domingo, 22 de julho de 2012

Parte # 11

Ele está deitado. Não pregou olho a noite toda e sabe exatamente porquê. A última chamada que fez, destroçou-o. Ela estava com outro. Outro toque, outro beijo, outro sentimento, outro tudo, que não ele e com ele. E o pior é que ele sabia que a culpa era única e exclusivamente dele. Durante o tempo que estiveram juntos, ela viveu para ele, não sabendo ele exatamente o porquê, talvez por uns momentos de prazer, umas noites bem passadas, mas principalmente porque nesses momentos ela fazia-o feliz e dava sentido à sua vida. Vivia porque o amava e gostava de partilhar com ele todos os momentos, gostava de estar com ele e isso via-se no seu olhar. E ele reparava nisso, sabia-o e mesmo assim, não deu um passo atrás. Continuou a destruir-lhe o coração, mesmo sabendo que ela não merecia e que ele não era merecedor de tamanha paixão. Agora, depois de perder, quem sabe, a pessoa que mais se dedicou a ele e a mulher que ele nunca encontrará noutra, ele sente falta. Falta dos beijos, dos abraços, do amor. Falta do sentido que ela dava à sua vida. Sentia falta da organização dela, ou da organização em excesso. Sentia falta daqueles lábios, do cabelo, dos olhos apaixonados onde conseguia ver o seu reflexo. Antes, nada sentia por ela. Agora, só sente a sua falta. Costuma-se dizer que não se dá valor quando se perde, temos é de dar valor para não perder. E ele perdeu-a. Sentia-o. Perdeu-a...para sempre.
O quarto começa a andar à roda. Ele sente-se mal. Não enjoado com aquilo, mas enjoado consigo próprio. Tinha-a e deixou-a escapar. Fechou os olhos para se esquecer de tudo, principalmente de si, durante uns minutos. Mas foi em vão. Aquela conversa, aquela discussão surgiu-lhe em pensamento, como se estivesse a vivê-la naquele exato momento.

Era domingo. Ela já se tinha levantado da cama, indo preparar o pequeno almoço. Ele ainda não tinha chegado a casa. Tinha saído com os amigos na noite anterior e ela sabia que, uma vez mais, ele faria asneira. Mas estava ciente, também, que esta seria a ultima vez que passava por aquilo. Estava farta das crises dele, das saídas com os amigos e das chegadas com o cheiro a bebida e a mulheres. Estava simplesmente farta das mentiras e das vezes que respondia apenas com "Sim, eu sei que tiveste juízo", só porque não tinha paciência para mais discussões. Mas isso ia acabar naquele dia. Estava farta de todas as vezes que se fazia passar por estúpida, coisa que não é, só para que ele não a insultasse nem a culpasse de tudo, mais uma vez. Por mais que gostasse dele, não permitiria que ele a tratasse como lixo. Nunca.
Barulho da chave na fechadura. Ele entra.
Ela está sentada na cozinha a beber o café. Veste o seu pijama favorito: uns calções e uma t-shirt.

- Bom dia. - Diz ele, dando-lhe um beijo na testa, mas sem sucesso porque ela desviou-se. - O que foi?
- Um beijo na testa significa respeito. É o último beijo que me podes dar.
- Não tenho respeito por ti?
- Não tens por mim, mas o que mais me preocupa é a falta de respeito que consta para contigo.
- Não tenho paciência. Vou dormir.
- Pois o costume. Quando não te convém, é mais fácil fugires. Vai dormir e mentaliza-te que quando acordares já cá não estarei.
- A mesma lengalenga de sempre.
- "Nunca" e "sempre" são palavras bastante fortes. Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.
- É isso, é. - Respondeu ele, não se importando.

Saiu da cozinha e dirigiu-se ao quarto. Não sabia ele que aquela "lengalenga" chegara ao fim e que desta vez, ela estava disposta a deixar todo o sofrimento para trás. Ela acabou o seu café, pensado na possibilidade de viver sem ele. De como seria, visto estar tão apegada àquela pessoa que não se apegava nem um pouco a ela. Sentiu uma gota salgada a correr-lhe pela face. Limpou-a e pensou para si: "Sou nova e tenho uma vida inteira para ser feliz à minha frente. Não é um tipo com a puta da mania que é bom que me vai rebaixar. Porque eu sou mais forte que esse sentimento estúpido e lutarei contra ele. Está na hora de me valorizar."
Levantou-se, arrumou a mesa e dirigiu-se ao quarto para fazer as malas. Ele nem ouviu o barulho de toda aquela confusão devido à bebedeira e ao sono que tinha. Ainda bem, assim ele não possibilitava aquela saída de ser mais difícil do que estava a ser. Tomou um duche rápido, vestiu-se e saiu. O primeiro passo que deu porta fora, fez com que ela se sentisse livre. Era a primeira vez que lutava por si e largava tudo aquilo que lhe puxava para trás, impossibilitando-lhe o caminho da felicidade.

Algumas horas depois ele acordou. Apalpou o outro lado da cama, como se procurasse alguém, mas o vazio da cama, fez com que a procura terminasse. Ele levantou-se, sentiu a casa muito silenciosa, sem barulho da televisão, do aspirador, do telefone. Nada. Apenas um silencio ensurdecedor. ele não se lembra de nada, pelo menos, relevante. Lembra-se apenas que tivera uma conversa na cozinha com ela e deduziu que esse seria o lugar onde ela ainda se encontrava.

- Sofia, tenho fome. O que é o almoço?

Esperou pela resposta, mas nada. O silencio continuava a pairar sobre aquela casa.

- Estás surda? Tenho fome! Faz alguma coisa de útil!

Finalmente chegou à cozinha. Nada... Nenhum som, nenhuma pessoa, nenhum simples ruído vindo de um eletrodoméstico. Ele acordou rapidamente, o pouco sono que lhe restava e lembrou-se daquelas palavras. "Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.". Ela nunca o tratava pelo nome, a menos que estivesse a falar a sério. No meio da conversa, ele mal olhou para ela, mas pelo pouco que olhou, viu nos seus olhos tristeza, desilusão, ódio...nojo. Ela odiara-o naquele momento, naquela discussão. E agora que reparava nisso, ele sentia-se assim já a algum tempo. Só que ele nunca tinha olhado para ela, como ela sempre olhou para ele. Sempre...
Durante meses pensou naquilo que tinha feito e por medo, falta de coragem e principalmente vergonha e arrependimento, não foi atrás dela. Não conseguiu. Sabia que tinha sido um monstro e que a tinha feito sofrer e não queria continuar a fazê-lo. Queria fazê-la feliz. Queria fazê-la sentir-se amada, desejada. Mas sentia, acima de tudo, que era tarde demais.

O telemóvel toca e ele acorda daquele pensamento. Abre os olhos e estica o braço, desligando o telemóvel. Não quer que ninguém o chateie, principalmente naquele momento. Naquele dia. Ele sabe que não foi o suficiente e isso acabou por fazer com que a perdesse...com que se perdesse. 
Estava farto de se lamentar e levantou-se, tomou um duche e foi espairecer. Não tinha sitio exato para ir, nem queria ter um sitio certo. Queria apenas apanhar ar.
Voltou a lembrar-se daquele dia. De ter ligado para ela e ela não atender. Até que numa das milésimas vezes, ela atendeu.

- I'm sorry. - Arrependeu-se e não tem sequer a coragem de pedir desculpas como deve ser.
- No.
- It'll never happen again, i promise.
- Shut the fuck up, idiot. You said this last time.

***


Chegou a um jardim e numa parede viu um desenho enorme. Alguém desenhou aquilo sem intenção nenhuma ou com uma mínima? Aquela frase mexeu com ele, foi feita para ele.
Entre um rabisco e outro, entre tantas cores, formas e manchas estava escrito: 
"Luta pela tua Dama, Vagabundo!"

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