Saio da empresa em direção ao restaurante. O telemóvel toca, tiro-o da mala. É o Filipe.
- Olá.
- Não disse. É no restaurante ao fim da rua, o que costumávamos almoçar às vezes. Porquê?
- Porque queria ver-te e dar-te um beijinho. Estou a trabalhar aqui perto e assim aproveito.
- Uhm...estou a chegar, estás onde?
- Já cá estou.
- Está bem. Até já. então. Beijo.
- Beijo.
Chego ao restaurante, abro a porta e procuro pelo Filipe. Não o vejo mas em contrapartida, reparo no Nuno lá ao fundo. Ele está sentado, a olhar para o telemóvel como que a ver as horas.
- Ohh! Tão triste que ele está! Anima-te, homem, já cheguei!
Ele ri, levanta-se e cumprimenta-me.
- Como estás?
- Bem e tu?
- Também.
- Mesmo? - Insisto eu.
- Sim, mesmo.
- Certeza?
Ele lança-me um olhar chateado.
- Pronto, tem calma! Não me mates com esse olhar à "El Matador". Já pediste?
- Não, querida, estava à tua espera.
- Podes pedir. Eu como o mesmo que tu. Desculpa, mas tenho de fazer um telefonema.
- Claro.
Pego no telemóvel e ligo ao Filipe.
- Estás onde?
- Atrás de ti.
- Estavas onde? - Pergunto.
- A falar com o gerente, é um conhecido meu.
- E vieste almoçar com quem?
- Com ninguém. Aliás, já almocei. Só vim aqui falar com ele e aproveitei para te ver.
- Ahm... Ups, cabeça a minha.
Viro-me, e olho para o Nuno.
- Filipe, Nuno. Nuno, Filipe.
O Nuno levanta-se e aperta-lhe a mão.
- Prazer, mais uma vez.
- Sim, tem que ter mais cuidado, rapaz.
- Você também estava distraído com o telemóvel.
- Sim, a ligar aqui para a Dama. - Diz o Filipe, apontando para mim.
Fico confusa com toda aquela conversa paralela.
- Não se preocupem, eu nem estou aqui... Querem que vá pedir umas velas e fazer um jantar romântico por aqui? Digam lá se estou a mais...
Eles param de falar, olham simultaneamente para mim e começam a rir, e ficam assim cerca de um minuto.
- Não, a sério, não se incomodem. Estejam à vontade. Alguém se digna a explicar-me o que se passa?
E riem mais uma vez, sentando-se frente a frente.
- Aiii! Estou feita com vocês.
Sento-me, ficando ao lado de ambos. Cruzo os braços em forma de protesto e fico ali olhando de um lado para o outro enquanto eles se riem da situação, que até agora, ainda não entendi.
- Há pouco chocamos um com o outro. Não sabíamos nós, que estávamos aqui pela mesma pessoa. - Diz, finalmente, o Nuno.
- Ahm... De certeza que não se conheceram no bar de strip que frequentam todas as noites?
O Filipe dá-me uma chapada leve na testa.
- Parva!
- Hey! Bem, não sei quanto a vocês, mas eu estou com fome.
- Pedimos? - Pergunta o Nuno.
- Sim. Ficas para almoçar? - Pergunto eu ao Filipe.
- Já almocei, tonta. Só vim mesmo dar-te um beijinho.
Ele levanta-se, dá-me dois beijos e cumprimenta o Nuno com um aperto de mão.
- Prazer. Haveremos de combinar outro dia, tenho de saber se é uma boa influência para andar tanta vez com a minha menina.
- Quando quiser. - Responde o Nuno.
O Filipe afasta-se, saindo do restaurante.
Fazemos o pedido e comemos enquanto conversamos.
- Vejo que o ... - Falta-lhe o nome.
- Filipe. - Ajudo-o.
- Sim, isso. Vejo que o Filipe é próximo a ti.
- Vês bem. E verás cada vez mais ao longo dos dias.
- Uhm, e tenho de me preocupar em relação a ele?
- Como assim?
- Então, se ele é uma espécie de concorrência...
Páro de mastigar e quase me engasgo.
- Uhm...Não. Ninguém consegue superá-lo, logo nem vale a pena fazeres-lhe concorrência. É o meu melhor amigo, o meu maninho de coração.
- Entendo. Parece-me ser um bom rapaz, e vê-se que gosta bastante de ti.
- O sentimento é mútuo.
- Muito bem. 'Bora' fazer um jogo?
- Como assim?
- Para nos conhecermos melhor. Tu perguntas-me o que quiseres, eu respondo e depois pergunto eu.
- Qualquer pergunta?
- Sim, qualquer uma.
Por acaso é um jogo interessante. Descobri que a cor favorita dele é o azul, tal como a minha. Descobri o número favorito dele, o signo, o dia de aniversário, o seu animal favorito, entre outras coisas.
- Que tipo de mulher te atraí? - Pergunto-lhe. Ele hesita um pouco e responde.
- O teu tipo.
Fico sem resposta e coro um pouco. Ele continua o jogo.
- Irmãos, tens?
- Sim, dois, um rapaz e uma rapariga. E tu?
- Uh, mais velhos ou mais novos? Tenho um, mais novo.
- Ela é mais velha e ele é da minha idade, somos gémeos.
- E nomes? Tenho que ir preparado para quando conhecer os meus cunhados.
- Ahahah, a preparar terreno?
- Claro, primeiro conquisto a família, depois conquisto-te a ti.
- És muito crente, tu. - Sorrio. - Ela chama-se Ana e ele Gonçalo. E o teu?
- João.
O telemóvel dele toca em simultâneo com o meu. Sorrimos.
- É o trabalho, vamos andando. Continuamos depois. - Digo-lhe pegando na mala e levantando-me.
- Olha que não me esqueço, princesa.
- Nem eu te deixo esquecer, princípe.
Ele fica surpreendido com a mudança de resposta vinda da minha parte. Saímos do restaurante e ele leva-me até à minha empresa, apesar da sua ficar em sentido contrário e ele estar atrasado. Chegamos.
- Não precisavas ter-me acompanhado, já estás atrasado.
- Mais 10 minutos não matarão ninguém. Além disso não tenho culpa que contigo o tempo passe a voar.
Sorrio e baixo a cabeça como quem não tem resposta e prefere ficar em silêncio. Ele põe a mão no meu queixo e levanta-me a cabeça. tira-me o cabelo que escondia, em parte, os meus olhos e puxando-me pela cintura contra o seu corpo, beija-me. Algo intenso, caloroso, indescritível. Desta vez, não há nenhuma onda que me traga de volta à realidade. Porque esta, é a realidade. E é uma realidade bastante agradável.

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