- Bom dia, princesa.
- Bom dia. Desculpa ter-te acordado.
- Não sejas tonta. Apesar do sonho ter sido bom, é melhor ainda acordar e perceber que afinal, ele é a minha realidade.
Corei um pouco e respondi-lhe com um sorriso. Ficar ali, a ver a sua cara de sono, o seu sorriso lindo e os seus olhos meigos e doces. Poder apreciar tudo isto pela manhã e ainda receber um beijo.
Às vezes, tentamos esquecer aquilo que nunca poderá ser apagado. Às vezes,
devemos olhar para frente e ver o que nos aguarda. Devíamos parar para pensar, e
ver que o fim de um relacionamento, tanto amoroso, profissional ou de amizade, não é o fim do mundo.
Desentendimentos, mágoas, tristezas. Enfim, isso acontece a qualquer um. É preciso ter coragem
para enfrentar tudo.Beijo-lhe levemente a bochecha e levanto-me.
- Onde vais?
- Vou à rua comprar qualquer coisa para fazer o nosso pequeno-almoço.
- Hum... está bem. Não demores.
Senti um aperto enorme no peito, cerca de um segundo. Achei estranho mas não liguei, vesti qualquer coisa e sai.
Como o super mercado ainda ficava longe, aproveitei para caminhar um pouco e assim, ligar ao meu irmão, a combinar um jantar de família.
Sem resposta.
Liguei então à minha irmã. Atendeu.
- Sim?
- Eh, feia! Como está a minha maninha?
- Simpática como sempre, hein? Estou bem, e tu, como andas?
- Neste momento, com os pés.
- Andas com piadas novas, muito bem...
- Uhm... passa-se algo? Ainda não me insultaste e isso não é normal.
- Se calhar neste momento não me apeteça ser normal.
- Estás parva? O que aconteceu?
- Nada.
- Ana, deixa de ser estúpida.
- O Gonçalo teve um acidente.
O meu mundo desmoronou-se. O aperto no peito, a chamada sem resposta. O meu irmão.
- Sofia?
Quase não ouvia.
- Estás aí?
Engoli em seco e quebrei o silêncio que começava a sufocar-me.
- O que aconteceu?
- Não sei ao certo. Mas foi um acidente de mota.
- Como e com quem? Onde ele está?
- Está no hospital.
- Os pais já sabem?
- Sim, já estão a caminho.
- Quê, e se eu não ligasse, não se dignavam sequer a pegar no raio do telemóvel e avisar-me? Trata-se do Gonçalo, porra!
- Eu sei! Por isso mesmo é que tinha de arranjar coragem. Por saber o quão próximos vocês são, tinha de planear isto e pensar nas palavras certas.
- Palavras certas? Num momento destes, não existem palavras certas. Existem as palavras exatas. E tu devias ter-me dito, na altura! Ou então logo no momento que eu tinha te ligado. Já vou para aí.
Desliguei o telemóvel e voltei para trás. Não tinha andado muito, mas era como se tivesse percorrido 2 quarteirões. Bati à porta e o Nuno abriu.
- Foste rápid... - Ele olha-me e interrompe a sua fala ao ver-me a chorar. - Sofia? O que aconteceu?
- Podes levar-me a casa? Preciso ir trocar de roupa.
- Sofia, fala comigo. O que te fizeram?
Não aguentei e abracei-o. Abracei-o como se não houvesse amanhã. Abracei-o como se naquele abraço recarregasse forças e na minha cabeça quase que rezei para que o meu irmão ficasse bem, para que não fosse grave.
Expliquei-lhe o que sucedera, pelo caminho. Ele ofereceu-se para me ir levar ao hospital e para me fazer companhia neste momento difícil.
- Foste rápid... - Ele olha-me e interrompe a sua fala ao ver-me a chorar. - Sofia? O que aconteceu?
- Podes levar-me a casa? Preciso ir trocar de roupa.
- Sofia, fala comigo. O que te fizeram?
Não aguentei e abracei-o. Abracei-o como se não houvesse amanhã. Abracei-o como se naquele abraço recarregasse forças e na minha cabeça quase que rezei para que o meu irmão ficasse bem, para que não fosse grave.
Expliquei-lhe o que sucedera, pelo caminho. Ele ofereceu-se para me ir levar ao hospital e para me fazer companhia neste momento difícil.
***
- Como é que ele está? Já disseram alguma coisa?
Sem resposta. Porque é que deixam-me assim nestes momentos? Porquê?
Os meus pais estão sentados, preocupados. A Ana está de pé a beber água. E pelos vistos ninguém me quer dar respostas.
Os meus pais estão sentados, preocupados. A Ana está de pé a beber água. E pelos vistos ninguém me quer dar respostas.
- Nem num momento destes vão deixar de ser orgulhosos? Ana?
- Ainda não sabemos de nada. - Ela responde-me e depois sussurra-me apontando com a cabeça para os meus pais. - Não os pressiones.
- Não os pressiono? Sabes o que estás a pedir-me? Estou farta de viver assim, farta de ser julgada e culpada por algo que não fiz. Achas que é fácil lidar com isto todos estes anos? E nem num momento destes eles dão o braço a torcer e fazem com que juntemos forças para que o Gonçalo recupere. Estarei aqui, dia e noite para o meu irmão. Sim, porque apesar de eles fazerem de tudo para me perderem como filha, eu não deixarei que percam mais um.
Virei costas e sentei-me no outro lado da sala à espera. O relógio anda, os ponteiros dão tantas voltas, que por momentos parecem parar. Ora o tempo pára, ora ele voa. Levanto-me e ando pela sala, ansiosa, curiosa, preocupada. Como ele estará? O Nuno levanta-se e vem ter comigo, envolvendo-me nos seus braços.
- Anda comer qualquer coisa. Estiveste aqui todo o dia e isso faz-te mal.
- Faz-me mal é não ter noticias. Não tenho fome, querido. Mas vai comer, tu, qualquer coisa.
- Eu vou, mas trago-te algo.
- Obrigada.
Ele sai e eu sento-me outra vez colocando a cabeça entre as minhas mãos. Penso em tudo e ao mesmo tempo, em nada. Essa espera, mais do que outra qualquer, está a matar-me.
O Nuno volta com uma sandes e uma água na mão.
-Toma, come.
- Só quero a água, obrigada.
- Eu disse, come. E não reclames, vá.
Assenti apenas com a cabeça, sem forças se quer para discutir. Enquanto comia, ele olhava-me. com um olhar tão terno, tão doce. Afastava-me o cabelo dos ombros, às vezes.
- És linda e vais conseguir ultrapassar isto. Aliás, o teu irmão vai. Afinal ele é o gémeo da mulher mais forte que eu conheço.
- Se eu fosse forte, não estaria neste momento sem força alguma.
- Exatamente por isso é que ele conseguirá. Estás a transmitir-lhe a tua força. E a minha, eu dou-ta a ti.
Sorri e abracei-o, novamente.
Neste momento alguém afinou a voz como se estivesse com tosse. Aproximou-me. Era alto, tinha cabelo branco e vestia uma bata branca.
- Desculpem, familiares do Shrº Gonçalo Bonito?
- Sim, sou irmã. Como ele está?
Ele agarrou-me no ombro, levou-me até aos meus pais e à minha irmã. A expressão dele preocupava-me. Sentou-me, olhou-me nos olhos, cerca de dois segundos. Dois segundos que pareceram uma eternidade. Aqueles olhos verdes, diziam tudo mas ao mesmo tempo, nada. Não conseguia decifrar absolutamente nada.
- Precisa ser operado...já.
- Mas é tão grave, assim?
- Se ele não fizer a operação, morre. Se ele fizer a operação, tem cerca de 23% de probabilidade de sobreviver.
- 23%? Isso é quase a mesma coisa que não ser operado. Quais são as chances que ele tem para estar incluído nestes 23%?
- Poucas...muito, poucas...
A frontalidade do médico para connosco, sobre este assunto, chocou-me. Mas ao mesmo tempo, percebi que não havia eufemismo possível para ser utilizado num caso destes. Principalmente quando estávamos todos nervosos, para saber resultados.
O médico chamou-me para ir tratar de uns papéis. Agora, só nos faltava rezar e esperar que tudo corresse bem.
- Estás feliz?
- Desculpe? - disse-lhe.
- Desculpe? - disse-lhe.
- Perguntei se estás feliz! Mais uma vez, é graças a ti que isto está a acontecer.
- Graças a mim? Estão a culpar-me novamente? Eu tinha 10 anos. Era uma criança, qual é a parte que não entendem? E o que tem isso a ver com o acidente?
Eles olham-me com desprezo e vão embora. Volto a ficar sem respostas. Olho para o Nuno e no olhar dele consigo decifrar um pouco de confusão e ao mesmo tempo compreensão.
- Vamos descansar, um pouco? - Diz-me ele, esticando a mão, a pedir a minha.
- Podes ir. Eu quero ficar.
- Não. Ou vamos ou ficamos. Nunca separados.
Sorrio e dou-lhe a minha mão. Saímos do hospital.
- Descansamos e depois voltamos. Prometo, princesa.


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