A noite passa, tão lenta...como se o tempo não passasse e não se importasse sequer em fazê-lo. Parece ter sido à umas horas que olhei para o relógio e ele indicava-me 2h:45 da manhã. Olhei agora, e ele indicou-me 2h:47. E isto sufoca-me. Aperta-me de tal forma a garganta e o peito que eu não me sinto viva. Penso em todos os momentos que passei mais o Gonçalo. Em miúdos fazíamos imensas asneiras, e por um, os dois pagavam. E quando não era assim, se um ficasse de castigo, o outro ficava a fazer-lhe companhia, por amor e irmandade.Pregávamos tantas partidas à Ana, e a cara dela de chateada, era o melhor prémio que poderíamos dividir. E agora, puff... Foi-se tudo por causa de um acidente, que até agora não se percebe o que sucedera realmente.
- Não consegues dormir?
O Nuno acorda. Afaga-me o cabelo.
- Princesa?
- Não, não consigo. Desculpa se te acordei.
- Não faz mal, linda.
Ele encosta-se a mim e envolve-me nos seus braços, beijando-me o pescoço.
- Não estás sozinha. Espero que o saibas.
- Eles culpam-me por algo que eu não fiz, e que mesmo que o tivesse feito, não tive culpa. Era uma criança.
- Não precisas contar se não quiseres, linda.
- Eu quero e preciso. Por favor...- ele dá-me um beijo leve na face e aperta-me num abraço, como se assenti-se e me fizesse perceber que estava ali a escutar-me.
- A Ana tinha 17 anos e nós tínhamos 10. Os meus pais saíram e deixaram-nos sozinhos, avisando a Ana de que ela tomaria conta de tudo e que confiariam nela. Como ela ainda estava na sua adolescência, aceitou, mas não com a intenção de os respeitar. ela ligou a televisão e avisou-nos de que sairia durante uns minutos e que voltaria, brevemente. Como crianças que éramos, óbvio que não ficamos quietos a ver televisão. Principalmente quando estávamos juntos. Fomos para o jardim, e entre uma brincadeira e outra, o Gonçalo decidiu subir a uma árvore, e no exato momento que os meus pais chegavam a casa, ele assustou-se com a buzina do carro, e caiu. Com isso, magoou-se na cabeça e teve de ser operado com urgência, fazendo com que só funcionasse metade do seu cérebro. Fiquei chocada com tudo aquilo a acontecer e só chorava abraçada a ele, só queria que ele abrisse os olhos naquele momento, afinal era a única pessoa que estava comigo, e naquele momento não o sentia. - Engoli em seco. - A minha irmã chegou no momento exato que a ambulância chegou, mas pelas traseiras. Disse ela que estava dentro de casa a arrumar a cozinha, e que nós tínhamos fugido sobre a sua visão, culpando-me a mim, dizendo que eu é que influenciava o meu irmão. Nas semanas que se passaram, cerca de três, o desporto do meu pai era socar-me. Batia-me como se fosse o meu castigo, perante o que acontecera.
O Nuno virou-me, fazendo com que eu ficasse frente a frente, enxugou-me uma lágrima que caiu e beijou-me levemente os lábios.
- Já passou, calma, princesa. Eu estou aqui.
- O problema é esse, Nuno. Não passou. Eles culpam-me por isso. E agora culpam-me por este acidente porque fui eu que ofereci a moto ao Gonçalo.
- O que aconteceu depois? Ele deixou de te bater porque fez-se homem o suficiente?
- Não. O meu irmão recuperou. Foi para casa, e como ele não queria que eu ficasse com ele, mandou-me para casa de uma tia minha, não se importando comigo, ao longo dos próximos anos. Simplesmente abandonou-me e eu tive de me virar sozinha. De uma forma ou de outra, agradeço-lhe, porque foi com a violência que hoje sou mais forte e sei lidar com as pessoas.
- Às vezes não é preciso lidar tanto. Queres ir dar um passeio matinal?
- De certeza que não queres descansar ao invés de me aturar?
- De maneira alguma. Vamos passear, vá!
- Vou vestir algo.
- Querida, o teu telemóvel.
- Sim, eu ouvi. Quem é?
- Não tens o número guardado.
- Podes atender?
***
- Estou?
- Quem fala? - Uma voz masculina do outro lado da linha.
- Isso pergunto eu. Com quem deseja falar?
- Esse número não é da Sofia?
- É sim, e não pode atender agora. Acha que isto são horas de se ligar a alguém?
- Cabe-me a mim decidir isso. E você é quem?
- Companheiro dela. E você?
Silêncio do outro lado.
- Sim?
- Não sou ninguém.
A chamada caiu. O Pedro pousou o telemóvel e sentiu um aperto no estômago, um nó sufocante na garganta. Desta vez sentiu que a perdeu...para sempre.
***
Saí da casa de banho, vestindo o casaco e dando ao Nuno, o dele.
- Quem era?
- Não sei, não se identificou.
- Que estranho... Ao menos disse o que queria?
- Não, queria falar mesmo contigo. Quando disse que era o teu companheiro, ele desligou.
Quando ele identificou o sexo da pessoa, percebi logo de quem se tratava.
Sorri, beijei-lhe os lábios e saímos.

Sem comentários:
Enviar um comentário