Bip Bip. Tem uma mensagem nova.
Estava com o Nuno a passear pelo jardim. Está uma pouco frio apesar de já se fazer notar a presença do verão. Estou com as mãos na algibeira do casaco, para que aqueçam um pouco, mas é em vão. Está frio e apenas o calor do abraço do Nuno consegue me manter na temperatura normal.
O jardim é bastante calmo. Alguns bancos brancos e castanhos distribuídos pelo espaço, várias árvores e várias espécies de flores, que nem eu sabia da sua existência. O dia parece-me, à primeira vista, que será aborrecido.
- Recebeste uma mensagem. - Diz-me o Nuno.
- Eu sei. Não me apetece ver.
- Mas pode ser sobre o Gonçalo.
- Sim, tens razão.
Pego no telemóvel e abro a mensagem ansiosa. Paro e leio.
"Hoje lembrei-me de ti. Hoje, ontem, antes de ontem...amanhã. É difícil esquecer alguém como tu.
Mesmo que nunca to tivesse demonstrado e dito. Amo-te."
Fiquei em choque e olho para a mensagem seguidamente do numero não listado no meu telemóvel.
- Sofia? O que se passa?
- Uh... Sabes aquele número que me ligou antes de sairmos de casa?
- Sim, o telefonema estranho...
- Exato. - Estico o braço e entrego-lhe o telemóvel. - Lê.
Ele segura o telemóvel, lê e olha para mim.
- É o meu ex. Não falamos à meses e ele agora lembrou-se que eu existo. E agora só está a ver o meu valor, quando já não me pode valorizar.
- Devo ficar preocupado?
- Não, claro que não! - Abraço-o. - Estou contigo e é contigo que quero estar. Ele perdeu a sua oportunidade e não a soube aproveitar. Tu "curaste-me" daquilo que sentia e felizmente me fizeste abrir os olhos e perceber que posso ser feliz e que os homens não são todos iguais.
Ele abraça-me com mais força.
- Não te quero perder, Sofia. Tornaste-te muito especial.
- Não me vais perder. Aliás eu não sou de desistir das pessoas quando sei que elas valem a pena.
Apaguei a mensagem e guardei o telemóvel no bolso.
- Vamos ver se o Gonçalo acordou? - Pergunto.
- Sim, bebericamos um café pelo caminho.
Chegamos ao hospital. Odeio bastante o cheiro a medicamentos, o cheiro a idosos a sofrer com as dores, e o sofrimento dos seus familiares sabendo que não restarão muitos mais dias de vida, o cheiro a crianças com doenças graves e sem cura. Odeio o hospital. Odeio saber o motivo de estar ali. Gonçalo. Terá ele acordado e perguntado por mim? Terá ele perdido a memória e não se lembrar de nada? Não se lembrar da sua irmã gémea e do quão próximos somos? Será que acordou e, tal como os meus pais, odeia-me?
Tiro todos esses pensamentos da minha cabeça e tento pensar positivo.
Entro no quarto e ele continua deitado, sem movimentar-se. Sem um único sinal de vida.
Os meus olhos enchem-se de lágrimas e não consigo controlar-me. Abraço-o, desesperadamente. Dava tudo para ser eu naquele lugar. Para ter sofrido o acidente e estar ali, quase sem vida.
O Nuno segura-me e senta-me na cadeira ao lado da cama.
- Calma, querida. Não o sufoques. Dá-lhe tempo. Ele está bem, tens problemas para resolver e entretanto ele acordará.
- O que és tu, um psicólogo frustrado? - Atirei-lhe eu, com os nervos. - Sou uma mulher adulta, não preciso que um homem que faz os seus joguinhos de engate num café, me venha dizer que tenho problemas.
- Não tenho a mínima intenção de engatar miúdas. Tu chamaste-me a atenção e isso não foi um engate. Foi apenas a curiosidade de te conhecer. Não tentes magoar-me para esconderes a tua dor e o teu sofrimento.
- Que raio de lata! - Levantei-me e simultaneamente levantei a voz. - Apareces na minha vida sem ser convidado, partilho coisas contigo que nunca partilhei com ninguém, falo-te na minha infância e tu vês-te no direito de te meteres em tudo o que me diz respeito?
- Só não saio porta fora porque sei que estás nervosa com toda a pressão que tens sobre ti. Por favor, Sofia, não me magoes com as palavras, porque se eu for embora, não volto atrás.
Olhei para ele e lembrei-me de toda essa conversa, do quão injusta estava a ser e a descarregar todos os meus sentimentos negativos nele. Sentei-me e pousei a cabeça nas minhas mãos enquanto chorava desalmadamente.
- Sou uma monstro. Desculpa.
- Deves ser o monstro mais bonito que eu já vi. - Ele agarra-me nas mãos e põe-me de pé, enxugando as lágrimas. - Não chores, tudo se vai resolver, eu estou aqui.
- Obrigada por não desistires de mim, mesmo depois de ser uma cabra estúpida para ti.
- Hey, não sejas assim! Esquecemos isto.
***
- Sófi?
Chamaram-me. De uma forma estranha. De uma forma única. Da forma que só ele me chama.
Volto-me.
- Gonçalo? - Aperto-o com tanta força que quase o sufoco.
- Isto é o céu ou tu estás a tentar matar-me?
- Nunca! - Aperto-o mais ainda. - É tão bom voltar a ouvir essa tua voz!!
- Daqui a nada morro mesmo e nem dás por isso. - Diz ele quase sem força.
- Desculpa. - Afasto-me. - Que susto nos pregaste!
Nesse momento o médico entra com os meus pais. Conversam sobre como tudo aconteceu. Abraço-o novamente e saio para ligar à Ana.
- Vou ligar à Ana a dar as novidades. Depois quero falar contigo, maninho.
- Sim, concordo. Tens de me falar sobre muitas coisas. - Aponta com a cabeça para o Nuno que estava na janela, pensativo.
- Claro. Beijo-lhe suavemente a face e saio.
Ligo à Ana, mas sem resposta. Mando-lhe rapidamente uma SMS para a avisar.
Vou ao escritório o resto da tarde para ver se o Francisco está a orientar-se sozinho.
O Nuno deixa-me lá, e antes que eu saia do carro ele diz-me:
- Obrigada pela confiança.
- Como assim?
- Quando recebeste a sms, podias ter dito que não era importante, que era uma publicidade qualquer, e não me mostrares.
- Não tenho razão nenhuma para te mentir, ou para te esconder, seja lá o que for. É contigo que eu estou e não vou estragar isso. Aliás, não é o meu ex que vai estragar isto, porque eu não deixo.
Beijo-lhe nos lábios, em jeito de despedida.
- Jantamos?
- Sim. E vamos ao cinema.
- Combinado.
Saio do carro e fecho a porta.
- Sofia. - Chama-me ele. Volto-me.
- Sim?
- Tenho medo de te perder.
- Já falamos sobre isso.
- Sim, eu sei, desculpa. É que...
- Sim?
- Nada... bom trabalho.
- Como queiras.
Beijo-lhe mais uma vez e afasto-me.
- Sofia?
- Sim? - Digo, num tom impaciente.
- Amo-te.






