sexta-feira, 27 de julho de 2012

Parte # 12

Bip Bip. Tem uma mensagem nova.
Estava com o Nuno a passear pelo jardim. Está uma pouco frio apesar de já se fazer notar a presença do verão. Estou com as mãos na algibeira do casaco, para que aqueçam um pouco, mas é em vão. Está frio e apenas o calor do abraço do Nuno consegue me manter na temperatura normal. 
O jardim é bastante calmo. Alguns bancos brancos e castanhos distribuídos pelo espaço, várias árvores e várias espécies de flores, que nem eu sabia da sua existência. O dia parece-me, à primeira vista, que será aborrecido.

- Recebeste uma mensagem. - Diz-me o Nuno.
- Eu sei. Não me apetece ver.
- Mas pode ser sobre o Gonçalo.
- Sim, tens razão.

Pego no telemóvel e abro a mensagem ansiosa. Paro e leio.

"Hoje lembrei-me de ti. Hoje, ontem, antes de ontem...amanhã. É difícil esquecer alguém como tu.
Mesmo que nunca to tivesse demonstrado e dito. Amo-te."

Fiquei em choque e olho para a mensagem seguidamente do numero não listado no meu telemóvel.

- Sofia? O que se passa?
- Uh... Sabes aquele número que me ligou antes de sairmos de casa?
- Sim, o telefonema estranho...
- Exato. - Estico o braço e entrego-lhe o telemóvel. - Lê.

Ele segura o telemóvel, lê e olha para mim.

- É o meu ex. Não falamos à meses e ele agora lembrou-se que eu existo. E agora só está a ver o meu valor, quando já não me pode valorizar.
- Devo ficar preocupado?
- Não, claro que não! - Abraço-o. - Estou contigo e é contigo que quero estar. Ele perdeu a sua oportunidade e não a soube aproveitar. Tu "curaste-me" daquilo que sentia e felizmente me fizeste abrir os olhos e perceber que posso ser feliz e que os homens não são todos iguais.

Ele abraça-me com mais força.
- Não te quero perder, Sofia. Tornaste-te muito especial.
- Não me vais perder. Aliás eu não sou de desistir das pessoas quando sei que elas valem a pena.

Apaguei a mensagem e guardei o telemóvel no bolso.

- Vamos ver se o Gonçalo acordou? - Pergunto.
- Sim, bebericamos um café pelo caminho.

Chegamos ao hospital. Odeio bastante o cheiro a medicamentos, o cheiro a idosos a sofrer com as dores, e o sofrimento dos seus familiares sabendo que não restarão muitos mais dias de vida, o cheiro a crianças com doenças graves e sem cura. Odeio o hospital. Odeio saber o motivo de estar ali. Gonçalo. Terá ele acordado e perguntado por mim? Terá ele perdido a memória e não se lembrar de nada? Não se lembrar da sua irmã gémea e do quão próximos somos? Será que acordou e, tal como os meus pais, odeia-me?
Tiro todos esses pensamentos da minha cabeça e tento pensar positivo.
Entro no quarto e ele continua deitado, sem movimentar-se. Sem um único sinal de vida.
Os meus olhos enchem-se de lágrimas e não consigo controlar-me. Abraço-o, desesperadamente. Dava tudo para ser eu naquele lugar. Para ter sofrido o acidente e estar ali, quase sem vida.
O Nuno segura-me e senta-me na cadeira ao lado da cama.

- Calma, querida. Não o sufoques. Dá-lhe tempo. Ele está bem, tens problemas para resolver e entretanto ele acordará.
- O que és tu, um psicólogo frustrado? - Atirei-lhe eu, com os nervos. - Sou uma mulher adulta, não preciso que um homem que faz os seus joguinhos de engate num café, me venha dizer que tenho problemas.
- Não tenho a mínima intenção de engatar miúdas. Tu chamaste-me a atenção e isso não foi um engate. Foi apenas a curiosidade de te conhecer. Não tentes magoar-me para esconderes a tua dor e o teu sofrimento.
- Que raio de lata! - Levantei-me e simultaneamente levantei a voz. - Apareces na minha vida sem ser convidado, partilho coisas contigo que nunca partilhei com ninguém, falo-te na minha infância e tu vês-te no direito de te meteres em tudo o que me diz respeito?
- Só não saio porta fora porque sei que estás nervosa com toda a pressão que tens sobre ti. Por favor, Sofia, não me magoes com as palavras, porque se eu for embora, não volto atrás.

Olhei para ele e lembrei-me de toda essa conversa, do quão injusta estava a ser e a descarregar todos os meus sentimentos negativos nele. Sentei-me e pousei a cabeça nas minhas mãos enquanto chorava desalmadamente.
- Sou uma monstro. Desculpa.
- Deves ser o monstro mais bonito que eu já vi. - Ele agarra-me nas mãos e põe-me de pé, enxugando as lágrimas. - Não chores, tudo se vai resolver, eu estou aqui.
- Obrigada por não desistires de mim, mesmo depois de ser uma cabra estúpida para ti.
- Hey, não sejas assim! Esquecemos isto.

***
- Sófi?

Chamaram-me. De uma forma estranha. De uma forma única. Da forma que só ele me chama.
Volto-me.

- Gonçalo? - Aperto-o com tanta força que quase o sufoco.
- Isto é o céu ou tu estás a tentar matar-me?
- Nunca! - Aperto-o mais ainda. - É tão bom voltar a ouvir essa tua voz!!
- Daqui a nada morro mesmo e nem dás por isso. - Diz ele quase sem força.
- Desculpa. - Afasto-me. - Que susto nos pregaste!

Nesse momento o médico entra com os meus pais. Conversam sobre como tudo aconteceu. Abraço-o novamente e saio para ligar à Ana.
- Vou ligar à Ana a dar as novidades. Depois quero falar contigo, maninho.
- Sim, concordo. Tens de me falar sobre muitas coisas. - Aponta com a cabeça para o Nuno que estava na janela, pensativo.
- Claro. Beijo-lhe suavemente a face e saio.
Ligo à Ana, mas sem resposta. Mando-lhe rapidamente uma SMS para a avisar.
Vou ao escritório o resto da tarde para ver se o Francisco está a orientar-se sozinho. 
O Nuno deixa-me lá, e antes que eu saia do carro ele diz-me:
- Obrigada pela confiança.
- Como assim?
- Quando recebeste a sms, podias ter dito que não era importante, que era uma publicidade qualquer, e não me mostrares.
- Não tenho razão nenhuma para te mentir, ou para te esconder, seja lá o que for. É contigo que eu estou e não vou estragar isso. Aliás, não é o meu ex que vai estragar isto, porque eu não deixo.

Beijo-lhe nos lábios, em jeito de despedida. 

- Jantamos?
- Sim. E vamos ao cinema.
- Combinado.

Saio do carro e fecho a porta.

- Sofia. - Chama-me ele. Volto-me.
- Sim?

Ele sai do carro, corre na minha direção e pega-me ao colo. 
- Tenho medo de te perder.
- Já falamos sobre isso.
- Sim, eu sei, desculpa. É que...
- Sim?
- Nada... bom trabalho.
- Como queiras.

Beijo-lhe mais uma vez e afasto-me.

- Sofia?
- Sim? - Digo, num tom impaciente.
- Amo-te.


domingo, 22 de julho de 2012

Parte # 11

Ele está deitado. Não pregou olho a noite toda e sabe exatamente porquê. A última chamada que fez, destroçou-o. Ela estava com outro. Outro toque, outro beijo, outro sentimento, outro tudo, que não ele e com ele. E o pior é que ele sabia que a culpa era única e exclusivamente dele. Durante o tempo que estiveram juntos, ela viveu para ele, não sabendo ele exatamente o porquê, talvez por uns momentos de prazer, umas noites bem passadas, mas principalmente porque nesses momentos ela fazia-o feliz e dava sentido à sua vida. Vivia porque o amava e gostava de partilhar com ele todos os momentos, gostava de estar com ele e isso via-se no seu olhar. E ele reparava nisso, sabia-o e mesmo assim, não deu um passo atrás. Continuou a destruir-lhe o coração, mesmo sabendo que ela não merecia e que ele não era merecedor de tamanha paixão. Agora, depois de perder, quem sabe, a pessoa que mais se dedicou a ele e a mulher que ele nunca encontrará noutra, ele sente falta. Falta dos beijos, dos abraços, do amor. Falta do sentido que ela dava à sua vida. Sentia falta da organização dela, ou da organização em excesso. Sentia falta daqueles lábios, do cabelo, dos olhos apaixonados onde conseguia ver o seu reflexo. Antes, nada sentia por ela. Agora, só sente a sua falta. Costuma-se dizer que não se dá valor quando se perde, temos é de dar valor para não perder. E ele perdeu-a. Sentia-o. Perdeu-a...para sempre.
O quarto começa a andar à roda. Ele sente-se mal. Não enjoado com aquilo, mas enjoado consigo próprio. Tinha-a e deixou-a escapar. Fechou os olhos para se esquecer de tudo, principalmente de si, durante uns minutos. Mas foi em vão. Aquela conversa, aquela discussão surgiu-lhe em pensamento, como se estivesse a vivê-la naquele exato momento.

Era domingo. Ela já se tinha levantado da cama, indo preparar o pequeno almoço. Ele ainda não tinha chegado a casa. Tinha saído com os amigos na noite anterior e ela sabia que, uma vez mais, ele faria asneira. Mas estava ciente, também, que esta seria a ultima vez que passava por aquilo. Estava farta das crises dele, das saídas com os amigos e das chegadas com o cheiro a bebida e a mulheres. Estava simplesmente farta das mentiras e das vezes que respondia apenas com "Sim, eu sei que tiveste juízo", só porque não tinha paciência para mais discussões. Mas isso ia acabar naquele dia. Estava farta de todas as vezes que se fazia passar por estúpida, coisa que não é, só para que ele não a insultasse nem a culpasse de tudo, mais uma vez. Por mais que gostasse dele, não permitiria que ele a tratasse como lixo. Nunca.
Barulho da chave na fechadura. Ele entra.
Ela está sentada na cozinha a beber o café. Veste o seu pijama favorito: uns calções e uma t-shirt.

- Bom dia. - Diz ele, dando-lhe um beijo na testa, mas sem sucesso porque ela desviou-se. - O que foi?
- Um beijo na testa significa respeito. É o último beijo que me podes dar.
- Não tenho respeito por ti?
- Não tens por mim, mas o que mais me preocupa é a falta de respeito que consta para contigo.
- Não tenho paciência. Vou dormir.
- Pois o costume. Quando não te convém, é mais fácil fugires. Vai dormir e mentaliza-te que quando acordares já cá não estarei.
- A mesma lengalenga de sempre.
- "Nunca" e "sempre" são palavras bastante fortes. Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.
- É isso, é. - Respondeu ele, não se importando.

Saiu da cozinha e dirigiu-se ao quarto. Não sabia ele que aquela "lengalenga" chegara ao fim e que desta vez, ela estava disposta a deixar todo o sofrimento para trás. Ela acabou o seu café, pensado na possibilidade de viver sem ele. De como seria, visto estar tão apegada àquela pessoa que não se apegava nem um pouco a ela. Sentiu uma gota salgada a correr-lhe pela face. Limpou-a e pensou para si: "Sou nova e tenho uma vida inteira para ser feliz à minha frente. Não é um tipo com a puta da mania que é bom que me vai rebaixar. Porque eu sou mais forte que esse sentimento estúpido e lutarei contra ele. Está na hora de me valorizar."
Levantou-se, arrumou a mesa e dirigiu-se ao quarto para fazer as malas. Ele nem ouviu o barulho de toda aquela confusão devido à bebedeira e ao sono que tinha. Ainda bem, assim ele não possibilitava aquela saída de ser mais difícil do que estava a ser. Tomou um duche rápido, vestiu-se e saiu. O primeiro passo que deu porta fora, fez com que ela se sentisse livre. Era a primeira vez que lutava por si e largava tudo aquilo que lhe puxava para trás, impossibilitando-lhe o caminho da felicidade.

Algumas horas depois ele acordou. Apalpou o outro lado da cama, como se procurasse alguém, mas o vazio da cama, fez com que a procura terminasse. Ele levantou-se, sentiu a casa muito silenciosa, sem barulho da televisão, do aspirador, do telefone. Nada. Apenas um silencio ensurdecedor. ele não se lembra de nada, pelo menos, relevante. Lembra-se apenas que tivera uma conversa na cozinha com ela e deduziu que esse seria o lugar onde ela ainda se encontrava.

- Sofia, tenho fome. O que é o almoço?

Esperou pela resposta, mas nada. O silencio continuava a pairar sobre aquela casa.

- Estás surda? Tenho fome! Faz alguma coisa de útil!

Finalmente chegou à cozinha. Nada... Nenhum som, nenhuma pessoa, nenhum simples ruído vindo de um eletrodoméstico. Ele acordou rapidamente, o pouco sono que lhe restava e lembrou-se daquelas palavras. "Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.". Ela nunca o tratava pelo nome, a menos que estivesse a falar a sério. No meio da conversa, ele mal olhou para ela, mas pelo pouco que olhou, viu nos seus olhos tristeza, desilusão, ódio...nojo. Ela odiara-o naquele momento, naquela discussão. E agora que reparava nisso, ele sentia-se assim já a algum tempo. Só que ele nunca tinha olhado para ela, como ela sempre olhou para ele. Sempre...
Durante meses pensou naquilo que tinha feito e por medo, falta de coragem e principalmente vergonha e arrependimento, não foi atrás dela. Não conseguiu. Sabia que tinha sido um monstro e que a tinha feito sofrer e não queria continuar a fazê-lo. Queria fazê-la feliz. Queria fazê-la sentir-se amada, desejada. Mas sentia, acima de tudo, que era tarde demais.

O telemóvel toca e ele acorda daquele pensamento. Abre os olhos e estica o braço, desligando o telemóvel. Não quer que ninguém o chateie, principalmente naquele momento. Naquele dia. Ele sabe que não foi o suficiente e isso acabou por fazer com que a perdesse...com que se perdesse. 
Estava farto de se lamentar e levantou-se, tomou um duche e foi espairecer. Não tinha sitio exato para ir, nem queria ter um sitio certo. Queria apenas apanhar ar.
Voltou a lembrar-se daquele dia. De ter ligado para ela e ela não atender. Até que numa das milésimas vezes, ela atendeu.

- I'm sorry. - Arrependeu-se e não tem sequer a coragem de pedir desculpas como deve ser.
- No.
- It'll never happen again, i promise.
- Shut the fuck up, idiot. You said this last time.

***


Chegou a um jardim e numa parede viu um desenho enorme. Alguém desenhou aquilo sem intenção nenhuma ou com uma mínima? Aquela frase mexeu com ele, foi feita para ele.
Entre um rabisco e outro, entre tantas cores, formas e manchas estava escrito: 
"Luta pela tua Dama, Vagabundo!"

domingo, 8 de julho de 2012

Parte # 10

A noite passa, tão lenta...como se o tempo não passasse e não se importasse sequer em fazê-lo. Parece ter sido à umas horas que olhei para o relógio e ele indicava-me 2h:45 da manhã. Olhei agora, e ele indicou-me 2h:47. E isto sufoca-me. Aperta-me de tal forma a garganta e o peito que eu não me sinto viva. Penso em todos os momentos que passei mais o Gonçalo. Em miúdos fazíamos imensas asneiras, e por um, os dois pagavam. E quando não era assim, se um ficasse de castigo, o outro ficava a fazer-lhe companhia, por amor e irmandade.Pregávamos tantas partidas à Ana, e a cara dela de chateada, era o melhor prémio que poderíamos dividir. E agora, puff... Foi-se tudo por causa de um acidente, que até agora não se percebe o que sucedera realmente.

- Não consegues dormir?
O Nuno acorda. Afaga-me o cabelo.
- Princesa?
- Não, não consigo. Desculpa se te acordei.
- Não faz mal, linda.

Ele encosta-se a mim e envolve-me nos seus braços, beijando-me o pescoço.
- Não estás sozinha. Espero que o saibas.
- Eles culpam-me por algo que eu não fiz, e que mesmo que o tivesse feito, não tive culpa. Era uma criança.
- Não precisas contar se não quiseres, linda.
- Eu quero e preciso. Por favor...- ele dá-me um beijo leve na face e aperta-me num abraço, como se assenti-se e me fizesse perceber que estava ali a escutar-me.
- A Ana tinha 17 anos e nós tínhamos 10. Os meus pais saíram e deixaram-nos sozinhos, avisando a Ana de que ela tomaria conta de tudo e que confiariam nela. Como ela ainda estava na sua adolescência, aceitou, mas não com a intenção de os respeitar. ela ligou a televisão e avisou-nos de que sairia durante uns minutos e que voltaria, brevemente. Como crianças que éramos, óbvio que não ficamos quietos a ver televisão. Principalmente quando estávamos juntos. Fomos para o jardim, e entre uma brincadeira e outra, o Gonçalo decidiu subir a uma árvore, e no exato momento que os meus pais chegavam a casa, ele assustou-se com a buzina do carro, e caiu. Com isso, magoou-se na cabeça e teve de ser operado com urgência, fazendo com que só funcionasse metade do seu cérebro. Fiquei chocada com tudo aquilo a acontecer e só chorava abraçada a ele, só queria que ele abrisse os olhos naquele momento, afinal era a única pessoa que estava comigo, e naquele momento não o sentia. - Engoli em seco. - A minha irmã chegou no momento exato que a ambulância chegou, mas pelas traseiras. Disse ela que estava dentro de casa a arrumar a cozinha, e que nós tínhamos fugido sobre a sua visão, culpando-me a mim, dizendo que eu é que influenciava o meu irmão. Nas semanas que se passaram, cerca de três, o desporto do meu pai era socar-me. Batia-me como se fosse o meu castigo, perante o que acontecera.

O Nuno virou-me, fazendo com que eu ficasse frente a frente, enxugou-me uma lágrima que caiu e beijou-me levemente os lábios.
- Já passou, calma, princesa. Eu estou aqui.
- O problema é esse, Nuno. Não passou. Eles culpam-me por isso. E agora culpam-me por este acidente porque fui eu que ofereci a moto ao Gonçalo.
- O que aconteceu depois? Ele deixou de te bater porque fez-se homem o suficiente?
- Não. O meu irmão recuperou. Foi para casa, e como ele não queria que eu ficasse com ele, mandou-me para casa de uma tia minha, não se importando comigo, ao longo dos próximos anos. Simplesmente abandonou-me e eu tive de me virar sozinha. De uma forma ou de outra, agradeço-lhe, porque foi com a violência que hoje sou mais forte e sei lidar com as pessoas.
- Às vezes não é preciso lidar tanto. Queres ir dar um passeio matinal?
- De certeza que não queres descansar ao invés de me aturar?
- De maneira alguma. Vamos passear, vá!
- Vou vestir algo.

Saí do quarto e fui à casa de banho, lavar a cara. O meu telemóvel tocou ao longe.

- Querida, o teu telemóvel.
- Sim, eu ouvi. Quem é?
- Não tens o número guardado.
- Podes atender?

***

- Estou?
- Quem fala? - Uma voz masculina do outro lado da linha.
- Isso pergunto eu. Com quem deseja falar?
- Esse número não é da Sofia?
- É sim, e não pode atender agora. Acha que isto são horas de se ligar a alguém?
- Cabe-me a mim decidir isso. E você é quem?
- Companheiro dela. E você?

Silêncio do outro lado.

- Sim?
- Não sou ninguém.

A chamada caiu. O Pedro pousou o telemóvel e sentiu um aperto no estômago, um nó sufocante na garganta. Desta vez sentiu que a perdeu...para sempre.

***

Saí da casa de banho, vestindo o casaco e dando ao Nuno, o dele.
- Quem era?
- Não sei, não se identificou.
- Que estranho... Ao menos disse o que queria?
- Não, queria falar mesmo contigo. Quando disse que era o teu companheiro, ele desligou.

Quando ele identificou o sexo da pessoa, percebi logo de quem se tratava.
Sorri, beijei-lhe os lábios e saímos.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Parte # 9

Apesar de pensarmos que algumas das nossas escolhas foram erradas, e que nos arrependemos de as ter feito, não passaram de escolhas. Principalmente, nossas. A partir do momento em que as concebemos na nossa vida, somos responsáveis por todas as consequências provocadas. Tudo acontece no momento certo e quando conhecemos alguém tão especial o que menos importa é o tempo. Perdemos todo o referencial de dias, meses e horas, e torna-se impossível calcular o quanto essa sensação boa vai durar. É tudo novo, cheio de descobertas que aos poucos vamos nos apercebendo que eram mesmo tudo o que procurávamos. Mas melhor ainda, é quando encontramos algo muito superior a isso. Não procurava alguém que me completasse, aprendi a completar-me a mim mesma e só depois procurei alguém que me transbordasse. Acordei e olhei-o. Dormia profundamente e sorria como se o seu sonho fosse o melhor que já tivera. Toquei-lhe na face e delicadamente beijei-lhe os lábios, fazendo com que ele acordasse.

- Bom dia, princesa.
- Bom dia. Desculpa ter-te acordado.
- Não sejas tonta. Apesar do sonho ter sido bom, é melhor ainda acordar e perceber que afinal, ele é a minha realidade.

Corei um pouco e respondi-lhe com um sorriso. Ficar ali, a ver a sua cara de sono, o seu sorriso lindo e os seus olhos meigos e doces. Poder apreciar tudo isto pela manhã e ainda receber um beijo.
 
Às vezes, tentamos esquecer aquilo que nunca poderá ser apagado. Às vezes, devemos olhar para frente e ver o que nos aguarda. Devíamos parar para pensar, e ver que o fim de um relacionamento, tanto amoroso, profissional ou de amizade, não é o fim do mundo. Desentendimentos, mágoas, tristezas. Enfim, isso acontece a qualquer um. É preciso ter coragem para enfrentar tudo.
Beijo-lhe levemente a bochecha e levanto-me.

- Onde vais?
- Vou à rua comprar qualquer coisa para fazer o nosso pequeno-almoço.
- Hum... está bem. Não demores.

Senti um aperto enorme no peito, cerca de um segundo. Achei estranho mas não liguei, vesti qualquer coisa e sai.
Como o super mercado ainda ficava longe, aproveitei para caminhar um pouco e assim, ligar ao meu irmão, a combinar um jantar de família.
Sem resposta.
Liguei então à minha irmã. Atendeu.

- Sim?
- Eh, feia! Como está a minha maninha?
- Simpática como sempre, hein? Estou bem, e tu, como andas?
- Neste momento, com os pés.
- Andas com piadas novas, muito bem...
- Uhm... passa-se algo? Ainda não me insultaste e isso não é normal.
- Se calhar neste momento não me apeteça ser normal.
- Estás parva? O que aconteceu?
- Nada.
- Ana, deixa de ser estúpida.
- O Gonçalo teve um acidente.

O meu mundo desmoronou-se. O aperto no peito, a chamada sem resposta. O meu irmão.

- Sofia?
Quase não ouvia.
- Estás aí?

Engoli em seco e quebrei o silêncio que começava a sufocar-me.

- O que aconteceu?
- Não sei ao certo. Mas foi um acidente de mota.
- Como e com quem? Onde ele está?
- Está no hospital.
- Os pais já sabem?
- Sim, já estão a caminho.
- Quê, e se eu não ligasse, não se dignavam sequer a pegar no raio do telemóvel e avisar-me? Trata-se do Gonçalo, porra!
- Eu sei! Por isso mesmo é que tinha de arranjar coragem. Por saber o quão próximos vocês são, tinha de planear isto e pensar nas palavras certas.
- Palavras certas? Num momento destes, não existem palavras certas. Existem as palavras exatas. E tu devias ter-me dito, na altura! Ou então logo no momento que eu tinha te ligado. Já vou para aí.

Desliguei o telemóvel e voltei para trás. Não tinha andado muito, mas era como se tivesse percorrido 2 quarteirões. Bati à porta e o Nuno abriu.

- Foste rápid... - Ele olha-me e interrompe a sua fala ao ver-me a chorar. - Sofia? O que aconteceu?
- Podes levar-me a casa? Preciso ir trocar de roupa.
- Sofia, fala comigo. O que te fizeram?
Não aguentei e abracei-o. Abracei-o como se não houvesse amanhã. Abracei-o como se naquele abraço recarregasse forças e na minha cabeça quase que rezei para que o meu irmão ficasse bem, para que não fosse grave.
Expliquei-lhe o que sucedera, pelo caminho. Ele ofereceu-se para me ir levar ao hospital e para me fazer companhia neste momento difícil.

 ***

- Como é que ele está? Já disseram alguma coisa?

Sem resposta. Porque é que deixam-me assim nestes momentos? Porquê?
Os meus pais estão sentados, preocupados. A Ana está de pé a beber água. E pelos vistos ninguém me quer dar respostas.

- Nem num momento destes vão deixar de ser orgulhosos? Ana?
- Ainda não sabemos de nada. - Ela responde-me e depois sussurra-me apontando com a cabeça para os meus pais. - Não os pressiones.
- Não os pressiono? Sabes o que estás a pedir-me? Estou farta de viver assim, farta de ser julgada e culpada por algo que não fiz. Achas que é fácil lidar com isto todos estes anos? E nem num momento destes eles dão o braço a torcer e fazem com que juntemos forças para que o Gonçalo recupere. Estarei aqui, dia e noite para o meu irmão. Sim, porque apesar de eles fazerem de tudo para me perderem como filha, eu não deixarei que percam mais um.

Virei costas e sentei-me no outro lado da sala à espera. O relógio anda, os ponteiros dão tantas voltas, que por momentos parecem parar. Ora o tempo pára, ora ele voa. Levanto-me e ando pela sala, ansiosa, curiosa, preocupada. Como ele estará? O Nuno levanta-se e vem ter comigo, envolvendo-me nos seus braços.
- Anda comer qualquer coisa. Estiveste aqui todo o dia e isso faz-te mal.
- Faz-me mal é não ter noticias. Não tenho fome, querido. Mas vai comer, tu, qualquer coisa.
- Eu vou, mas trago-te algo.
- Obrigada.

Ele sai e eu sento-me outra vez colocando a cabeça entre as minhas mãos. Penso em tudo e ao mesmo tempo, em nada. Essa espera, mais do que outra qualquer, está a matar-me.
O Nuno volta com uma sandes e uma água na mão.
-Toma, come.
- Só quero a água, obrigada.
- Eu disse, come. E não reclames, vá.
Assenti apenas com a cabeça, sem forças se quer para discutir. Enquanto comia, ele olhava-me. com um olhar tão terno, tão doce. Afastava-me o cabelo dos ombros, às vezes.
- És linda e vais conseguir ultrapassar isto. Aliás, o teu irmão vai. Afinal ele é o gémeo da mulher mais forte que eu conheço. 
- Se eu fosse forte, não estaria neste momento sem força alguma.
- Exatamente por isso é que ele conseguirá. Estás a transmitir-lhe a tua força. E a minha, eu dou-ta a ti.
Sorri e abracei-o, novamente.

Neste momento alguém afinou a voz como se estivesse com tosse. Aproximou-me. Era alto, tinha cabelo branco e vestia uma bata branca.

- Desculpem, familiares do Shrº Gonçalo Bonito?
- Sim, sou irmã. Como ele está?

Ele agarrou-me no ombro, levou-me até aos meus pais e à minha irmã. A expressão dele preocupava-me. Sentou-me, olhou-me nos olhos, cerca de dois segundos. Dois segundos que pareceram uma eternidade. Aqueles olhos verdes, diziam tudo mas ao mesmo tempo, nada. Não conseguia decifrar absolutamente nada.

- Precisa ser operado...já.
- Mas é tão grave, assim?
- Se ele não fizer a operação, morre. Se ele fizer a operação, tem cerca de  23% de probabilidade de sobreviver.
- 23%? Isso é quase a mesma coisa que não ser operado. Quais são as chances que ele tem para estar incluído nestes 23%?
- Poucas...muito, poucas...

A frontalidade do médico para connosco, sobre este assunto, chocou-me. Mas ao mesmo tempo, percebi que não havia eufemismo possível para ser utilizado num caso destes. Principalmente quando estávamos todos nervosos, para saber resultados.
O médico chamou-me para ir tratar de uns papéis. Agora, só nos faltava rezar e esperar que tudo corresse bem.
O meu pai levantou-se, seguido da minha mãe.
- Estás feliz?
- Desculpe? - disse-lhe.
- Perguntei se estás feliz! Mais uma vez, é graças a ti que isto está a acontecer.
- Graças a mim? Estão a culpar-me novamente? Eu tinha 10 anos. Era uma criança, qual é a parte que não entendem? E o que tem isso a ver com o acidente?
Eles olham-me com desprezo e vão embora. Volto a ficar sem respostas. Olho para o Nuno e no olhar dele consigo decifrar um pouco de confusão e ao mesmo tempo compreensão.
- Vamos descansar, um pouco? - Diz-me ele, esticando a mão, a pedir a minha.
- Podes ir. Eu quero ficar.
- Não. Ou vamos ou ficamos. Nunca separados.

Sorrio e dou-lhe a minha mão. Saímos do hospital.

- Descansamos e depois voltamos. Prometo, princesa.