-o. Mesmo que ele não se importasse com isso, o bem-estar dele era o mais importante. Mas ela fartou-se que o bem-estar dele contribuísse para o seu mal-estar. 
«Acabou.» Era a única palavra que lhe passava pela cabeça.
Apesar de saber que cada página que virava, eram cada vez piores, que ela sofrera demasiado e que agora ele estava a sofrer em dobro tudo, continuou a ler...a sofrer... Porque merece. Ele sabe-o.

"Lembras-te o que disse sobre credibilidade? Pois... O pior é mesmo quando a perdemos. Porque perdemos tudo. Perdemos a confiança, a estabilidade, a segurança, o respeito. Para mim perdeste toda a credibilidade quando demonstraste ser uma pessoa diferente daquela que conheci. Perdeste o valor, perdeste o que te dava, perdeste o sentimento que tinha por ti, e a predisposição para fazer tudo o que te fizesse feliz, perdeste-te a ti e conseguiste perder-me a mim também. E culpa-te! Porque o único culpado aqui és tu. E sabes? Já nem pena consigo sentir. Foste tu que escolheste este caminho, és tu que continuas a achar que enquanto seguires por ele não tens problemas e, consequentemente, és feliz. Mas não és! Porque felicidade é muito mais do que isso e sei que vais perceber, um dia desses. Mas também sei que quando perceberes, será tarde demais.  Até lá, continua a contentar-te com migalhas."


Migalhas...era exatamente isso que ele tinha agora...migalhas. E ainda assim, já era bastante em comparação com o que ele merecia. 
As próximas páginas seguiram-se de dor da parte dela e de nostalgia, da dele. Como é possível ele nunca ter percebido isso? Na verdade, nunca estava tempo suficiente com ela para saber. Nunca lhe perguntava se estava bem, e se a resposta fosse negativa, não se interessava minimamente por saber o porquê. Ele estava-se nas tintas e agora percebe o quão burro foi.

"Fartei-me e com isto começo a fartar-me de estar a escrever sobre a minha desilusão por tua causa, estou farta que tu sejas sempre a base de tudo o que faço. Era preciso tão pouco para eu ficar contigo sem pedir mais nada. Só precisavas ser tu próprio, porque tu, vales muito mais do que isso que demonstras ser. Perdeste-me a mim sem sequer te aperceberes que te escapei por entre os dedos. No dia em que decidires entrar na realidade, perceberás que estás sozinho, que nenhuma das tuas "amiguinhas pegas" te darão aquilo que te dei. Nesse dia, não estarei ao teu lado para te mostrar o caminho certo, mas estarei nele para te atirar à cara que quem não quis vir comigo, foste tu e agora não há nada que possas fazer para voltar atrás. Já voltei várias vezes, achando que valia a pena, mas não valeu. Nenhuma das vezes!
Durante mais quanto tempo da tua vida vais esperar que as coisas te caiam aos pés sem teres de fazer nada por isso? Já reparaste que sempre foi assim? Sempre vieste com a mesma desculpa de - dar tempo ao tempo - ou de - deixar tudo acontecer com calma - mas a verdade é que tu nunca fazes para que aconteça.

Vives como se já tivesses vivido a vida toda e ao mesmo tempo, como se estivesses a vivê-la ainda desde o principio. Nunca lutas. Nunca gritas. Nunca enlouqueces. E isso destroi-me. Destroi-me que vivas de esperas.. E não te mexas. E o que me disseste ontem. O que tu me disseste ontem... não me sai da cabeça. E o que eu mais queria agora.. é que tu me saisses da cabeça... da alma, do coração. Sai!"

Ele não se lembra exatamente o que lhe tinha dito naquele "ontem", mas queria lembrar-se. Queria mesmo.
De repente, lembrou-se, outra vez, da discussão. Ele disse-lhe coisas horríveis, entre elas, insultos macábros, acabados num estalo. Isso tudo passou-se depois de uma festa. Na altura, uma grande festa.
Ela estava no quarto, ele convidou alguns amigos e amigas a irem a sua casa, porque ia dar uma festa. Sim, sem a consultar. Naquele dia começaram a aparecer pessoas que nem ele conhecia: Amigos dos amigos, dos convidados. A festa descontrolou-se, ele sabia-o, mas mesmo assim só queria "curtir".

"Estou sentada no meu quarto em frente à secretária. E de repente oiço a tua voz lá em baixo. Dizes olá a todos, e ficas na conversa. Já passaram uns 30 minutos desde que chegaste, será que já sentiste a minha falta? Ou será que os 20 degraus que nos separam são demais, e não tens vontade de subi-los? Eu não os vou descer. Não vou ter contigo, porque estou farta de correr atrás de ti quando a obrigação deveria ser tua. Mas apetecia-me ter a coragem de me levantar daqui, ir ter contigo, olhar-te nos olhos e perguntar-te porquê, Pedro? Porque é que tu tens de ser mais uma desilusão na minha vida? Porquê que não dás valor à tua familia? Porque é que não soubeste manter a nossa casa ''em pé'' ? Porque é que não soubeste lutar por nós nem um bocadinho  Porquê, Pedro? Porque é que preferes a solidão, ou a companhia de uma puta, em vez de te teres agarrado ao calor da nossa casa, ou ao amor da tua mulher?  Porque é que te afastas de quem te quer perto? Porquê ? Eram estas as perguntas que tinha guardadas para ti, mas não consigo. Porque te amo tanto... ainda que seja menos do que um dia já amei. "

Agora ele lembra-se de tudo. Apetece-lhe cometer a maior loucura de sempre e "jogar" com a sua vida. Mas sabe que isso não mudaria nada, que o culpado foi ele e apesar de saber que era o que merecia, sabe também, que ela está feliz agora. Mais do que alguma vez esteve com ele.

"Decidi que hoje era a última vez que escrevo para ti e sobre ti. A minha vida começa oficialmente a mudar. Não existe lugar onde eu mais queira estar do que no teu caminho. Mas esse não é o caminho certo, e é isso que eu preciso de procurar. Daqui para a frente declaro independência de ti e de tudo o que te dei nestes últimos meses. Espero que encontres o rumo certo, mesmo que ele não passe por mim. É que não sei se alguma vez te deste conta, mas o que eu quero e sempre quis, é o melhor para ti, independentemente de isso me incluir ou não. Até qualquer dia, Pedro. Vou em busca da minha felicidade, porque sei que ela também me procura."

Pelos vistos ultrapassou a procura, pois ela encontrou-a. Ambas se encontraram e nenhuma o incluia. Outrora, fora feliz porque sabia que depois da sua diversão, chegaria a casa e tinha uma mulher disposta a amá-lo. Agora, não tem a felicidade nem a mulher. E o que mais lhe doi é que ela tem as duas coisas, por culpa dele. Porque ela é feliz com outro alguém, que não ele. Mas se ele não fosse parvo, estúpido e todos-os-insultos-imagináveis-existentes-e-não-existentes, ela estaria feliz, com ele.
Será que vale mesmo a pena lutar por algo que ele deixou morrer e que ela aniquilou aos poucos?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Parte # 12

Bip Bip. Tem uma mensagem nova.
Estava com o Nuno a passear pelo jardim. Está uma pouco frio apesar de já se fazer notar a presença do verão. Estou com as mãos na algibeira do casaco, para que aqueçam um pouco, mas é em vão. Está frio e apenas o calor do abraço do Nuno consegue me manter na temperatura normal. 
O jardim é bastante calmo. Alguns bancos brancos e castanhos distribuídos pelo espaço, várias árvores e várias espécies de flores, que nem eu sabia da sua existência. O dia parece-me, à primeira vista, que será aborrecido.

- Recebeste uma mensagem. - Diz-me o Nuno.
- Eu sei. Não me apetece ver.
- Mas pode ser sobre o Gonçalo.
- Sim, tens razão.

Pego no telemóvel e abro a mensagem ansiosa. Paro e leio.

"Hoje lembrei-me de ti. Hoje, ontem, antes de ontem...amanhã. É difícil esquecer alguém como tu.
Mesmo que nunca to tivesse demonstrado e dito. Amo-te."

Fiquei em choque e olho para a mensagem seguidamente do numero não listado no meu telemóvel.

- Sofia? O que se passa?
- Uh... Sabes aquele número que me ligou antes de sairmos de casa?
- Sim, o telefonema estranho...
- Exato. - Estico o braço e entrego-lhe o telemóvel. - Lê.

Ele segura o telemóvel, lê e olha para mim.

- É o meu ex. Não falamos à meses e ele agora lembrou-se que eu existo. E agora só está a ver o meu valor, quando já não me pode valorizar.
- Devo ficar preocupado?
- Não, claro que não! - Abraço-o. - Estou contigo e é contigo que quero estar. Ele perdeu a sua oportunidade e não a soube aproveitar. Tu "curaste-me" daquilo que sentia e felizmente me fizeste abrir os olhos e perceber que posso ser feliz e que os homens não são todos iguais.

Ele abraça-me com mais força.
- Não te quero perder, Sofia. Tornaste-te muito especial.
- Não me vais perder. Aliás eu não sou de desistir das pessoas quando sei que elas valem a pena.

Apaguei a mensagem e guardei o telemóvel no bolso.

- Vamos ver se o Gonçalo acordou? - Pergunto.
- Sim, bebericamos um café pelo caminho.

Chegamos ao hospital. Odeio bastante o cheiro a medicamentos, o cheiro a idosos a sofrer com as dores, e o sofrimento dos seus familiares sabendo que não restarão muitos mais dias de vida, o cheiro a crianças com doenças graves e sem cura. Odeio o hospital. Odeio saber o motivo de estar ali. Gonçalo. Terá ele acordado e perguntado por mim? Terá ele perdido a memória e não se lembrar de nada? Não se lembrar da sua irmã gémea e do quão próximos somos? Será que acordou e, tal como os meus pais, odeia-me?
Tiro todos esses pensamentos da minha cabeça e tento pensar positivo.
Entro no quarto e ele continua deitado, sem movimentar-se. Sem um único sinal de vida.
Os meus olhos enchem-se de lágrimas e não consigo controlar-me. Abraço-o, desesperadamente. Dava tudo para ser eu naquele lugar. Para ter sofrido o acidente e estar ali, quase sem vida.
O Nuno segura-me e senta-me na cadeira ao lado da cama.

- Calma, querida. Não o sufoques. Dá-lhe tempo. Ele está bem, tens problemas para resolver e entretanto ele acordará.
- O que és tu, um psicólogo frustrado? - Atirei-lhe eu, com os nervos. - Sou uma mulher adulta, não preciso que um homem que faz os seus joguinhos de engate num café, me venha dizer que tenho problemas.
- Não tenho a mínima intenção de engatar miúdas. Tu chamaste-me a atenção e isso não foi um engate. Foi apenas a curiosidade de te conhecer. Não tentes magoar-me para esconderes a tua dor e o teu sofrimento.
- Que raio de lata! - Levantei-me e simultaneamente levantei a voz. - Apareces na minha vida sem ser convidado, partilho coisas contigo que nunca partilhei com ninguém, falo-te na minha infância e tu vês-te no direito de te meteres em tudo o que me diz respeito?
- Só não saio porta fora porque sei que estás nervosa com toda a pressão que tens sobre ti. Por favor, Sofia, não me magoes com as palavras, porque se eu for embora, não volto atrás.

Olhei para ele e lembrei-me de toda essa conversa, do quão injusta estava a ser e a descarregar todos os meus sentimentos negativos nele. Sentei-me e pousei a cabeça nas minhas mãos enquanto chorava desalmadamente.
- Sou uma monstro. Desculpa.
- Deves ser o monstro mais bonito que eu já vi. - Ele agarra-me nas mãos e põe-me de pé, enxugando as lágrimas. - Não chores, tudo se vai resolver, eu estou aqui.
- Obrigada por não desistires de mim, mesmo depois de ser uma cabra estúpida para ti.
- Hey, não sejas assim! Esquecemos isto.

***
- Sófi?

Chamaram-me. De uma forma estranha. De uma forma única. Da forma que só ele me chama.
Volto-me.

- Gonçalo? - Aperto-o com tanta força que quase o sufoco.
- Isto é o céu ou tu estás a tentar matar-me?
- Nunca! - Aperto-o mais ainda. - É tão bom voltar a ouvir essa tua voz!!
- Daqui a nada morro mesmo e nem dás por isso. - Diz ele quase sem força.
- Desculpa. - Afasto-me. - Que susto nos pregaste!

Nesse momento o médico entra com os meus pais. Conversam sobre como tudo aconteceu. Abraço-o novamente e saio para ligar à Ana.
- Vou ligar à Ana a dar as novidades. Depois quero falar contigo, maninho.
- Sim, concordo. Tens de me falar sobre muitas coisas. - Aponta com a cabeça para o Nuno que estava na janela, pensativo.
- Claro. Beijo-lhe suavemente a face e saio.
Ligo à Ana, mas sem resposta. Mando-lhe rapidamente uma SMS para a avisar.
Vou ao escritório o resto da tarde para ver se o Francisco está a orientar-se sozinho. 
O Nuno deixa-me lá, e antes que eu saia do carro ele diz-me:
- Obrigada pela confiança.
- Como assim?
- Quando recebeste a sms, podias ter dito que não era importante, que era uma publicidade qualquer, e não me mostrares.
- Não tenho razão nenhuma para te mentir, ou para te esconder, seja lá o que for. É contigo que eu estou e não vou estragar isso. Aliás, não é o meu ex que vai estragar isto, porque eu não deixo.

Beijo-lhe nos lábios, em jeito de despedida. 

- Jantamos?
- Sim. E vamos ao cinema.
- Combinado.

Saio do carro e fecho a porta.

- Sofia. - Chama-me ele. Volto-me.
- Sim?

Ele sai do carro, corre na minha direção e pega-me ao colo. 
- Tenho medo de te perder.
- Já falamos sobre isso.
- Sim, eu sei, desculpa. É que...
- Sim?
- Nada... bom trabalho.
- Como queiras.

Beijo-lhe mais uma vez e afasto-me.

- Sofia?
- Sim? - Digo, num tom impaciente.
- Amo-te.


domingo, 22 de julho de 2012

Parte # 11

Ele está deitado. Não pregou olho a noite toda e sabe exatamente porquê. A última chamada que fez, destroçou-o. Ela estava com outro. Outro toque, outro beijo, outro sentimento, outro tudo, que não ele e com ele. E o pior é que ele sabia que a culpa era única e exclusivamente dele. Durante o tempo que estiveram juntos, ela viveu para ele, não sabendo ele exatamente o porquê, talvez por uns momentos de prazer, umas noites bem passadas, mas principalmente porque nesses momentos ela fazia-o feliz e dava sentido à sua vida. Vivia porque o amava e gostava de partilhar com ele todos os momentos, gostava de estar com ele e isso via-se no seu olhar. E ele reparava nisso, sabia-o e mesmo assim, não deu um passo atrás. Continuou a destruir-lhe o coração, mesmo sabendo que ela não merecia e que ele não era merecedor de tamanha paixão. Agora, depois de perder, quem sabe, a pessoa que mais se dedicou a ele e a mulher que ele nunca encontrará noutra, ele sente falta. Falta dos beijos, dos abraços, do amor. Falta do sentido que ela dava à sua vida. Sentia falta da organização dela, ou da organização em excesso. Sentia falta daqueles lábios, do cabelo, dos olhos apaixonados onde conseguia ver o seu reflexo. Antes, nada sentia por ela. Agora, só sente a sua falta. Costuma-se dizer que não se dá valor quando se perde, temos é de dar valor para não perder. E ele perdeu-a. Sentia-o. Perdeu-a...para sempre.
O quarto começa a andar à roda. Ele sente-se mal. Não enjoado com aquilo, mas enjoado consigo próprio. Tinha-a e deixou-a escapar. Fechou os olhos para se esquecer de tudo, principalmente de si, durante uns minutos. Mas foi em vão. Aquela conversa, aquela discussão surgiu-lhe em pensamento, como se estivesse a vivê-la naquele exato momento.

Era domingo. Ela já se tinha levantado da cama, indo preparar o pequeno almoço. Ele ainda não tinha chegado a casa. Tinha saído com os amigos na noite anterior e ela sabia que, uma vez mais, ele faria asneira. Mas estava ciente, também, que esta seria a ultima vez que passava por aquilo. Estava farta das crises dele, das saídas com os amigos e das chegadas com o cheiro a bebida e a mulheres. Estava simplesmente farta das mentiras e das vezes que respondia apenas com "Sim, eu sei que tiveste juízo", só porque não tinha paciência para mais discussões. Mas isso ia acabar naquele dia. Estava farta de todas as vezes que se fazia passar por estúpida, coisa que não é, só para que ele não a insultasse nem a culpasse de tudo, mais uma vez. Por mais que gostasse dele, não permitiria que ele a tratasse como lixo. Nunca.
Barulho da chave na fechadura. Ele entra.
Ela está sentada na cozinha a beber o café. Veste o seu pijama favorito: uns calções e uma t-shirt.

- Bom dia. - Diz ele, dando-lhe um beijo na testa, mas sem sucesso porque ela desviou-se. - O que foi?
- Um beijo na testa significa respeito. É o último beijo que me podes dar.
- Não tenho respeito por ti?
- Não tens por mim, mas o que mais me preocupa é a falta de respeito que consta para contigo.
- Não tenho paciência. Vou dormir.
- Pois o costume. Quando não te convém, é mais fácil fugires. Vai dormir e mentaliza-te que quando acordares já cá não estarei.
- A mesma lengalenga de sempre.
- "Nunca" e "sempre" são palavras bastante fortes. Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.
- É isso, é. - Respondeu ele, não se importando.

Saiu da cozinha e dirigiu-se ao quarto. Não sabia ele que aquela "lengalenga" chegara ao fim e que desta vez, ela estava disposta a deixar todo o sofrimento para trás. Ela acabou o seu café, pensado na possibilidade de viver sem ele. De como seria, visto estar tão apegada àquela pessoa que não se apegava nem um pouco a ela. Sentiu uma gota salgada a correr-lhe pela face. Limpou-a e pensou para si: "Sou nova e tenho uma vida inteira para ser feliz à minha frente. Não é um tipo com a puta da mania que é bom que me vai rebaixar. Porque eu sou mais forte que esse sentimento estúpido e lutarei contra ele. Está na hora de me valorizar."
Levantou-se, arrumou a mesa e dirigiu-se ao quarto para fazer as malas. Ele nem ouviu o barulho de toda aquela confusão devido à bebedeira e ao sono que tinha. Ainda bem, assim ele não possibilitava aquela saída de ser mais difícil do que estava a ser. Tomou um duche rápido, vestiu-se e saiu. O primeiro passo que deu porta fora, fez com que ela se sentisse livre. Era a primeira vez que lutava por si e largava tudo aquilo que lhe puxava para trás, impossibilitando-lhe o caminho da felicidade.

Algumas horas depois ele acordou. Apalpou o outro lado da cama, como se procurasse alguém, mas o vazio da cama, fez com que a procura terminasse. Ele levantou-se, sentiu a casa muito silenciosa, sem barulho da televisão, do aspirador, do telefone. Nada. Apenas um silencio ensurdecedor. ele não se lembra de nada, pelo menos, relevante. Lembra-se apenas que tivera uma conversa na cozinha com ela e deduziu que esse seria o lugar onde ela ainda se encontrava.

- Sofia, tenho fome. O que é o almoço?

Esperou pela resposta, mas nada. O silencio continuava a pairar sobre aquela casa.

- Estás surda? Tenho fome! Faz alguma coisa de útil!

Finalmente chegou à cozinha. Nada... Nenhum som, nenhuma pessoa, nenhum simples ruído vindo de um eletrodoméstico. Ele acordou rapidamente, o pouco sono que lhe restava e lembrou-se daquelas palavras. "Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.". Ela nunca o tratava pelo nome, a menos que estivesse a falar a sério. No meio da conversa, ele mal olhou para ela, mas pelo pouco que olhou, viu nos seus olhos tristeza, desilusão, ódio...nojo. Ela odiara-o naquele momento, naquela discussão. E agora que reparava nisso, ele sentia-se assim já a algum tempo. Só que ele nunca tinha olhado para ela, como ela sempre olhou para ele. Sempre...
Durante meses pensou naquilo que tinha feito e por medo, falta de coragem e principalmente vergonha e arrependimento, não foi atrás dela. Não conseguiu. Sabia que tinha sido um monstro e que a tinha feito sofrer e não queria continuar a fazê-lo. Queria fazê-la feliz. Queria fazê-la sentir-se amada, desejada. Mas sentia, acima de tudo, que era tarde demais.

O telemóvel toca e ele acorda daquele pensamento. Abre os olhos e estica o braço, desligando o telemóvel. Não quer que ninguém o chateie, principalmente naquele momento. Naquele dia. Ele sabe que não foi o suficiente e isso acabou por fazer com que a perdesse...com que se perdesse. 
Estava farto de se lamentar e levantou-se, tomou um duche e foi espairecer. Não tinha sitio exato para ir, nem queria ter um sitio certo. Queria apenas apanhar ar.
Voltou a lembrar-se daquele dia. De ter ligado para ela e ela não atender. Até que numa das milésimas vezes, ela atendeu.

- I'm sorry. - Arrependeu-se e não tem sequer a coragem de pedir desculpas como deve ser.
- No.
- It'll never happen again, i promise.
- Shut the fuck up, idiot. You said this last time.

***


Chegou a um jardim e numa parede viu um desenho enorme. Alguém desenhou aquilo sem intenção nenhuma ou com uma mínima? Aquela frase mexeu com ele, foi feita para ele.
Entre um rabisco e outro, entre tantas cores, formas e manchas estava escrito: 
"Luta pela tua Dama, Vagabundo!"