terça-feira, 19 de junho de 2012

Parte # 8

Cheguei. Pousei a mala e perguntei ao Francisco o que tínhamos para fazer.
Sentei-me e liguei o computador. Enquanto esperava, pensava em tudo. Aprendi que não basta fazer perguntas, temos de ir atrás das respostas. A vida é assim... O tempo passa e as coisas mudam, o que precisávamos ontem, hoje já não passa de nada. Existe uma luz ao fundo do túnel, existe um amanhecer lindo e um pôr do sol único. Só depende de nós se queremos ver isso e mudar a nossa vida, o nosso dia. És tu que escolhes a tua paisagem, a tua trilha sonora. És tu que escreves a tua história e és tu quem escolhe as suas personagens. Mas, por favor, nunca te esqueças que a personagem principal és tu e és a única pessoa na história que, desde o inicio, merece um final feliz.
Eu estava convicta de que as coisas podiam falhar. Estava convicta de que não ia conseguir, até acordar e ver que eu consigo, eu consigo porque eu tenho quem me apoie. Tenho vontade de querer mais, eu tenho força e eu sei que eu sou capaz. Eu posso. A única coisa que eu não posso é parar, parar nunca vai me levar a lado nenhum. Já perdi tantas oportunidades por quem não merecia. A vida é como aprender a tocar um instrumento, podes errar dez vezes, mas se tu tentares uma 11ª, tu vais conseguir.
Bip Bip. Esqueci-me de colocar o telemóvel em silêncio. Peço desculpa às pessoas presentes na sala e vejo o que levou àquele som.
"Não foi preciso um beijo para eu me apaixonar por ti.
Jantámos hoje?
Beijo, N."

Sorriso de orelha a orelha.

"Não foi preciso me beijares para eu também querer fazê-lo.
Claro que sim! Saio às 19h.
Beijo, S."

Continuo o trabalho, pergunto algumas coisas ao Francisco, partilhámos trabalho, falámos sobre o tempo, o patrão, sobre diversas coisas, algumas sem sentido nenhum, mas que ocupam bem, uma conversa.
O relógio marca exatamente 17h. A porta do escritório do patrão, abre-se.

- Finalmente vejo-vos a trabalhar, ou a fingir. Se assim for, disfarçam muito bem! Mas vá, eu como sou uma boa pessoa, deixo-vos sair mais cedo.
- Ai sim? Quer o escritório vazio para fazer uma festa? Pediu autorização aos seus pais? - Sorrio.
- Não. E se eu sei que alguém lhes conta, estão feitos! - Responde ele, entrando na brincadeira.
- E não temos direito a convite para a festa? - Pergunta o Francisco.
- Vão mas é para casa, antes que eu mude de ideias e vos mace com trabalho!

Ele volta a entrar no seu escritório, quase fecha a porta mas lembra-se de dizer mais algo:
- Já agora, Sofia, os telemóveis são para estar em silêncio, a não ser que as SMS que recebam sejam minhas. - Diz ele a sorrir enquanto pisca o olho, mostrando que está apenas a brincar.
-Sim, senhor!

Saí do trabalho e dirigi-me ao escritório do Nuno, para lhe fazer uma surpresa.
Durante o caminho, ligo ao Filipe para saber como ele está. Sem resposta.
Chego ao escritório, entro e peço à secretária que ligue para ele dizendo que alguém bateu contra o seu carro, e este não está nada em bom estado. Ele, se pudesse, quase voava. Já sem fôlego, quando chegou à recepção.

- A treinar para a Maratona? Meia dúzia de escadas e já estás assim...ai ai.
- Parva! Assustaste-me!
- Se isso não acontecesse, não teria qualquer efeito. A que horas sais?
- À hora que quiseres. Já acabei o trabalho.
- Então estamos aqui, à espera que alguém bata contra o teu carro?
- Se isso algum dia acontecer, serás a primeira suspeita. Estás avisada.
- Uiii avisos... Não sei se hei-de fugir do país devido ao medo, ou se fico e enfrento-te.

Ele põe a sua mão no meu pescoço, chega-se para junto de mim e cala-me com uma beijo.

- Enfrenta-me.

Ele pega na minha mão e puxa-me para fora do edifício.
- Onde vamos?
- Onde combinamos. Jantar.
- Onde?
- Em minha casa.
- Quê? Porquê?
- Porque eu decidi que sim.
- Ah, pronto assim, é uma resposta aceitável.

Chegamos. Ele deu-me a chave do apartamento e disse-me que podia ir entrando, enquanto ele tratava de uma coisa com o vizinho. Não passou de uma desculpa. Eu entrei, o chão do corredor estava coberto com um tapete de pétalas de rosa, ao caminhar sobre ele, deparo-me com uma mesa preparada para um jantar, que numa questão de minutos, seria perfeito. Em cima da mesa tinha um cartão, abri-o e li:

"Possuis algo único e gigantesco em ti, que torna-se fácil amar-te. Não te peço que me ames da mesma forma que eu te amo. Mas farei de tudo para que me ames, apenas."

No momento em que acabo de ler, sinto os seus braços a cobrirem-me. Sinto medo. Medo do futuro. Medo daquilo que estou, mais uma vez, a criar. Medo de que me venha a magoar. Mas se continuar assim, nunca serei feliz. Por outro lado, ele faz com que o medo se aniquile. Faz com que toda a minha esperança volte e que todo o meu amor-próprio ressuscite.
Volto-me. E como que a tremer, abraço-o.

- Não tenhas medo, eu protejo-te.

Não conheci ninguém tão sensível a respeito das minhas emoções. Abracei-o com mais força.

- Obrigada por me fazeres sentir importante, outra vez.
- Não fiz nada. Tu és importante, só tu é que não conseguias ver isso.
- E tu fizeste com que eu visse.

Sentamo-nos e começamos a jantar. Comemos e brincamos, os beijos surgem tão espontâneamente no meio de olhares e sorrisos. Como ele é lindo. E a cada dia que passa, reparo mais nisso.
A noite passa rápido e isso é bom.
Envolvemo-nos num longo beijo e entregamo-nos, numa longa e maravilhosa noite. Onde a lua sorri-me pela oportunidade aproveitada e as estrelas felicitam-me, por ultrapassar uma fase difícil e voltar a ser feliz.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Parte # 7

Saio da empresa em direção ao restaurante. O telemóvel toca, tiro-o da mala. É o Filipe.
- Olá.
- Olá, fofa. Disseste que ias almoçar onde?
- Não disse. É no restaurante ao fim da rua, o que costumávamos almoçar às vezes. Porquê?
- Porque queria ver-te e dar-te um beijinho. Estou a trabalhar aqui perto e assim aproveito.
- Uhm...estou a chegar, estás onde?
- Já cá estou.
- Está bem. Até já. então. Beijo.
- Beijo.

Chego ao restaurante, abro a porta e procuro pelo Filipe. Não o vejo mas em contrapartida, reparo no Nuno lá ao fundo. Ele está sentado, a olhar para o telemóvel como que a ver as horas.

- Ohh! Tão triste que ele está! Anima-te, homem, já cheguei!

Ele ri, levanta-se e cumprimenta-me.

- Como estás?
- Bem e tu?
- Também.
- Mesmo? - Insisto eu.
- Sim, mesmo.
- Certeza?

Ele lança-me um olhar chateado.

- Pronto, tem calma! Não me mates com esse olhar à "El Matador". Já pediste?
- Não, querida, estava à tua espera.
- Podes pedir. Eu como o mesmo que tu. Desculpa, mas tenho de fazer um telefonema.
- Claro.

Pego no telemóvel e ligo ao Filipe.

- Estás onde?
- Atrás de ti.


Olho para trás e desligo o telemóvel. Levanto-me, dou-lhe um abraço e ele dá-me um beijo na testa.

- Estavas onde? - Pergunto.
- A falar com o gerente, é um conhecido meu.
- E vieste almoçar com quem?
- Com ninguém. Aliás, já almocei. Só vim aqui falar com ele e aproveitei para te ver.
- Ahm... Ups, cabeça a minha.

Viro-me, e olho para o Nuno.

- Filipe, Nuno. Nuno, Filipe.

O Nuno levanta-se e aperta-lhe a mão.

- Prazer, mais uma vez.
- Sim, tem que ter mais cuidado, rapaz.
- Você também estava distraído com o telemóvel.
- Sim, a ligar aqui para a Dama. - Diz o Filipe, apontando para mim.

Fico confusa com toda aquela conversa paralela.

- Não se preocupem, eu nem estou aqui... Querem que vá pedir umas velas e fazer um jantar romântico por aqui? Digam lá se estou a mais...

Eles param de falar, olham simultaneamente para mim e começam a rir, e ficam assim cerca de um minuto.

- Não, a sério, não se incomodem. Estejam à vontade. Alguém se digna a explicar-me o que se passa?

E riem mais uma vez, sentando-se frente a frente.

- Aiii! Estou feita com vocês.

Sento-me, ficando ao lado de ambos. Cruzo os braços em forma de protesto e fico ali olhando de um lado para o outro enquanto eles se riem da situação, que até agora, ainda não entendi.

- Há pouco chocamos um com o outro. Não sabíamos nós, que estávamos aqui pela mesma pessoa. - Diz, finalmente, o Nuno.
- Ahm... De certeza que não se conheceram no bar de strip que frequentam todas as noites?

O Filipe dá-me uma chapada leve na testa.
- Parva!
- Hey! Bem, não sei quanto a vocês, mas eu estou com fome.
- Pedimos? - Pergunta o Nuno.
- Sim. Ficas para almoçar? - Pergunto eu ao Filipe.
- Já almocei, tonta. Só vim mesmo dar-te um beijinho.

Ele levanta-se, dá-me dois beijos e cumprimenta o Nuno com um aperto de mão.

- Prazer. Haveremos de combinar outro dia, tenho de saber se é uma boa influência para andar tanta vez com a minha menina.
- Quando quiser. - Responde o Nuno.

O Filipe afasta-se, saindo do restaurante.
Fazemos o pedido e comemos enquanto conversamos.

- Vejo que o ... - Falta-lhe o nome.
- Filipe. - Ajudo-o.
- Sim, isso. Vejo que o Filipe é próximo a ti.
- Vês bem. E verás cada vez mais ao longo dos dias.
- Uhm, e tenho de me preocupar em relação a ele?
- Como assim?
- Então, se ele é uma espécie de concorrência...

Páro de mastigar e quase me engasgo.

- Uhm...Não. Ninguém consegue superá-lo, logo nem vale a pena fazeres-lhe concorrência. É o meu melhor amigo, o meu maninho de coração.
- Entendo. Parece-me ser um bom rapaz, e vê-se que gosta bastante de ti.
- O sentimento é mútuo.
- Muito bem. 'Bora' fazer um jogo?
- Como assim?
- Para nos conhecermos melhor. Tu perguntas-me o que quiseres, eu respondo e depois pergunto eu.
- Qualquer pergunta?
- Sim, qualquer uma.

Por acaso é um jogo interessante. Descobri que a cor favorita dele é o azul, tal como a minha. Descobri o número favorito dele, o signo, o dia de aniversário, o seu animal favorito, entre outras coisas.

- Que tipo de mulher te atraí? - Pergunto-lhe. Ele hesita um pouco e responde.
- O teu tipo.

Fico sem resposta e coro um pouco. Ele continua o jogo.

- Irmãos, tens?
- Sim, dois, um rapaz e uma rapariga. E tu?
- Uh, mais velhos ou mais novos? Tenho um, mais novo.
- Ela é mais velha e ele é da minha idade, somos gémeos.
- E nomes? Tenho que ir preparado para quando conhecer os meus cunhados.
- Ahahah, a preparar terreno?
- Claro, primeiro conquisto a família, depois conquisto-te a ti.
- És muito crente, tu. - Sorrio. - Ela chama-se Ana e ele Gonçalo. E o teu?
- João.

O telemóvel dele toca em simultâneo com o meu. Sorrimos.

- É o trabalho, vamos andando. Continuamos depois. - Digo-lhe pegando na mala e levantando-me.
- Olha que não me esqueço, princesa.
- Nem eu te deixo esquecer, princípe.

Ele fica surpreendido com a mudança de resposta vinda da minha parte. Saímos do restaurante e ele leva-me até à minha empresa, apesar da sua ficar em sentido contrário e ele estar atrasado. Chegamos.

- Não precisavas ter-me acompanhado, já estás atrasado.
- Mais 10 minutos não matarão ninguém. Além disso não tenho culpa que contigo o tempo passe a voar.

Sorrio e baixo a cabeça como quem não tem resposta e prefere ficar em silêncio. Ele põe a mão no meu queixo e levanta-me a cabeça. tira-me o cabelo que escondia, em parte, os meus olhos e puxando-me pela cintura contra o seu corpo, beija-me. Algo intenso, caloroso, indescritível. Desta vez, não há nenhuma onda que me traga de volta à realidade. Porque esta, é a realidade. E é uma realidade bastante agradável.



sábado, 9 de junho de 2012

Parte # 6

Foi uma noite muito bem passada. Dormi bem, como já não fazia à muito tempo. E tudo graças às pessoas que me querem bem e que me demonstram isso, várias vezes, mesmo que eu não repare.
O que estraga é o facto de hoje ser segunda-feira e ter de ir trabalhar. Mas pronto, pode ser que não seja assim tão mau. Pego no telemóvel para ver se alguém se lembrou de mim. Não, ninguém o fez. Pouso-o, sento-me na cama e espreguiço-me um pouco. Bip Bip. Só podem estar a brincar...SMS recebida.

"Bom dia, princesa. Bem disposta nessa segunda-feira? Aposto que ainda não saíste de casa, está um dia maravilhoso. Mas tem cuidado, o sol pode ficar com inveja do teu brilho natural. Almoçamos juntos?
Beijo, N."

É incrível como uma simples mensagem pela manhã pode mudar as coisas, depois de saber que era impossível ficarem melhores.

"Bom dia, sapinho. Não precisas ser querido e mandar piropos para conseguires um almoço comigo. Aceito o convite. Sitio e hora?
Beijo, S."

Pouso o telemóvel e vou preparar o banho. Enquanto a água fica a correr, volto ao quarto para preparar a roupa. O mesmo dilema de sempre...O que vou vestir hoje? Penso nisso quando estiver no banho. Mas nem isso.
Penso em tudo o que se passou nestes últimos meses. As pessoas que conheci, as que já conhecia, as que me deixaram e as que eu permiti que isso acontecesse. Tantas pessoas, tantas personalidades, tantos nomes e tantas faces, e de repente, por mais importantes que sejam, desaparecem para darem lugar a outras. Quem sabe também estas desaparecerão, mas enquanto isso não acontece, ficarei presente para elas, como elas para mim.
Sentimentos que me consomem. Amores que me cansam. Amizades que me surpreendem. Pessoas à volta. Coisas a acontecerem. E o que fazer?
I’m tired. I can’t continue with it.
Ao acordar, pela manhã, tudo está uma maravilha e as pessoas me fazem rir, sinto-me bem. Quem não se sentiria? Mas ao cair da noite, às vezes, sinto-me sozinha, as coisas parecem não fazer sentido. Pessoas que estão comigo passam a não fazer diferença, passam a não ter importância. Começo a perguntar o por quê. Está tudo fora de controle e eu não estou acostumada com isso. Assustada é a palavra certa para mim, mas de repente, vejo-me confusa. E não sou a única a me sentir assim. Milhares se sentem. Como tu, por exemplo. Sempre tiveste o controle não é? Acostuma-te. You’re a just ordinary person. This happen all the time.
Terás de fazer escolhas. A vida é feita de escolhas, tu sabes, só não queres encarar a realidade. So many dreams, so many plans. Mas nada sai como planeado, temos que fazer algumas mudanças. Mudar é uma forma de crescer. Algo que levarás para a vida, sempre, é que perdemos e ganhamos. Não temos tudo nas mãos. It’s time to grow up. Desprende-te do passado. Encara as dificuldades. E conforma-te, as pessoas sempre vão te decepcionar, e tu irás sempre decepcionar alguém, mesmo que não o percebas. Irás surpreender-te até com pessoas que não consideras amigas. É assim que irás perceber e conhecer as melhores pessoas, os lugares, momentos da tua vida.
Começa por hoje. Pratica o desapego. Acaba com certos vínculos. Começa a pensar em ti, a tentar manter-te bem. Sentires-te mal só piorará as coisas. Esquece o que os outros pensam. O que importa é o que te deixa feliz, o que te faz bem. E encara isso como algo bom, porque é bom. Uma vez alguém disse que: “As dificuldades só vêm para quem consegue superá-las.” E é verdade. Vais superar, eu sei. Lembra-te de todas as pessoas que passaram pela tua vida, tudo o que já aconteceu nela. Mas muda tudo. Change, go ahead.

Estou a aceitar o facto de que o homem certo não chegará numa carruagem, limosine, cavalo branco ou pousará de helicóptero onde eu estou. Ele irá andar meio mundo a pé para me ver, se ele realmente me amar. Não precisará de um ramo de rosas para me impressionar, apenas uma rosa me levará ao céu. Então conformo-me: a minha vida pode ser muito melhor e mais romântica do que um conto de fadas.

Acordo, do pouco tempo que estive a sonhar. Saio da banheira, e preparo-me. Coloco a bolsa de maquilhagem na mala, vou ao quarto para fazer o mesmo com o telemóvel, mas nisto, ele toca.

- Sim?
- Olá boneca. Bem disposta?
- Sim e tu, peluche?
- Também. Almoçamos hoje?
- Uhm... Já tenho um almoço combinado.
- Ai é assim? Andamos tão ocupadinha que nem tempo tens? Está bem, está bem. - Diz ele num tom ofendido.
- Ó, não sejas assim! O Nuno convidou-me hoje. Fica para amanhã?
- Estou a ser trocado? Sinto-me traido, ainda por cima por um fulano que nem sequer conheço!
- Cala-te, parvo!
- Estou a brincar, tonta. Então tem um bom dia e um bom almoço, diverte-te. Beijos.
- Obrigada, Filipe. Beijinho.

 Saio de casa e entro no carro. 20 minutos e chego à empresa. Vejo o Francisco - colega de trabalho - no parque de estacionamento.

- Bom dia, Sofia.
- Bom dia! Tudo bem?
- Passou-se alguma coisa que eu não tenha dado por isso?
- Sim, ontem à noite a tua família veio cá buscar-te, num OVNI e agora reparei que não o fizeram. Ai ai essa minha triste vida. - Digo, sorrindo para que ele perceba que só estou a brincar.
- Não é que os teus "insultos" me animem, mas lá que já tinha saudades dessa tua boa disposição, ai isso tinha. Ganhaste o euromilhões?
- Se isso acontecesse, achas que estaria aqui neste momento, para começar a trabalhar daqui a 5 minutos? Bem, se calhar até cá vinha, para te provocar com um monte de notas na mão.
- Que má!

Caminhamos até aos escritórios.

- Como está a Matilde?
- Está bem, obrigada por perguntares.- Ele sorri.
- Que sorriso foi esse? - Pergunto-lhe curiosa.
- Nada. Não quero criar falsas expetativas e depois desiludir-me.
- Ui, sabes que sou curiosa, não sabes?
- Sei.
- Então chiba-te!

Neste momento o patrão chega.

- Que rica vida! Devemos ser das únicas empresas que todos se dão bem, mas trabalhar, zero.
- Fala o Senhor-Doutor-Chefe-que-só-sabe-mandar-e-queixar-se! -  Rio-me.
- Vê lá as confianças! - Responde-me ele despenteando-me.
- Eh, já devia saber que o cabelo, não!
- Por isso mesmo é que o faço. - Diz ele, afastando-se e a sorrir.

Sento-me na minha secretária e organizo as coisas. Ligo o computador. Olho para o Francisco que está na secretária ao lado.

- Eh, não te safas da conversa de à pouco.
- Que conversa? - Diz ele.
- Eu não nasci ontem, ó! Já devias saber que sou muito curiosa e teimosa.

Ele levanta-se, puxa a sua cadeira para o lado da minha e sussurra:

- Isto não sai daqui, ok?
- Sabes que podes confiar.
- A Matilde acha que está grávida. Mas ainda não temos certeza de nada, por isso é que não queria dizer.

Não me controlo e quase com um grito, digo:
- Vais ser pai?!
- Chiu! Fala baixo! - Continua ele a sussurrar.
- Desculpa. Ohh estou tão feliz por vocês!! - Sussurro enquanto abraço-o.

Ele levanta-se e agradece-me com um sorriso. Viro-me para o computador e começo a digitar.
Imprimo, levanto-me e entrego o trabalho ao Francisco.
- Podes terminá-lo? É a tua parte.
- Ok, obrigada.

Olho para o relógio e vejo o quão depressa o tempo passou. Hora de almoço, vou ligar ao Nuno. Pego no telemóvel e já lá tinha uma chamada dele. Ligo-lhe de volta.

- Olá, princesa.
- Olá, Sapinho. Não me respondeste à ultima mensagem.
- Desculpa, trabalho.
- Entendo. Encontramo-nos no restaurante ao fim da rua?
- Sim. Até já, beijinho.
- Beijo.

Preparo-me e saio do escritório, desejando bom almoço ao Francisco, quando ele saísse.
Enquanto isso, no restaurante, um indivíduo entra e caminha para a mesa junto da janela, está distraído e bate contra outro homem que se encontrava em pé, a teclar no telemóvel.
- Desculpe. Estava distraído.
- São coisas que acontecem, não se preocupe. - Ele levanta a mão, para darem um aperto de mãos e esquecerem o sucedido.
- Já agora, Filipe Lopes.
- Nuno Silva. Mais uma vez, desculpe.

Ele afasta-se e senta-se na mesa junto à janela, enquanto espera.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Parte # 5

Um barulho irritante acorda-me pela manhã. Outra vez o raio da máquina eletrónica. Atendo. Uma voz familiar do outro lado, mas ainda não identificável.

- Bom dia, fofinha.
- Bom dia, Filipe.
- Eish, que voz de sono!
- Também.
- Também? Vá, levanta-te. Está um dia lindo e hoje decidi que o passaremos juntos.
- Não posso, eu... - Ele interrompe-me.
- Espera, será que eu perguntei se podias e não dei por isso? Reformularei a minha afirmação: Nós VAMOS passar o dia juntos, e não quero cá desculpas.
- Não mudaste nada. Está bem.
- Não mudei porque sei como é que tu és. Vá, despacha-te, estou quase aí.

O Filipe é, neste momento, o meu menino. É o meu melhor amigo, o meu "irmão" mais velho, mas às vezes, o mais novo. Não tem juízo nenhum, mas em contrapartida é o único que tem juízo o suficiente para me dizer as palavras certas. Mesmo que me magoem, mesmo que não sejam as palavras que eu queira ouvir, ele faz-me abrir os olhos e perceber que as coisas más, só servem para darmos valor às boas. É aquele rapaz que toma conta de mim, e vice-versa.
Sem vontade nenhuma, levanto-me e vou tomar um duche para acordar mais rápido. 15 minutos depois a campainha toca. Pego na toalha e enrolo-a no meu corpo. Desço as escadas a resmungar comigo própria, enquanto a campainha farta-se de tocar. Abro a porta.

- Então? O que pode ser assim tão urgente? A campainha não fez mal a ninguém. - Digo eu num tom chateado.
- Hey! Mais um pouco e recebias-me com um murro. - Diz ele.
- Fiquei seriamente a pensar nessa possibilidade, mas ias ficar em muito mau estado e decidi poupar essa tua carinha linda. - Finjo uma ligeira tosse, como se aquilo que tivesse dito não fosse, de todo, a verdade.

Ele entra e senta-se no sofá. Eu fecho a porta e digo num tom irónico:
- Entra, põe-te à vontade. Ah, espera, já trataste disso.
- Cala-te parva e vai mas é arranjar-te. Isto são maneiras de se receber visitas?
- Se tu não estivesses decidido a dar cabo do mundo, com a poluição sonora que fazias com a minha campainha, eu teria me arranjado. E olha lá posso saber porque não recebi nenhum abraço e nenhum beijo?
- Porque tu estás só de toalha e sabes que contigo, é difícil me controlar. - Diz-me ele a brincar.
- És parvo! Vá, já volto.

Subo rapidamente as escadas enquanto olho para ele e lhe faço caretas. É incrível o quão bem nos damos, estamos sempre a brincar, sempre a picar-nos e escusado será dizer que é das únicas pessoas que consegue de mim, sorrisos sinceros.
Grito-lhe:
- Ó gajo, vamos onde?
- Não te interessa! - Responde-me ele com outro grito.
- Mas eu tenho de saber! Assim, visto o quê?
- Desculpa? Mas ainda não estás vestida? Vais me obrigar a subir?

Neste momento desço as escadas, com umas calças de ganga escuras e justas, um top branco com um padrão floral em vários tons de rosa e umas sandálias de salto alto brancas.

- Hey, tenho uma irmã toda gira e boa e ninguém me avisou?
- Cala-te, tonto. Posso receber agora o abraço?

Ele abre os braços e sorri. Como eu tinha saudades daquele sorriso... Fechei-me de tal forma, que esqueci aquilo que realmente gosto. Aqueles olhos meigos, aquele sorriso carinhoso, aqueles braços reconfortantes. Salto-lhe para cima e ele quase me esmaga num abraço. E eu adoro ser esmagada por ele. Quase me emociono por perceber o quão estúpida fui por não ter dado valor a isto.

- Ena, eram tudo saudades? - Pergunta-me ele.
- Nem tu imaginas o quanto! - Afago-lhe o cabelo, despenteando-lhe.

Saímos e eu tranco a porta.

- Vamos onde?
- Antes de mais, vais tomar o pequeno almoço.
- Vou?
- Não. Vamos.

Sentamo-nos numa esplanada. Ele senta-se à minha frente, pousa o telemóvel em cima da mesa e olha-me fixamente.
- O que foi? - pergunto-lhe, curiosa.
- Isso pergunto eu. O que se passa contigo? Não me ligas nenhuma à dias, não sais, estás sempre em casa, só sais para trabalhar. Tu sorris, e mesmo que não sejam dos teus melhores sorrisos, são sempre sorrisos, mas nunca felizes. Os teus olhos demonstram aquilo que passas e sabes que eu os conheço. Tens um sorriso maravilhoso. E adoro quando sorris com os lábios e com o olhar. O que se passa?

Baixo a cabeça para a lista no Menu e neste momento o empregado chega.

- Já escolheram?
- Sim. Dois cafés com duas sandes mistas e um chocolate, por favor.
- É para já.

O empregado afasta-se. O Filipe levanta-se e senta-se ao meu lado.

- Sofy, podes falar comigo.
- Mas o problema é que não sei o que dizer exatamente, é tudo tão confuso.
- Eu percebo. E já te disse imensas coisas sobre isso, não podes te deprimir assim.
- O Pedro ligou-me, ontem à noite. - As palavras quase que ficam presas na minha garganta.
- O que quer esse gajo agora? Já não fez estragos suficientes?
- Pelos vistos está arrependido e quer voltar.
- Isso é não ter amor próprio. Linda, não te iludas outra vez. Ele não merece nem um terço das tuas lágrimas, quanto mais o teu todo.
- O pior é que aquilo que sinto é tão intenso, tão gigantesco que me dá medo. Medo que não tenha força suficiente para ultrapassar e seja estúpida ao ponto de lhe dar outra oportunidade.
- É que nem penses! Se não tens força, eu dou-te a minha, mas iludires-te para voltar a sofrer, eu não deixo. Existem pessoas que nem a primeira oportunidade merecem, quanto mais a segunda. Quero que vejas em mim um porto seguro, um amigo confiável. Quero que desabafes comigo e chores num abraço meu. Porque é para isso que servem os amigos. Mesmo que não suportes a minha voz, ou que num desses momentos não queiras ouvir nada, eu escuto-te em silêncio. Porque acima de tudo, respeito-te e gosto imenso da pessoa que és. Não dessa que está à minha frente, mas aquela, que num ou dois momentos, consegue esquecer tudo e vive sem pensar em nada.Quero que sorrias, mesmo que a tua maior vontade seja chorar. Quero que chores, mas de felicidade! Eu adoro-te, miúda.

Odeio quando ele me chama isso. Odeio mesmo. Mas nesse momento só quero a companhia dele, só quero "morrer" por uns minutos no abraço dele. E numa questão de frações de segundo, ele abraça-me, como se me estivesse a ler os pensamentos.

O empregado interrompe-nos, deixando o pedido em cima da mesa.

- O chocolate é para quem?
- Para a menina. - Diz o Filipe apontando com a cabeça para mim.

Adoro chocolate e ele, melhor que ninguém, sabe disso.
Eu sorrio e dou-lhe um beijo suave na face. Ele segura-me na mão, como que a dar-me força e parece que consegue. Sorrio, mas desta vez é mesmo sincero.
Comemos e entre uma e outra conversa, ele conta-me o que tem feito nestes dias, com quem tem saído, etc.

- Mas chega de falar de mim. E tu, para além de trabalhar? - Pergunta-me ele.
- Uhm... Conheci uma pessoa à uns meses. - Digo-lhe enquanto dou uma dentada na sandes.
- Uiii...esse brilho nos olhos agora...Conta!
- Oh, ainda estamos a conhecer-nos, e ontem enquanto passeávamos pela praia, entre uma ou outra brincadeira acabamos por nos beijar.
- Deixa-me adivinhar... isso assustou-te e foste para casa, refugiar-te.
- Exato. Foi um momento estúpido meu, mas depois disto ele disse-me algumas verdades, que apesar de tudo, são verdades que eu sempre soube e que não queria ver. Ele é uma pessoa maravilhosa e não quero magoá-lo.
- Eu percebo. Mas não te feches, Sofia. Se ao falares dele, já vi esse brilho nos teus olhos, continua a conhecê-lo. Sai com ele, diverte-te. Aprende a gostar de ti e quando estiveres preparada, e se ambos o permitirem, aprende a gostar dele. Mas por favor, promete-me que não deixarás mais nenhum gajo fazer-te sofrer.
- Quando estou com ele, sinto-me bem, a sério. E por momentos, esqueço-me de todos os problemas.
- Promete.
- Prometo, chato!

Ele responde-me com um sorriso, agarra-me na mão, põe uma nota em cima da mesa e puxa-me para fora da esplanada.

- Quero conhecer esse Nuno. - Diz-me ele enquanto caminhamos.
- Porquê e para quê?
- Para ver quais são as intenções dele para com a minha menina.
- Andamos protetores agora?
- Sempre fui o teu Anjo Protetor, ora admite!
- E se não o fizer?
- Começo uma terceira guerra mundial de cócegas na tua barriga!
- Ahm... desculpa desiludir-te, mas acho que não iam ter muita sorte numa guerra contigo como comandante. Já te esqueceste que não tenho cócegas?
- Ah ah ah, que piadinha que nós temos.

Ele agarra-me pelas pernas e põe-me no seu ombro.

- Filipe, detesto isso, põe-me no chão!
- Se não o quê?
- Chateio-me a sério! - Apalpo-lhe o rabo quando lhe digo isto.

Ele pousa-me.
-Sua marota!
- Tenho de tomar medidas drásticas em relação a ti!

Ele ri-se. E continuamos a caminhar nessa tarde, conversamos, brincamos, comemos gelados, insultamo-nos... o costume. E as saudades que eu tinha disto!

O sol põe-se e ele leva-me a casa, despedimo-nos com dois beijinhos e eu saio do carro.

- Cuida-te, linda!
- Obrigada pelo dia, querido!
- Adoro-te milhões!
- E eu adoro-te mais!


Entro em casa e desta vez a escuridão não me abalou. Desta vez, estou a lutar contra a escuridão existente à minha volta. E sinto-me muito bem!