sábado, 15 de dezembro de 2012

Parte # 17


Já se passaram alguns dias e o ambiente em casa é do pior! O Nuno anda distante e não, não é da minha cabeça. Ele passa os dias a trabalhar e em reuniões e quando está em casa, fecha-se no escritório. Parece que arranja desculpas para não estar comigo. Como agora, ele está no escritório a “fingir” que trabalha. Abro a porta.
- Desculpa mas estamos à dias nisto e não suporto mais. Parecemos dois estranhos numa casa minúscula. Se já não sentes o mesmo por mim, compreendo. Por isso, diz de uma vez e acaba com isto.
- Isto o quê?
- Não te faças de estúpido, é coisa que tu não és. “Isto”, essa estranheza um do outro, estes impasses. “isto”, relacionamento.
- Estás doida? Eu…ah..
- Tu?
-  Eu, a..amo-te. Só estamos a passar uma fase má. Vem cá.
Ele puxa-me e abraça-me, penso em como lhe custou dizer aquele “amo-te”. Mas esqueço isso e deixo-me levar. Será mesmo que estava a ser sincero? Não me pareceu, mas espero que sim.
- Só não quero que estejas neste relacionamento para não me sentir mal. É obvio que me vou magoar e sofrer, mas entendo, acima de tudo, ponho-me no teu lugar e entendo.
- Cala-te, tonta.
Ele abraçou-me mais uma vez e não falamos mais nesse dia. Nem mais uma palavra. Eu saí e disse-lhe que iria voltar mais tarde. Não lhe disse para onde ia, porque nem eu sei. Quero apenas andar, apanhar ar. Hoje está um dia bom para isso, igual ao meu estado de espírito: Nublado, escuro, e prestes a chover. Tenho vestido umas calças beges, uma camisola de lã e um casaco vermelho, mas mesmo assim o frio teima em ser mais forte. A minha cabeça está longe. Tão longe que nem me apercebo que já andei bastante. Estou por cima da ponte, e que vista linda. Olho por cima da cidade e quase que “vejo” cada história, cada discussão, cada noticia boa em cada casa, em cada casal que passa na rua. Olho para o horizonte. Quem me dera não ter tantas coisas a preencher-me a cabeça. Naquele momento só gostava de estar a apreciar o por do sol com ele. Abraçada a ele para que o frio se tornasse escasso em comparação com o nosso amor presente num abraço, num beijo, numa simples presença. Porque é que as coisas têm de ser assim? E por incrível que pareça, apetece-me chorar. Com todas as coisas que se passaram na minha vida, aprendi a ser forte e a nunca chorar num mau momento, apenas lembrar sempre os lados bons e seguir em frente. Mas há momentos que estamos tão em baixo, que não vemos nenhum lado bom. E quando isso acontece, explodimos. E as pessoas têm diferentes maneiras de explodir – Ou riem, ou choram, ou suicidam-se, ou simplesmente, seguem em frente de cabeça erguida. Eu? Eu rio e choro simultaneamente; suicido-me várias vezes ao dia, psicologicamente; e sigo em frente de cabeça erguida, mesmo não tendo caminho para seguir.
Ligo à Laura para saber se ela pode vir tomar um café comigo, depois  de combinarmos o sitio, desliguei a chamada e mandei rapidamente uma mensagem ao Nuno:
“Ao ver o por do sol, só desejo ter-te aqui. Era tão bom sentir o teu abraço a minimizar o frio que sinto. Era tão bom…tudo. Amo-te.
S. “
Visto ele estar de folga, e ter tempo, deduzi que ele fosse rápido a responder, mas não foi esse o caso.
Quando cheguei, a Laura ainda não tinha chegado, o costume.
Olhei à minha volta. O ambiente estava mesmo perfeito, estava quente, mas não muito abafado, cheirava a café acabado de fazer e não havia muitas pessoas.
No balcão tinha um casal já idoso, olhavam um para o outro com ar tão apaixonado. É lindo isso, quando o amor é verdadeiro que ultrapassa tudo, incluindo o tempo. Quando existe amizade, companheirismo, respeito, lealdade, por cima de tudo e todos.
 Aproximei-me e pedi um batido de morango. O empregado disse-me que podia ir me sentar enquanto esperava pelo pedido. Sentei-me e tirei da mala um bloco de notas. Enquanto rabiscava, o empregado chega com um batido e um guardanapo por baixo do mesmo. Tinha algo escrito no guardanapo mas por causa do vapor do batido, molhou o papel e só se lia «, outra vez. Acredita.»
Olhei à minha volta e não vi ninguém conhecido, olhei para o empregado e tentei perceber se o conhecia, mas não.
- Olhe, desculpe, deu-me este guardanapo com algo escrito, foi um lapso ou era mesmo para mim?
 - Sim, era. Foi aquele Senhor que mandou entregar. - Ele apontou para o vazio. - Ele estava ali sentado, juro. Até pagou o seu batido.
- E sabe o nome?
- Não, não o conheço. Desculpe.
- Tudo bem, obrigado.

Quem será esse simpático ser que oferece batidos. Por favor, que não seja mais um "Nuno" que se interessou por mim. Por favor, por favor. Dou por mim a falar sozinha no meio da rua. Olho em redor e suspiro por ninguém estar perto e me chamar de maluca. Fui embora porque a Laura não apareceu e não me atende as chamadas.
Uma noite, duas horas, tudo muito estranho...

domingo, 18 de novembro de 2012

Parte # 16

Estou a chegar ao escritório e recebo uma chamada. Mas que raio, não podiam esperar mais um pouco? Entrei no elevador e tenho as mãos super ocupadas. O toque desliga-se, quando pousar as coisas, retorno a chamada. Pip. Entra o meu chefe.

- Bom dia, Sofy.
- Bom dia, boss. Alguma novidade sobre quem vai substituir o Francisco e ser meu "parceiro"?
- Claro que sim. Hoje, se tudo correr bem, vais conhecê-lo.
- "Lo"? Então é um homem...
- Claro. Achas que ia por duas mulheres a trabalharem juntas? Não é que eu não gostasse, mas...

Sim, era mesmo ele que não havia de gostar. Fiquei super curiosa por conhecer o meu novo colega e saber do que ele é capaz de fazer em trabalho.
A porta abre-se, saio do elevador e na minha secretária pouso o monte de papelada que me ocupava as mãos.
Sento-me e ligo o computador, entrando, em mais um dia stressante.
Esqueci-me de retornar a tal chamada, mas para terem ligado só uma vez, sem insistir é porque não era importante.

***
Hora de almoço. Hiberno o computador e pego na minha mala dirigindo-me à porta de saida. O telemóvel toca e aí lembro-me da tal chamada que havia recebido anteriormente.
- Sim?
- Miss Bonito? Gostaria de saber porque raio não atende as minhas chamadas, fazendo com que eu venha ao seu local de trabalho pessoalmente convidá-la para jantar.
- Ora bem, não atendi A chamada e não AS chamadas, ponto número um. Ponto número dois, como disse,  Menino Filipe, estou a trabalhar e não pude atender no momento. E verdade seja dita, prefiro mil vezes que venhas ter comigo do que falar-mos por chamada. Ponto número três: Tu gostas de vir ter comigo, porque caso contrário, terias insistido na chamada.
- Ahhh! Pronto, apanhaste-me.
- Como de costume. Então queres almoçar?
- Por isso é que aqui estou.
- Aqui?
- Sim, mesmo atrás de ti.
Olho para trás e lá estava ele. O meu maninho. Abraço-o apertadamente, quase esmagando-o.
Digirimo-nos a um restaurante ali perto.
- Então como vão as coisas com o teu príncipe encantado?
- Continuo encantada, mas ele já foi mais encantado.
- Como assim?
Contei-lhe toda a história, não falhando nenhum pormenor, porque o Filipe é muito cusco.
- Porque não lhe confrontas e perguntas diretamente se ele tem outra?
- Achas? E se não tiver, vou fazer papel de otária.
- Mas pelo menos, ficas a saber a verdade e mais descansada.
- E achas tu que se ele me estiver a trair, contar-me-á? Nem se eu o embebedar.
- Mas lá que o comportamento dele é estranho, lá isso, é.
- Pois, a ver vamos.
Bip Bip. Tem 1 nova mensagem recebida.
"Estou à tua espera para almoçarmos. No sitio do costume.
Beijos,
N."
Viro o ecrã para o Filipe e mostro-lhe a mensagem.
- Então, ias almoçar com ele? Podias ter dito, não levava a mal se recusasses o meu convite.
- Não entendeste. Se eu aceitei o teu convite, é porque não tinha nada combinado. Nada mesmo.
- De certeza? Olha que podes ter-te esquecido.
- Filipe, tu conheces-me. Sabes como sou exageradamente organizada com tudo.
- Lá isso é verdade. Responde-lhe, não tens nada a perder, se for engano, ele é que se enganou, não tu.
- Pois...mas eu sei que foi engano, por isso tenho medo da resposta.
O filipe faz um sorriso meio triste mas ao mesmo tempo transmitindo-me força.
Responder.
"E o sitio do costume seria qual? Não me lembro de termos combinado algo."
Resposta imediata.
"Uh. A mensagem não era para ti, era para a minha assistente. Sabes como é, almoço de negócios."
Responder.
"Claro que sei. Principalmente depois da mensagem de "negócios" acabar em «beijos». Bom almoço.
Se ele queria esconder algum tipo de amante, ao menos que fosse mais inteligente. A sério, os homens têm de ser, na geralidade, o sexo mais fraco? Que nervos!
Saímos do restaurante, o Filipe leva-me ao trabalho, na despedida ele abraça-me e deseja-me imensa força.
- Claro e preciso! Vou conhecer agora o meu novo colega.
- Não lhe dês com o teu mau-humor, coitado!
- Qual mau-humor? Sou tão simpática!
Ele dá-me um beijo na testa e afasta-se.
Entro no escritório e na receção estava o chefe com um sujeito virado de costas, devia ser o meu colega.
- Boa tarde.
- Boa tarde, Sofia. Ainda bem que chegaste. Apresento-te o teu novo colega.
Ele vira-se cuidadosamente, estou em pulgas para saber quem é e como é. Parece ser em camera lenta, com tanto suspense e a minha ansiedade à flôr da pele. Tal não é o meu espanto quando ele se volta, e ao mesmo tempo o meu chefe diz o seu nome. Não pode. Sinto as minhas pernas a tremer, a qualquer momento caio.

- Pedro Silva.

Porque carga de água, com tanto homem no mundo, ele tinha de contratar o meu ex-namorado?
Educadamente aperto-lhe a mão.

- Prazer.
 Ele aperta a mão, aproxima-se de mim e sussurra-me ao ouvido:
"O prazer é meu. Estás mais bonita desde a última vez que te vi."

Se desde o momento que o vi ali, irritei-me, agora, devia estar a fumegar pelas orelhas.
Empurrei-o, afastando-o de mim e disse:

- Não o voltes a fazer. Se isso vai ser assim, ter-te como colega, então faz para que resulte, caso contrário não sais vivo daqui. Não quero toques, conversas paralelas a não ser sobre trabalho, estamos entendidos?
- Sim, senhora.

Ultrapasso-os, e passando pelo meu chefe digo:

- Preferia ter três mulheres a dar em cima de mim, no escritório, do que trabalhar com esse sujeito. Má escolha.

Entro no elevador. O meu chefe chega-se perto do Pedro e diz-lhe:
- Nunca a vi assim, já se conheciam?
- Não viu que sim? Melhor do que julga.

O Pedro afasta-se e entra no elevador. O meu chefe sai do escritório abanando a cabeça:

"Isto vai ser divertido."

domingo, 11 de novembro de 2012

Parte # 15

Acordei de repente, eram 2:00 a.m. O Nuno ainda não tinha chegado, estranhei porque os seus jantares e/ou saídas de trabalho não costumam demorar tanto, e quando demoram, ele avisa-me, sempre. Vi se tinha alguma chamada ou mensagem no telemóvel. 1 mensagem não lida. Suspirei de alivio, afinal ele avisou.

"Contacte com os seus amigos, em qualquer lugar. Por apenas 3,30€ por mês, aceda ao facebook através do seu telemóvel. Para mais informações visite o nosso site: blablabla@operadora.da.treta.pt"

Afinal ele não avisou. Levantei-me e fui à cozinha beber àgua. Não acendi as luzes porque era escusado gastar eletricidade quando a lua estava cheia e brilhante nessa madrugada, e aclarava a casa.
Senti a porta a abrir. Seria um ladrão? Caso fosse o que era susposto fazer? Não tinha nenhuma frigideira à mão, e duvido que a vassoura pudesse adiantar alguma coisa...
Fiz STOP nos meus pensamentos quando, pela silhueta, vi que era o Nuno. Ele entrou sorrateiramente, quase em bicos dos pés para que, ninguém o sentisse a entrar, e como só vivíamos ali os dois, ele não queria que eu o visse a entrar àquela hora. Como uma criança que fez alguma asneira e sem que os pais percebessem, esquiva-se para o quarto para dar a entender que nunca saiu de lá. Mas o Nuno não é nenhuma criança, e pelo que que sei, até agora, ele não tinha feito nenhuma asneira. Se calhar sou eu a criar "bichos papões" na minha cabeça, talvez ele só não me queira acordar.
Ele fecha a porta cuidadosamente.

- Bom dia. - Digo eu, quebrando o silêncio da escuridão e acendendo a luz.

Ele salta e pela sua expressão, por pouco não lhe saltou o coração pela boca. Não, o seu cuidado para não fazer barulho, não foi para não me acordar. Ele assustou-se realmente como quem foi apanhado com a "mão na massa".

- Am-mor! Que su-susto! Não te queria acordar.
- Pois claro. Mas não te preocupes que não me acordaste. O jantar correu bem?
- Uh, pois o jantar, sim correu bem.
- Ainda bem! Porque tinhas-me falado de uma reunião mas não incluíste que seria um jantar.
- Não? Que estranho, julguei mesmo ter falado.
- Pois, mas para ter durado até agora é porque foi bem sucedido.
- Uh, pois. Olha trouxe-te uma tarte de nozes.
- Ah... Sabias que de tanta coisa existente no mundo, sou alérgica a só uma?

Ele olha para mim e depois para a tarte.

- Pois, és alérgica a nozes.
- E tu, sabia-lo.
- Desculpa.

Viro costas e dirijo-me ao quarto.

- Apaga a luz quando te fores deitar.

Ele sabia à muito tempo que eu sou alérgica a nozes. E com tanto tipo de tarte, trouxe logo essa. E pior, quando alguém dá um "presente", a uma hora destas, depois de estar com ar de quem fez asneira, não é só pelo presente em si, mas sim por fazer um pedido de desculpas sem que a outra pessoa perceba. Mas eu percebo, e o pior é que adoro fazer-me passar por idiota para ver até que ponto ele é capaz de ir.

Sinto-o a apagar a luz e a entrar no quarto, fecho os olhos e finjo estar a dormir. consigo perceber que ele ajoelha-se na cama e debruça-se sobre mim para ver se já durmo. Ele volta a por-se de pé e digita qualquer coisa no telemóvel, segundos depois recebe a resposta, sorri e pousa o telemóvel em cima do móvel e deita-se.

sábado, 15 de setembro de 2012

Parte # 14

Numa noite, recebi uma chamada do Gonçalo. Estivemos algumas horas à conversa, e entre uma ou outra coisa dita, ele já recuperou e convidou-me a mim e ao Nuno a irmos a um jantar em sua casa, no dia seguinte. Não lhe dei uma resposta fixa, pois nesse jantar os meus pais também estariam presentes. Ele insistiu:

- Vá-la, não sejas chata!
- Se sou chata tu também o és!
- Fogo, isto é uma treta! Nunca te posso ofender porque somos gemeos e assim estaria a ofender-me a mim também. Ah vida cruel!
- Não mudes de assunto. Eu não vou. Sabes perfeitamente que eu e os pais não podemos estar, se quer, a 10 quilómetros de distância.
- Pensa em como esse jantar pode servir para dares o braço a torcer.
- Já chega, Gonçalo! Não vou. Além disso não sou eu que tenho de dar o braço a torcer, são eles. Desde pequena fui excluída pela família e até hoje, não percebi o porquê. As coisas pioraram quando caíste daquela maldita árvore e eu fui culpada injustamente. E agora aconteceu uma espécie de dejavú com o teu acidente de moto. Juro, que à uns anos pensei em tudo o que pudesse ter feito para ser uma má filha e não cheguei a lugar algum. Foi então que me passou pela cabeça a adoção. Mas isso não faria sentido, porque se eu tivesse sido adotada, tu também foste. E eles adoram-te.
- Realmente, é estranho... Vou falar com eles.
- Não, não vais.
- Ah pois vou.
- Não!
- Sim!
- Não!

E ficamos nisto, metade da noite.

- Sim!
- Não! A sério que me chateio contigo.
- Não consegues. És doida por mim.
- Argh! Odeio-te.
- Também não consegues. Tu amas-me, maninha!
- Ok, eu vou!

Arrependi-me de ter dado uma resposta afirmativa, ainda antes de tê-la pronunciado.
Consegui ouvir o riso dele.

- Mas que fique bem claro que vou, porque gosto de ti e quero fazer-te a vontade e deixar-te feliz com a minha presença. Mas a mínima provocação, e vou embora, no exato momento.
- Ok. Traz o teu namorado para o conhecer, sim?
- Vou tentar. Beijo, cuida-te.
- Tu também, linda. Beijo na testa.

A campainha tocou, devia ser o Nuno.
Abri e era o Francisco.

- Olá, que surpresa agradável e um pouco duvidosa...
- Olá. Precisamos conversar.
- Uhm... entra. Queres beber alguma coisa?
- Estou bem obrigada.
- Fica à vontade. Vou fazer café.

Saí da sala e dirigi-me à cozinha. Tirei do armário uma chávena e comecei a fazer o café.

- De certeza que não queres tomar nada?
- Posso fazer-te companhia no café, já que insistes...

Saí da cozinha enquanto o café ficava a fazer. Sentei-me com ele na sala.

- Pareces-me preocupado...
- Não é preocupação. Eu vou demitir-me.
- Por alma de quem?
- Pela minha. A Matilde está com uma gravidez de risco e temos de ir para outro hospital, conversamos e decidimos mudar-nos também.
- Bem, se é pelo vosso bem, apoio-vos a 110%! Mas... quem te vai substituir?
- Ainda não sei, o chefe diz que está à procura de uma pessoa.
- Tudo há-de se resolver.

Saí da sala e fui buscar o café, dividi pelas chávenas e entreguei-lho.
Ficamos um pouco a conversar até que a campainha tocou.

- Deve ser o Nuno.
- Bem, aproveito e saio, já se faz tarde.

Abri a porta e o Nuno entrou, cumprimentou o Francisco, enquanto este saia.

- Gostei desta pequena conversa. Obrigada por me teres vindo dizer isto pessoalmente.- Abraceio-o - Desejo-te tudo de bom!
- Obrigada. A ti também.

Fechei a porta. Levantei da mesa da sala as chávenas e fui à cozinha preparar o jantar.

- Nuno, alguma preferência para o jantar?
- Não vou jantar contigo hoje.

A resposta foi seca, fria e completamente direta. Achei-o estranho...
Fui ter com ele à casa de banho e vi-o a arranjar-se para sair.

- Uhm... passou-se algo?
- Não.
- Algum stress do trabalho?
- Não.
- Queres falar?
- Já não o estamos a fazer? Para quê o interrogatório?
- Desculpa. Só estou preocupada.
- Preocupa-te menos.

Ele tinha dito tudo. Voltei à cozinha e lavei a loiça. Desliguei o fogão, perdi a vontade de fazer o jantar. Fui para o quarto, escolhi a roupa de dormir e pu-la em cima da cadeira. Deitei-me na cama a ler enquanto esperava que a casa de banho ficasse livre para ir tomar banho.
Meia-hora depois ele saiu da casa de banho, aproximou-se de mim e sentou-se ao meu lado. Não desviei os olhos do livro, onde já não estava a tenta, mas fingia estar. Ele pegou no livro, pousou-o e abraçou-me:

- Desculpa, desculpa, desculpa milhões de vezes!
- As desculpas não se pedem. Evitam-se.
- Mas quando nos é difícil evitar, pedem-se! Foi o stress do trabalho. Hoje tinha preparado uma surpresa para o nosso serão e convocaram uma reunião de urgencia. Desculpas-me?
- Sim.
- Já sei! Vens comigo à reunião!
- Não, não vou.
- Porquê?
- Porque se fosse possível eu ir, tinhas dito desde o inicio.
- Vais ficar sozinha?
- Não te preocupes comigo, eu ficarei bem. Boa reunião.

Ele deu-me um beijo e saiu. Se estou a ser injusta? Não. Sou excessivamente desconfiada. Não tenho culpa.  Os homens fizeram-me ficar assim. E o Nuno estava estranho... Muito estranho. Se ele quisesse que eu fosse à tal reunião teria insistido mais, não? Ou estarei eu a fazer uma tempestade num copo de água? Não sei. O que sei é que a estranheza dele não justifica o seu comportamento. Ou justifica?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Parte # 13

O Pedro estava deitado. Pensava em tudo e ao mesmo tempo, em nada. Olhou à volta e por momentos voltou a viver os momentos com ela. Os beijos dela de bom dia, o pequeno almoço preparado por ela, o quão estúpido era e ela sempre esteve do seu lado. Levantou-se e foi lavar a cara. Até a falta da escova de dentes dela, na casa de banho, fazia-lhe falta. Ele andou pela casa, procurou pelo mais pequeno objeto que ela pudesse ter esquecido. Mas nada. Voltou à sala e deitou-se. Fechou os olhos e voltou a sonhar com tudo o que teve na sua realidade e que por sua culpa, agora não passa de um sonho perdido. Lembrou-se de como ela gostava de ler. Abriu os olhos e olhou para a estante. «Talvez esqueceu-se de algum livro, poderia ir devolver-lhe.» Pensou. 
Viu um livro muito estranho, pegou-o e leu o titulo. 
"Diário da Sofia. Não um diário banal, um diário completamente triste e muito sentimentalista."
Sabia que não devia abri-lo, era dela, era a sua vida, eram os seus pensamentos, mas ao mesmo tempo, sabia que ela não gostava dessas coisas e ficou curioso. Não resistiu e abriu-o.

"Não sei como começar isto. Talvez por nunca ter tido um diário nem perceber porque raio precisam as pessoas de um, ou porque eu nunca senti necessidade de ter. Porque comecei? Porque preciso desabafar, escrever... Preciso contar a "alguém" tudo o que sinto, tudo o que preciso sentir. Por falar em sentir...Um dos sentimentos que mais admiro no mundo é a credibilidade. Não sei quanto ao resto das pessoas, mas por experiência digo que quando alguém me transmite credibilidade, com ela trás-me confiança, respeito e mais meia dúzia de sentimentos bons. Existe alguma relação que se mantenha se não existirem estas palavras-chave como base? Não esqueças da palavra... CREDIBILIDADE. Às vezes magoas-me tanto. As tuas atitudes fazem-me duvidar de tudo o que construímos juntos até agora. Fazem com que eu duvide do teu amor por mim. Fazem-me pensar se valerá mesmo a pena ou não seguir um caminho contigo. E tenho tanto medo. Medo que deixe de dar certo, porque apesar dos meus planos de vida não serem muitos, o teu nome está escrito em cada um deles. Mas mesmo que certas coisas me custem muito, nada me custa mais que ver-te triste. Mesmo que a minha dor nesse momento me devore a alma, tratar de ti é sempre o melhor remédio. E espero sinceramente que tomes melhor conta de mim, porque se há coisa que eu não quero perder  é esta vontade de querer a minha vida ao teu lado. Por isso fala quando tiveres algo para dizer. Grita quando tiveres de gritar. Partilha comigo os teus medos. Não tenhas medo de dizer o que sentes. E pensa antes de falar... porque as palavras também magoam. Porque se há coisa que não quero é perder-te. É perder-nos."

«Ela não queria e eu sempre lutei... não por ela, mas pelo nosso "fim".» Pensou ele.
As lágrimas vieram-lhe aos olhos quando começou a pensar em tudo. Quando voltou a uns dias atrás e percebeu o quão estúpido e monstruoso foi. Percebeu que tinha perdido, a única pessoa, que demonstrou interesse e preocupação por ele. Porque apesar de haver muitas mulheres no mundo, em geral, podem querer só sexo, mas nem todas querem companheirismo. E ela queria. E sempre que ele estava triste, deprimido, quando não tinha tido o que queria na noite anterior, ela estava "lá". Ela sofria com ele se fosse preciso. Porque ela amava-o. Mesmo que ele não se importasse com isso, o bem-estar dele era o mais importante. Mas ela fartou-se que o bem-estar dele contribuísse para o seu mal-estar. 
«Acabou.» Era a única palavra que lhe passava pela cabeça.
Apesar de saber que cada página que virava, eram cada vez piores, que ela sofrera demasiado e que agora ele estava a sofrer em dobro tudo, continuou a ler...a sofrer... Porque merece. Ele sabe-o.

"Lembras-te o que disse sobre credibilidade? Pois... O pior é mesmo quando a perdemos. Porque perdemos tudo. Perdemos a confiança, a estabilidade, a segurança, o respeito. Para mim perdeste toda a credibilidade quando demonstraste ser uma pessoa diferente daquela que conheci. Perdeste o valor, perdeste o que te dava, perdeste o sentimento que tinha por ti, e a predisposição para fazer tudo o que te fizesse feliz, perdeste-te a ti e conseguiste perder-me a mim também. E culpa-te! Porque o único culpado aqui és tu. E sabes? Já nem pena consigo sentir. Foste tu que escolheste este caminho, és tu que continuas a achar que enquanto seguires por ele não tens problemas e, consequentemente, és feliz. Mas não és! Porque felicidade é muito mais do que isso e sei que vais perceber, um dia desses. Mas também sei que quando perceberes, será tarde demais.  Até lá, continua a contentar-te com migalhas."


Migalhas...era exatamente isso que ele tinha agora...migalhas. E ainda assim, já era bastante em comparação com o que ele merecia. 
As próximas páginas seguiram-se de dor da parte dela e de nostalgia, da dele. Como é possível ele nunca ter percebido isso? Na verdade, nunca estava tempo suficiente com ela para saber. Nunca lhe perguntava se estava bem, e se a resposta fosse negativa, não se interessava minimamente por saber o porquê. Ele estava-se nas tintas e agora percebe o quão burro foi.

"Fartei-me e com isto começo a fartar-me de estar a escrever sobre a minha desilusão por tua causa, estou farta que tu sejas sempre a base de tudo o que faço. Era preciso tão pouco para eu ficar contigo sem pedir mais nada. Só precisavas ser tu próprio, porque tu, vales muito mais do que isso que demonstras ser. Perdeste-me a mim sem sequer te aperceberes que te escapei por entre os dedos. No dia em que decidires entrar na realidade, perceberás que estás sozinho, que nenhuma das tuas "amiguinhas pegas" te darão aquilo que te dei. Nesse dia, não estarei ao teu lado para te mostrar o caminho certo, mas estarei nele para te atirar à cara que quem não quis vir comigo, foste tu e agora não há nada que possas fazer para voltar atrás. Já voltei várias vezes, achando que valia a pena, mas não valeu. Nenhuma das vezes!
Durante mais quanto tempo da tua vida vais esperar que as coisas te caiam aos pés sem teres de fazer nada por isso? Já reparaste que sempre foi assim? Sempre vieste com a mesma desculpa de - dar tempo ao tempo - ou de - deixar tudo acontecer com calma - mas a verdade é que tu nunca fazes para que aconteça.

Vives como se já tivesses vivido a vida toda e ao mesmo tempo, como se estivesses a vivê-la ainda desde o principio. Nunca lutas. Nunca gritas. Nunca enlouqueces. E isso destroi-me. Destroi-me que vivas de esperas.. E não te mexas. E o que me disseste ontem. O que tu me disseste ontem... não me sai da cabeça. E o que eu mais queria agora.. é que tu me saisses da cabeça... da alma, do coração. Sai!"

Ele não se lembra exatamente o que lhe tinha dito naquele "ontem", mas queria lembrar-se. Queria mesmo.
De repente, lembrou-se, outra vez, da discussão. Ele disse-lhe coisas horríveis, entre elas, insultos macábros, acabados num estalo. Isso tudo passou-se depois de uma festa. Na altura, uma grande festa.
Ela estava no quarto, ele convidou alguns amigos e amigas a irem a sua casa, porque ia dar uma festa. Sim, sem a consultar. Naquele dia começaram a aparecer pessoas que nem ele conhecia: Amigos dos amigos, dos convidados. A festa descontrolou-se, ele sabia-o, mas mesmo assim só queria "curtir".

"Estou sentada no meu quarto em frente à secretária. E de repente oiço a tua voz lá em baixo. Dizes olá a todos, e ficas na conversa. Já passaram uns 30 minutos desde que chegaste, será que já sentiste a minha falta? Ou será que os 20 degraus que nos separam são demais, e não tens vontade de subi-los? Eu não os vou descer. Não vou ter contigo, porque estou farta de correr atrás de ti quando a obrigação deveria ser tua. Mas apetecia-me ter a coragem de me levantar daqui, ir ter contigo, olhar-te nos olhos e perguntar-te porquê, Pedro? Porque é que tu tens de ser mais uma desilusão na minha vida? Porquê que não dás valor à tua familia? Porque é que não soubeste manter a nossa casa ''em pé'' ? Porque é que não soubeste lutar por nós nem um bocadinho  Porquê, Pedro? Porque é que preferes a solidão, ou a companhia de uma puta, em vez de te teres agarrado ao calor da nossa casa, ou ao amor da tua mulher?  Porque é que te afastas de quem te quer perto? Porquê ? Eram estas as perguntas que tinha guardadas para ti, mas não consigo. Porque te amo tanto... ainda que seja menos do que um dia já amei. "

Agora ele lembra-se de tudo. Apetece-lhe cometer a maior loucura de sempre e "jogar" com a sua vida. Mas sabe que isso não mudaria nada, que o culpado foi ele e apesar de saber que era o que merecia, sabe também, que ela está feliz agora. Mais do que alguma vez esteve com ele.

"Decidi que hoje era a última vez que escrevo para ti e sobre ti. A minha vida começa oficialmente a mudar. Não existe lugar onde eu mais queira estar do que no teu caminho. Mas esse não é o caminho certo, e é isso que eu preciso de procurar. Daqui para a frente declaro independência de ti e de tudo o que te dei nestes últimos meses. Espero que encontres o rumo certo, mesmo que ele não passe por mim. É que não sei se alguma vez te deste conta, mas o que eu quero e sempre quis, é o melhor para ti, independentemente de isso me incluir ou não. Até qualquer dia, Pedro. Vou em busca da minha felicidade, porque sei que ela também me procura."

Pelos vistos ultrapassou a procura, pois ela encontrou-a. Ambas se encontraram e nenhuma o incluia. Outrora, fora feliz porque sabia que depois da sua diversão, chegaria a casa e tinha uma mulher disposta a amá-lo. Agora, não tem a felicidade nem a mulher. E o que mais lhe doi é que ela tem as duas coisas, por culpa dele. Porque ela é feliz com outro alguém, que não ele. Mas se ele não fosse parvo, estúpido e todos-os-insultos-imagináveis-existentes-e-não-existentes, ela estaria feliz, com ele.
Será que vale mesmo a pena lutar por algo que ele deixou morrer e que ela aniquilou aos poucos?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Parte # 12

Bip Bip. Tem uma mensagem nova.
Estava com o Nuno a passear pelo jardim. Está uma pouco frio apesar de já se fazer notar a presença do verão. Estou com as mãos na algibeira do casaco, para que aqueçam um pouco, mas é em vão. Está frio e apenas o calor do abraço do Nuno consegue me manter na temperatura normal. 
O jardim é bastante calmo. Alguns bancos brancos e castanhos distribuídos pelo espaço, várias árvores e várias espécies de flores, que nem eu sabia da sua existência. O dia parece-me, à primeira vista, que será aborrecido.

- Recebeste uma mensagem. - Diz-me o Nuno.
- Eu sei. Não me apetece ver.
- Mas pode ser sobre o Gonçalo.
- Sim, tens razão.

Pego no telemóvel e abro a mensagem ansiosa. Paro e leio.

"Hoje lembrei-me de ti. Hoje, ontem, antes de ontem...amanhã. É difícil esquecer alguém como tu.
Mesmo que nunca to tivesse demonstrado e dito. Amo-te."

Fiquei em choque e olho para a mensagem seguidamente do numero não listado no meu telemóvel.

- Sofia? O que se passa?
- Uh... Sabes aquele número que me ligou antes de sairmos de casa?
- Sim, o telefonema estranho...
- Exato. - Estico o braço e entrego-lhe o telemóvel. - Lê.

Ele segura o telemóvel, lê e olha para mim.

- É o meu ex. Não falamos à meses e ele agora lembrou-se que eu existo. E agora só está a ver o meu valor, quando já não me pode valorizar.
- Devo ficar preocupado?
- Não, claro que não! - Abraço-o. - Estou contigo e é contigo que quero estar. Ele perdeu a sua oportunidade e não a soube aproveitar. Tu "curaste-me" daquilo que sentia e felizmente me fizeste abrir os olhos e perceber que posso ser feliz e que os homens não são todos iguais.

Ele abraça-me com mais força.
- Não te quero perder, Sofia. Tornaste-te muito especial.
- Não me vais perder. Aliás eu não sou de desistir das pessoas quando sei que elas valem a pena.

Apaguei a mensagem e guardei o telemóvel no bolso.

- Vamos ver se o Gonçalo acordou? - Pergunto.
- Sim, bebericamos um café pelo caminho.

Chegamos ao hospital. Odeio bastante o cheiro a medicamentos, o cheiro a idosos a sofrer com as dores, e o sofrimento dos seus familiares sabendo que não restarão muitos mais dias de vida, o cheiro a crianças com doenças graves e sem cura. Odeio o hospital. Odeio saber o motivo de estar ali. Gonçalo. Terá ele acordado e perguntado por mim? Terá ele perdido a memória e não se lembrar de nada? Não se lembrar da sua irmã gémea e do quão próximos somos? Será que acordou e, tal como os meus pais, odeia-me?
Tiro todos esses pensamentos da minha cabeça e tento pensar positivo.
Entro no quarto e ele continua deitado, sem movimentar-se. Sem um único sinal de vida.
Os meus olhos enchem-se de lágrimas e não consigo controlar-me. Abraço-o, desesperadamente. Dava tudo para ser eu naquele lugar. Para ter sofrido o acidente e estar ali, quase sem vida.
O Nuno segura-me e senta-me na cadeira ao lado da cama.

- Calma, querida. Não o sufoques. Dá-lhe tempo. Ele está bem, tens problemas para resolver e entretanto ele acordará.
- O que és tu, um psicólogo frustrado? - Atirei-lhe eu, com os nervos. - Sou uma mulher adulta, não preciso que um homem que faz os seus joguinhos de engate num café, me venha dizer que tenho problemas.
- Não tenho a mínima intenção de engatar miúdas. Tu chamaste-me a atenção e isso não foi um engate. Foi apenas a curiosidade de te conhecer. Não tentes magoar-me para esconderes a tua dor e o teu sofrimento.
- Que raio de lata! - Levantei-me e simultaneamente levantei a voz. - Apareces na minha vida sem ser convidado, partilho coisas contigo que nunca partilhei com ninguém, falo-te na minha infância e tu vês-te no direito de te meteres em tudo o que me diz respeito?
- Só não saio porta fora porque sei que estás nervosa com toda a pressão que tens sobre ti. Por favor, Sofia, não me magoes com as palavras, porque se eu for embora, não volto atrás.

Olhei para ele e lembrei-me de toda essa conversa, do quão injusta estava a ser e a descarregar todos os meus sentimentos negativos nele. Sentei-me e pousei a cabeça nas minhas mãos enquanto chorava desalmadamente.
- Sou uma monstro. Desculpa.
- Deves ser o monstro mais bonito que eu já vi. - Ele agarra-me nas mãos e põe-me de pé, enxugando as lágrimas. - Não chores, tudo se vai resolver, eu estou aqui.
- Obrigada por não desistires de mim, mesmo depois de ser uma cabra estúpida para ti.
- Hey, não sejas assim! Esquecemos isto.

***
- Sófi?

Chamaram-me. De uma forma estranha. De uma forma única. Da forma que só ele me chama.
Volto-me.

- Gonçalo? - Aperto-o com tanta força que quase o sufoco.
- Isto é o céu ou tu estás a tentar matar-me?
- Nunca! - Aperto-o mais ainda. - É tão bom voltar a ouvir essa tua voz!!
- Daqui a nada morro mesmo e nem dás por isso. - Diz ele quase sem força.
- Desculpa. - Afasto-me. - Que susto nos pregaste!

Nesse momento o médico entra com os meus pais. Conversam sobre como tudo aconteceu. Abraço-o novamente e saio para ligar à Ana.
- Vou ligar à Ana a dar as novidades. Depois quero falar contigo, maninho.
- Sim, concordo. Tens de me falar sobre muitas coisas. - Aponta com a cabeça para o Nuno que estava na janela, pensativo.
- Claro. Beijo-lhe suavemente a face e saio.
Ligo à Ana, mas sem resposta. Mando-lhe rapidamente uma SMS para a avisar.
Vou ao escritório o resto da tarde para ver se o Francisco está a orientar-se sozinho. 
O Nuno deixa-me lá, e antes que eu saia do carro ele diz-me:
- Obrigada pela confiança.
- Como assim?
- Quando recebeste a sms, podias ter dito que não era importante, que era uma publicidade qualquer, e não me mostrares.
- Não tenho razão nenhuma para te mentir, ou para te esconder, seja lá o que for. É contigo que eu estou e não vou estragar isso. Aliás, não é o meu ex que vai estragar isto, porque eu não deixo.

Beijo-lhe nos lábios, em jeito de despedida. 

- Jantamos?
- Sim. E vamos ao cinema.
- Combinado.

Saio do carro e fecho a porta.

- Sofia. - Chama-me ele. Volto-me.
- Sim?

Ele sai do carro, corre na minha direção e pega-me ao colo. 
- Tenho medo de te perder.
- Já falamos sobre isso.
- Sim, eu sei, desculpa. É que...
- Sim?
- Nada... bom trabalho.
- Como queiras.

Beijo-lhe mais uma vez e afasto-me.

- Sofia?
- Sim? - Digo, num tom impaciente.
- Amo-te.


domingo, 22 de julho de 2012

Parte # 11

Ele está deitado. Não pregou olho a noite toda e sabe exatamente porquê. A última chamada que fez, destroçou-o. Ela estava com outro. Outro toque, outro beijo, outro sentimento, outro tudo, que não ele e com ele. E o pior é que ele sabia que a culpa era única e exclusivamente dele. Durante o tempo que estiveram juntos, ela viveu para ele, não sabendo ele exatamente o porquê, talvez por uns momentos de prazer, umas noites bem passadas, mas principalmente porque nesses momentos ela fazia-o feliz e dava sentido à sua vida. Vivia porque o amava e gostava de partilhar com ele todos os momentos, gostava de estar com ele e isso via-se no seu olhar. E ele reparava nisso, sabia-o e mesmo assim, não deu um passo atrás. Continuou a destruir-lhe o coração, mesmo sabendo que ela não merecia e que ele não era merecedor de tamanha paixão. Agora, depois de perder, quem sabe, a pessoa que mais se dedicou a ele e a mulher que ele nunca encontrará noutra, ele sente falta. Falta dos beijos, dos abraços, do amor. Falta do sentido que ela dava à sua vida. Sentia falta da organização dela, ou da organização em excesso. Sentia falta daqueles lábios, do cabelo, dos olhos apaixonados onde conseguia ver o seu reflexo. Antes, nada sentia por ela. Agora, só sente a sua falta. Costuma-se dizer que não se dá valor quando se perde, temos é de dar valor para não perder. E ele perdeu-a. Sentia-o. Perdeu-a...para sempre.
O quarto começa a andar à roda. Ele sente-se mal. Não enjoado com aquilo, mas enjoado consigo próprio. Tinha-a e deixou-a escapar. Fechou os olhos para se esquecer de tudo, principalmente de si, durante uns minutos. Mas foi em vão. Aquela conversa, aquela discussão surgiu-lhe em pensamento, como se estivesse a vivê-la naquele exato momento.

Era domingo. Ela já se tinha levantado da cama, indo preparar o pequeno almoço. Ele ainda não tinha chegado a casa. Tinha saído com os amigos na noite anterior e ela sabia que, uma vez mais, ele faria asneira. Mas estava ciente, também, que esta seria a ultima vez que passava por aquilo. Estava farta das crises dele, das saídas com os amigos e das chegadas com o cheiro a bebida e a mulheres. Estava simplesmente farta das mentiras e das vezes que respondia apenas com "Sim, eu sei que tiveste juízo", só porque não tinha paciência para mais discussões. Mas isso ia acabar naquele dia. Estava farta de todas as vezes que se fazia passar por estúpida, coisa que não é, só para que ele não a insultasse nem a culpasse de tudo, mais uma vez. Por mais que gostasse dele, não permitiria que ele a tratasse como lixo. Nunca.
Barulho da chave na fechadura. Ele entra.
Ela está sentada na cozinha a beber o café. Veste o seu pijama favorito: uns calções e uma t-shirt.

- Bom dia. - Diz ele, dando-lhe um beijo na testa, mas sem sucesso porque ela desviou-se. - O que foi?
- Um beijo na testa significa respeito. É o último beijo que me podes dar.
- Não tenho respeito por ti?
- Não tens por mim, mas o que mais me preocupa é a falta de respeito que consta para contigo.
- Não tenho paciência. Vou dormir.
- Pois o costume. Quando não te convém, é mais fácil fugires. Vai dormir e mentaliza-te que quando acordares já cá não estarei.
- A mesma lengalenga de sempre.
- "Nunca" e "sempre" são palavras bastante fortes. Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.
- É isso, é. - Respondeu ele, não se importando.

Saiu da cozinha e dirigiu-se ao quarto. Não sabia ele que aquela "lengalenga" chegara ao fim e que desta vez, ela estava disposta a deixar todo o sofrimento para trás. Ela acabou o seu café, pensado na possibilidade de viver sem ele. De como seria, visto estar tão apegada àquela pessoa que não se apegava nem um pouco a ela. Sentiu uma gota salgada a correr-lhe pela face. Limpou-a e pensou para si: "Sou nova e tenho uma vida inteira para ser feliz à minha frente. Não é um tipo com a puta da mania que é bom que me vai rebaixar. Porque eu sou mais forte que esse sentimento estúpido e lutarei contra ele. Está na hora de me valorizar."
Levantou-se, arrumou a mesa e dirigiu-se ao quarto para fazer as malas. Ele nem ouviu o barulho de toda aquela confusão devido à bebedeira e ao sono que tinha. Ainda bem, assim ele não possibilitava aquela saída de ser mais difícil do que estava a ser. Tomou um duche rápido, vestiu-se e saiu. O primeiro passo que deu porta fora, fez com que ela se sentisse livre. Era a primeira vez que lutava por si e largava tudo aquilo que lhe puxava para trás, impossibilitando-lhe o caminho da felicidade.

Algumas horas depois ele acordou. Apalpou o outro lado da cama, como se procurasse alguém, mas o vazio da cama, fez com que a procura terminasse. Ele levantou-se, sentiu a casa muito silenciosa, sem barulho da televisão, do aspirador, do telefone. Nada. Apenas um silencio ensurdecedor. ele não se lembra de nada, pelo menos, relevante. Lembra-se apenas que tivera uma conversa na cozinha com ela e deduziu que esse seria o lugar onde ela ainda se encontrava.

- Sofia, tenho fome. O que é o almoço?

Esperou pela resposta, mas nada. O silencio continuava a pairar sobre aquela casa.

- Estás surda? Tenho fome! Faz alguma coisa de útil!

Finalmente chegou à cozinha. Nada... Nenhum som, nenhuma pessoa, nenhum simples ruído vindo de um eletrodoméstico. Ele acordou rapidamente, o pouco sono que lhe restava e lembrou-se daquelas palavras. "Às vezes o "sempre" não dura muito. E esse muito está prestes a acabar. Dorme bem e até qualquer dia, Pedro.". Ela nunca o tratava pelo nome, a menos que estivesse a falar a sério. No meio da conversa, ele mal olhou para ela, mas pelo pouco que olhou, viu nos seus olhos tristeza, desilusão, ódio...nojo. Ela odiara-o naquele momento, naquela discussão. E agora que reparava nisso, ele sentia-se assim já a algum tempo. Só que ele nunca tinha olhado para ela, como ela sempre olhou para ele. Sempre...
Durante meses pensou naquilo que tinha feito e por medo, falta de coragem e principalmente vergonha e arrependimento, não foi atrás dela. Não conseguiu. Sabia que tinha sido um monstro e que a tinha feito sofrer e não queria continuar a fazê-lo. Queria fazê-la feliz. Queria fazê-la sentir-se amada, desejada. Mas sentia, acima de tudo, que era tarde demais.

O telemóvel toca e ele acorda daquele pensamento. Abre os olhos e estica o braço, desligando o telemóvel. Não quer que ninguém o chateie, principalmente naquele momento. Naquele dia. Ele sabe que não foi o suficiente e isso acabou por fazer com que a perdesse...com que se perdesse. 
Estava farto de se lamentar e levantou-se, tomou um duche e foi espairecer. Não tinha sitio exato para ir, nem queria ter um sitio certo. Queria apenas apanhar ar.
Voltou a lembrar-se daquele dia. De ter ligado para ela e ela não atender. Até que numa das milésimas vezes, ela atendeu.

- I'm sorry. - Arrependeu-se e não tem sequer a coragem de pedir desculpas como deve ser.
- No.
- It'll never happen again, i promise.
- Shut the fuck up, idiot. You said this last time.

***


Chegou a um jardim e numa parede viu um desenho enorme. Alguém desenhou aquilo sem intenção nenhuma ou com uma mínima? Aquela frase mexeu com ele, foi feita para ele.
Entre um rabisco e outro, entre tantas cores, formas e manchas estava escrito: 
"Luta pela tua Dama, Vagabundo!"

domingo, 8 de julho de 2012

Parte # 10

A noite passa, tão lenta...como se o tempo não passasse e não se importasse sequer em fazê-lo. Parece ter sido à umas horas que olhei para o relógio e ele indicava-me 2h:45 da manhã. Olhei agora, e ele indicou-me 2h:47. E isto sufoca-me. Aperta-me de tal forma a garganta e o peito que eu não me sinto viva. Penso em todos os momentos que passei mais o Gonçalo. Em miúdos fazíamos imensas asneiras, e por um, os dois pagavam. E quando não era assim, se um ficasse de castigo, o outro ficava a fazer-lhe companhia, por amor e irmandade.Pregávamos tantas partidas à Ana, e a cara dela de chateada, era o melhor prémio que poderíamos dividir. E agora, puff... Foi-se tudo por causa de um acidente, que até agora não se percebe o que sucedera realmente.

- Não consegues dormir?
O Nuno acorda. Afaga-me o cabelo.
- Princesa?
- Não, não consigo. Desculpa se te acordei.
- Não faz mal, linda.

Ele encosta-se a mim e envolve-me nos seus braços, beijando-me o pescoço.
- Não estás sozinha. Espero que o saibas.
- Eles culpam-me por algo que eu não fiz, e que mesmo que o tivesse feito, não tive culpa. Era uma criança.
- Não precisas contar se não quiseres, linda.
- Eu quero e preciso. Por favor...- ele dá-me um beijo leve na face e aperta-me num abraço, como se assenti-se e me fizesse perceber que estava ali a escutar-me.
- A Ana tinha 17 anos e nós tínhamos 10. Os meus pais saíram e deixaram-nos sozinhos, avisando a Ana de que ela tomaria conta de tudo e que confiariam nela. Como ela ainda estava na sua adolescência, aceitou, mas não com a intenção de os respeitar. ela ligou a televisão e avisou-nos de que sairia durante uns minutos e que voltaria, brevemente. Como crianças que éramos, óbvio que não ficamos quietos a ver televisão. Principalmente quando estávamos juntos. Fomos para o jardim, e entre uma brincadeira e outra, o Gonçalo decidiu subir a uma árvore, e no exato momento que os meus pais chegavam a casa, ele assustou-se com a buzina do carro, e caiu. Com isso, magoou-se na cabeça e teve de ser operado com urgência, fazendo com que só funcionasse metade do seu cérebro. Fiquei chocada com tudo aquilo a acontecer e só chorava abraçada a ele, só queria que ele abrisse os olhos naquele momento, afinal era a única pessoa que estava comigo, e naquele momento não o sentia. - Engoli em seco. - A minha irmã chegou no momento exato que a ambulância chegou, mas pelas traseiras. Disse ela que estava dentro de casa a arrumar a cozinha, e que nós tínhamos fugido sobre a sua visão, culpando-me a mim, dizendo que eu é que influenciava o meu irmão. Nas semanas que se passaram, cerca de três, o desporto do meu pai era socar-me. Batia-me como se fosse o meu castigo, perante o que acontecera.

O Nuno virou-me, fazendo com que eu ficasse frente a frente, enxugou-me uma lágrima que caiu e beijou-me levemente os lábios.
- Já passou, calma, princesa. Eu estou aqui.
- O problema é esse, Nuno. Não passou. Eles culpam-me por isso. E agora culpam-me por este acidente porque fui eu que ofereci a moto ao Gonçalo.
- O que aconteceu depois? Ele deixou de te bater porque fez-se homem o suficiente?
- Não. O meu irmão recuperou. Foi para casa, e como ele não queria que eu ficasse com ele, mandou-me para casa de uma tia minha, não se importando comigo, ao longo dos próximos anos. Simplesmente abandonou-me e eu tive de me virar sozinha. De uma forma ou de outra, agradeço-lhe, porque foi com a violência que hoje sou mais forte e sei lidar com as pessoas.
- Às vezes não é preciso lidar tanto. Queres ir dar um passeio matinal?
- De certeza que não queres descansar ao invés de me aturar?
- De maneira alguma. Vamos passear, vá!
- Vou vestir algo.

Saí do quarto e fui à casa de banho, lavar a cara. O meu telemóvel tocou ao longe.

- Querida, o teu telemóvel.
- Sim, eu ouvi. Quem é?
- Não tens o número guardado.
- Podes atender?

***

- Estou?
- Quem fala? - Uma voz masculina do outro lado da linha.
- Isso pergunto eu. Com quem deseja falar?
- Esse número não é da Sofia?
- É sim, e não pode atender agora. Acha que isto são horas de se ligar a alguém?
- Cabe-me a mim decidir isso. E você é quem?
- Companheiro dela. E você?

Silêncio do outro lado.

- Sim?
- Não sou ninguém.

A chamada caiu. O Pedro pousou o telemóvel e sentiu um aperto no estômago, um nó sufocante na garganta. Desta vez sentiu que a perdeu...para sempre.

***

Saí da casa de banho, vestindo o casaco e dando ao Nuno, o dele.
- Quem era?
- Não sei, não se identificou.
- Que estranho... Ao menos disse o que queria?
- Não, queria falar mesmo contigo. Quando disse que era o teu companheiro, ele desligou.

Quando ele identificou o sexo da pessoa, percebi logo de quem se tratava.
Sorri, beijei-lhe os lábios e saímos.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Parte # 9

Apesar de pensarmos que algumas das nossas escolhas foram erradas, e que nos arrependemos de as ter feito, não passaram de escolhas. Principalmente, nossas. A partir do momento em que as concebemos na nossa vida, somos responsáveis por todas as consequências provocadas. Tudo acontece no momento certo e quando conhecemos alguém tão especial o que menos importa é o tempo. Perdemos todo o referencial de dias, meses e horas, e torna-se impossível calcular o quanto essa sensação boa vai durar. É tudo novo, cheio de descobertas que aos poucos vamos nos apercebendo que eram mesmo tudo o que procurávamos. Mas melhor ainda, é quando encontramos algo muito superior a isso. Não procurava alguém que me completasse, aprendi a completar-me a mim mesma e só depois procurei alguém que me transbordasse. Acordei e olhei-o. Dormia profundamente e sorria como se o seu sonho fosse o melhor que já tivera. Toquei-lhe na face e delicadamente beijei-lhe os lábios, fazendo com que ele acordasse.

- Bom dia, princesa.
- Bom dia. Desculpa ter-te acordado.
- Não sejas tonta. Apesar do sonho ter sido bom, é melhor ainda acordar e perceber que afinal, ele é a minha realidade.

Corei um pouco e respondi-lhe com um sorriso. Ficar ali, a ver a sua cara de sono, o seu sorriso lindo e os seus olhos meigos e doces. Poder apreciar tudo isto pela manhã e ainda receber um beijo.
 
Às vezes, tentamos esquecer aquilo que nunca poderá ser apagado. Às vezes, devemos olhar para frente e ver o que nos aguarda. Devíamos parar para pensar, e ver que o fim de um relacionamento, tanto amoroso, profissional ou de amizade, não é o fim do mundo. Desentendimentos, mágoas, tristezas. Enfim, isso acontece a qualquer um. É preciso ter coragem para enfrentar tudo.
Beijo-lhe levemente a bochecha e levanto-me.

- Onde vais?
- Vou à rua comprar qualquer coisa para fazer o nosso pequeno-almoço.
- Hum... está bem. Não demores.

Senti um aperto enorme no peito, cerca de um segundo. Achei estranho mas não liguei, vesti qualquer coisa e sai.
Como o super mercado ainda ficava longe, aproveitei para caminhar um pouco e assim, ligar ao meu irmão, a combinar um jantar de família.
Sem resposta.
Liguei então à minha irmã. Atendeu.

- Sim?
- Eh, feia! Como está a minha maninha?
- Simpática como sempre, hein? Estou bem, e tu, como andas?
- Neste momento, com os pés.
- Andas com piadas novas, muito bem...
- Uhm... passa-se algo? Ainda não me insultaste e isso não é normal.
- Se calhar neste momento não me apeteça ser normal.
- Estás parva? O que aconteceu?
- Nada.
- Ana, deixa de ser estúpida.
- O Gonçalo teve um acidente.

O meu mundo desmoronou-se. O aperto no peito, a chamada sem resposta. O meu irmão.

- Sofia?
Quase não ouvia.
- Estás aí?

Engoli em seco e quebrei o silêncio que começava a sufocar-me.

- O que aconteceu?
- Não sei ao certo. Mas foi um acidente de mota.
- Como e com quem? Onde ele está?
- Está no hospital.
- Os pais já sabem?
- Sim, já estão a caminho.
- Quê, e se eu não ligasse, não se dignavam sequer a pegar no raio do telemóvel e avisar-me? Trata-se do Gonçalo, porra!
- Eu sei! Por isso mesmo é que tinha de arranjar coragem. Por saber o quão próximos vocês são, tinha de planear isto e pensar nas palavras certas.
- Palavras certas? Num momento destes, não existem palavras certas. Existem as palavras exatas. E tu devias ter-me dito, na altura! Ou então logo no momento que eu tinha te ligado. Já vou para aí.

Desliguei o telemóvel e voltei para trás. Não tinha andado muito, mas era como se tivesse percorrido 2 quarteirões. Bati à porta e o Nuno abriu.

- Foste rápid... - Ele olha-me e interrompe a sua fala ao ver-me a chorar. - Sofia? O que aconteceu?
- Podes levar-me a casa? Preciso ir trocar de roupa.
- Sofia, fala comigo. O que te fizeram?
Não aguentei e abracei-o. Abracei-o como se não houvesse amanhã. Abracei-o como se naquele abraço recarregasse forças e na minha cabeça quase que rezei para que o meu irmão ficasse bem, para que não fosse grave.
Expliquei-lhe o que sucedera, pelo caminho. Ele ofereceu-se para me ir levar ao hospital e para me fazer companhia neste momento difícil.

 ***

- Como é que ele está? Já disseram alguma coisa?

Sem resposta. Porque é que deixam-me assim nestes momentos? Porquê?
Os meus pais estão sentados, preocupados. A Ana está de pé a beber água. E pelos vistos ninguém me quer dar respostas.

- Nem num momento destes vão deixar de ser orgulhosos? Ana?
- Ainda não sabemos de nada. - Ela responde-me e depois sussurra-me apontando com a cabeça para os meus pais. - Não os pressiones.
- Não os pressiono? Sabes o que estás a pedir-me? Estou farta de viver assim, farta de ser julgada e culpada por algo que não fiz. Achas que é fácil lidar com isto todos estes anos? E nem num momento destes eles dão o braço a torcer e fazem com que juntemos forças para que o Gonçalo recupere. Estarei aqui, dia e noite para o meu irmão. Sim, porque apesar de eles fazerem de tudo para me perderem como filha, eu não deixarei que percam mais um.

Virei costas e sentei-me no outro lado da sala à espera. O relógio anda, os ponteiros dão tantas voltas, que por momentos parecem parar. Ora o tempo pára, ora ele voa. Levanto-me e ando pela sala, ansiosa, curiosa, preocupada. Como ele estará? O Nuno levanta-se e vem ter comigo, envolvendo-me nos seus braços.
- Anda comer qualquer coisa. Estiveste aqui todo o dia e isso faz-te mal.
- Faz-me mal é não ter noticias. Não tenho fome, querido. Mas vai comer, tu, qualquer coisa.
- Eu vou, mas trago-te algo.
- Obrigada.

Ele sai e eu sento-me outra vez colocando a cabeça entre as minhas mãos. Penso em tudo e ao mesmo tempo, em nada. Essa espera, mais do que outra qualquer, está a matar-me.
O Nuno volta com uma sandes e uma água na mão.
-Toma, come.
- Só quero a água, obrigada.
- Eu disse, come. E não reclames, vá.
Assenti apenas com a cabeça, sem forças se quer para discutir. Enquanto comia, ele olhava-me. com um olhar tão terno, tão doce. Afastava-me o cabelo dos ombros, às vezes.
- És linda e vais conseguir ultrapassar isto. Aliás, o teu irmão vai. Afinal ele é o gémeo da mulher mais forte que eu conheço. 
- Se eu fosse forte, não estaria neste momento sem força alguma.
- Exatamente por isso é que ele conseguirá. Estás a transmitir-lhe a tua força. E a minha, eu dou-ta a ti.
Sorri e abracei-o, novamente.

Neste momento alguém afinou a voz como se estivesse com tosse. Aproximou-me. Era alto, tinha cabelo branco e vestia uma bata branca.

- Desculpem, familiares do Shrº Gonçalo Bonito?
- Sim, sou irmã. Como ele está?

Ele agarrou-me no ombro, levou-me até aos meus pais e à minha irmã. A expressão dele preocupava-me. Sentou-me, olhou-me nos olhos, cerca de dois segundos. Dois segundos que pareceram uma eternidade. Aqueles olhos verdes, diziam tudo mas ao mesmo tempo, nada. Não conseguia decifrar absolutamente nada.

- Precisa ser operado...já.
- Mas é tão grave, assim?
- Se ele não fizer a operação, morre. Se ele fizer a operação, tem cerca de  23% de probabilidade de sobreviver.
- 23%? Isso é quase a mesma coisa que não ser operado. Quais são as chances que ele tem para estar incluído nestes 23%?
- Poucas...muito, poucas...

A frontalidade do médico para connosco, sobre este assunto, chocou-me. Mas ao mesmo tempo, percebi que não havia eufemismo possível para ser utilizado num caso destes. Principalmente quando estávamos todos nervosos, para saber resultados.
O médico chamou-me para ir tratar de uns papéis. Agora, só nos faltava rezar e esperar que tudo corresse bem.
O meu pai levantou-se, seguido da minha mãe.
- Estás feliz?
- Desculpe? - disse-lhe.
- Perguntei se estás feliz! Mais uma vez, é graças a ti que isto está a acontecer.
- Graças a mim? Estão a culpar-me novamente? Eu tinha 10 anos. Era uma criança, qual é a parte que não entendem? E o que tem isso a ver com o acidente?
Eles olham-me com desprezo e vão embora. Volto a ficar sem respostas. Olho para o Nuno e no olhar dele consigo decifrar um pouco de confusão e ao mesmo tempo compreensão.
- Vamos descansar, um pouco? - Diz-me ele, esticando a mão, a pedir a minha.
- Podes ir. Eu quero ficar.
- Não. Ou vamos ou ficamos. Nunca separados.

Sorrio e dou-lhe a minha mão. Saímos do hospital.

- Descansamos e depois voltamos. Prometo, princesa.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Parte # 8

Cheguei. Pousei a mala e perguntei ao Francisco o que tínhamos para fazer.
Sentei-me e liguei o computador. Enquanto esperava, pensava em tudo. Aprendi que não basta fazer perguntas, temos de ir atrás das respostas. A vida é assim... O tempo passa e as coisas mudam, o que precisávamos ontem, hoje já não passa de nada. Existe uma luz ao fundo do túnel, existe um amanhecer lindo e um pôr do sol único. Só depende de nós se queremos ver isso e mudar a nossa vida, o nosso dia. És tu que escolhes a tua paisagem, a tua trilha sonora. És tu que escreves a tua história e és tu quem escolhe as suas personagens. Mas, por favor, nunca te esqueças que a personagem principal és tu e és a única pessoa na história que, desde o inicio, merece um final feliz.
Eu estava convicta de que as coisas podiam falhar. Estava convicta de que não ia conseguir, até acordar e ver que eu consigo, eu consigo porque eu tenho quem me apoie. Tenho vontade de querer mais, eu tenho força e eu sei que eu sou capaz. Eu posso. A única coisa que eu não posso é parar, parar nunca vai me levar a lado nenhum. Já perdi tantas oportunidades por quem não merecia. A vida é como aprender a tocar um instrumento, podes errar dez vezes, mas se tu tentares uma 11ª, tu vais conseguir.
Bip Bip. Esqueci-me de colocar o telemóvel em silêncio. Peço desculpa às pessoas presentes na sala e vejo o que levou àquele som.
"Não foi preciso um beijo para eu me apaixonar por ti.
Jantámos hoje?
Beijo, N."

Sorriso de orelha a orelha.

"Não foi preciso me beijares para eu também querer fazê-lo.
Claro que sim! Saio às 19h.
Beijo, S."

Continuo o trabalho, pergunto algumas coisas ao Francisco, partilhámos trabalho, falámos sobre o tempo, o patrão, sobre diversas coisas, algumas sem sentido nenhum, mas que ocupam bem, uma conversa.
O relógio marca exatamente 17h. A porta do escritório do patrão, abre-se.

- Finalmente vejo-vos a trabalhar, ou a fingir. Se assim for, disfarçam muito bem! Mas vá, eu como sou uma boa pessoa, deixo-vos sair mais cedo.
- Ai sim? Quer o escritório vazio para fazer uma festa? Pediu autorização aos seus pais? - Sorrio.
- Não. E se eu sei que alguém lhes conta, estão feitos! - Responde ele, entrando na brincadeira.
- E não temos direito a convite para a festa? - Pergunta o Francisco.
- Vão mas é para casa, antes que eu mude de ideias e vos mace com trabalho!

Ele volta a entrar no seu escritório, quase fecha a porta mas lembra-se de dizer mais algo:
- Já agora, Sofia, os telemóveis são para estar em silêncio, a não ser que as SMS que recebam sejam minhas. - Diz ele a sorrir enquanto pisca o olho, mostrando que está apenas a brincar.
-Sim, senhor!

Saí do trabalho e dirigi-me ao escritório do Nuno, para lhe fazer uma surpresa.
Durante o caminho, ligo ao Filipe para saber como ele está. Sem resposta.
Chego ao escritório, entro e peço à secretária que ligue para ele dizendo que alguém bateu contra o seu carro, e este não está nada em bom estado. Ele, se pudesse, quase voava. Já sem fôlego, quando chegou à recepção.

- A treinar para a Maratona? Meia dúzia de escadas e já estás assim...ai ai.
- Parva! Assustaste-me!
- Se isso não acontecesse, não teria qualquer efeito. A que horas sais?
- À hora que quiseres. Já acabei o trabalho.
- Então estamos aqui, à espera que alguém bata contra o teu carro?
- Se isso algum dia acontecer, serás a primeira suspeita. Estás avisada.
- Uiii avisos... Não sei se hei-de fugir do país devido ao medo, ou se fico e enfrento-te.

Ele põe a sua mão no meu pescoço, chega-se para junto de mim e cala-me com uma beijo.

- Enfrenta-me.

Ele pega na minha mão e puxa-me para fora do edifício.
- Onde vamos?
- Onde combinamos. Jantar.
- Onde?
- Em minha casa.
- Quê? Porquê?
- Porque eu decidi que sim.
- Ah, pronto assim, é uma resposta aceitável.

Chegamos. Ele deu-me a chave do apartamento e disse-me que podia ir entrando, enquanto ele tratava de uma coisa com o vizinho. Não passou de uma desculpa. Eu entrei, o chão do corredor estava coberto com um tapete de pétalas de rosa, ao caminhar sobre ele, deparo-me com uma mesa preparada para um jantar, que numa questão de minutos, seria perfeito. Em cima da mesa tinha um cartão, abri-o e li:

"Possuis algo único e gigantesco em ti, que torna-se fácil amar-te. Não te peço que me ames da mesma forma que eu te amo. Mas farei de tudo para que me ames, apenas."

No momento em que acabo de ler, sinto os seus braços a cobrirem-me. Sinto medo. Medo do futuro. Medo daquilo que estou, mais uma vez, a criar. Medo de que me venha a magoar. Mas se continuar assim, nunca serei feliz. Por outro lado, ele faz com que o medo se aniquile. Faz com que toda a minha esperança volte e que todo o meu amor-próprio ressuscite.
Volto-me. E como que a tremer, abraço-o.

- Não tenhas medo, eu protejo-te.

Não conheci ninguém tão sensível a respeito das minhas emoções. Abracei-o com mais força.

- Obrigada por me fazeres sentir importante, outra vez.
- Não fiz nada. Tu és importante, só tu é que não conseguias ver isso.
- E tu fizeste com que eu visse.

Sentamo-nos e começamos a jantar. Comemos e brincamos, os beijos surgem tão espontâneamente no meio de olhares e sorrisos. Como ele é lindo. E a cada dia que passa, reparo mais nisso.
A noite passa rápido e isso é bom.
Envolvemo-nos num longo beijo e entregamo-nos, numa longa e maravilhosa noite. Onde a lua sorri-me pela oportunidade aproveitada e as estrelas felicitam-me, por ultrapassar uma fase difícil e voltar a ser feliz.