sábado, 9 de junho de 2012

Parte # 6

Foi uma noite muito bem passada. Dormi bem, como já não fazia à muito tempo. E tudo graças às pessoas que me querem bem e que me demonstram isso, várias vezes, mesmo que eu não repare.
O que estraga é o facto de hoje ser segunda-feira e ter de ir trabalhar. Mas pronto, pode ser que não seja assim tão mau. Pego no telemóvel para ver se alguém se lembrou de mim. Não, ninguém o fez. Pouso-o, sento-me na cama e espreguiço-me um pouco. Bip Bip. Só podem estar a brincar...SMS recebida.

"Bom dia, princesa. Bem disposta nessa segunda-feira? Aposto que ainda não saíste de casa, está um dia maravilhoso. Mas tem cuidado, o sol pode ficar com inveja do teu brilho natural. Almoçamos juntos?
Beijo, N."

É incrível como uma simples mensagem pela manhã pode mudar as coisas, depois de saber que era impossível ficarem melhores.

"Bom dia, sapinho. Não precisas ser querido e mandar piropos para conseguires um almoço comigo. Aceito o convite. Sitio e hora?
Beijo, S."

Pouso o telemóvel e vou preparar o banho. Enquanto a água fica a correr, volto ao quarto para preparar a roupa. O mesmo dilema de sempre...O que vou vestir hoje? Penso nisso quando estiver no banho. Mas nem isso.
Penso em tudo o que se passou nestes últimos meses. As pessoas que conheci, as que já conhecia, as que me deixaram e as que eu permiti que isso acontecesse. Tantas pessoas, tantas personalidades, tantos nomes e tantas faces, e de repente, por mais importantes que sejam, desaparecem para darem lugar a outras. Quem sabe também estas desaparecerão, mas enquanto isso não acontece, ficarei presente para elas, como elas para mim.
Sentimentos que me consomem. Amores que me cansam. Amizades que me surpreendem. Pessoas à volta. Coisas a acontecerem. E o que fazer?
I’m tired. I can’t continue with it.
Ao acordar, pela manhã, tudo está uma maravilha e as pessoas me fazem rir, sinto-me bem. Quem não se sentiria? Mas ao cair da noite, às vezes, sinto-me sozinha, as coisas parecem não fazer sentido. Pessoas que estão comigo passam a não fazer diferença, passam a não ter importância. Começo a perguntar o por quê. Está tudo fora de controle e eu não estou acostumada com isso. Assustada é a palavra certa para mim, mas de repente, vejo-me confusa. E não sou a única a me sentir assim. Milhares se sentem. Como tu, por exemplo. Sempre tiveste o controle não é? Acostuma-te. You’re a just ordinary person. This happen all the time.
Terás de fazer escolhas. A vida é feita de escolhas, tu sabes, só não queres encarar a realidade. So many dreams, so many plans. Mas nada sai como planeado, temos que fazer algumas mudanças. Mudar é uma forma de crescer. Algo que levarás para a vida, sempre, é que perdemos e ganhamos. Não temos tudo nas mãos. It’s time to grow up. Desprende-te do passado. Encara as dificuldades. E conforma-te, as pessoas sempre vão te decepcionar, e tu irás sempre decepcionar alguém, mesmo que não o percebas. Irás surpreender-te até com pessoas que não consideras amigas. É assim que irás perceber e conhecer as melhores pessoas, os lugares, momentos da tua vida.
Começa por hoje. Pratica o desapego. Acaba com certos vínculos. Começa a pensar em ti, a tentar manter-te bem. Sentires-te mal só piorará as coisas. Esquece o que os outros pensam. O que importa é o que te deixa feliz, o que te faz bem. E encara isso como algo bom, porque é bom. Uma vez alguém disse que: “As dificuldades só vêm para quem consegue superá-las.” E é verdade. Vais superar, eu sei. Lembra-te de todas as pessoas que passaram pela tua vida, tudo o que já aconteceu nela. Mas muda tudo. Change, go ahead.

Estou a aceitar o facto de que o homem certo não chegará numa carruagem, limosine, cavalo branco ou pousará de helicóptero onde eu estou. Ele irá andar meio mundo a pé para me ver, se ele realmente me amar. Não precisará de um ramo de rosas para me impressionar, apenas uma rosa me levará ao céu. Então conformo-me: a minha vida pode ser muito melhor e mais romântica do que um conto de fadas.

Acordo, do pouco tempo que estive a sonhar. Saio da banheira, e preparo-me. Coloco a bolsa de maquilhagem na mala, vou ao quarto para fazer o mesmo com o telemóvel, mas nisto, ele toca.

- Sim?
- Olá boneca. Bem disposta?
- Sim e tu, peluche?
- Também. Almoçamos hoje?
- Uhm... Já tenho um almoço combinado.
- Ai é assim? Andamos tão ocupadinha que nem tempo tens? Está bem, está bem. - Diz ele num tom ofendido.
- Ó, não sejas assim! O Nuno convidou-me hoje. Fica para amanhã?
- Estou a ser trocado? Sinto-me traido, ainda por cima por um fulano que nem sequer conheço!
- Cala-te, parvo!
- Estou a brincar, tonta. Então tem um bom dia e um bom almoço, diverte-te. Beijos.
- Obrigada, Filipe. Beijinho.

 Saio de casa e entro no carro. 20 minutos e chego à empresa. Vejo o Francisco - colega de trabalho - no parque de estacionamento.

- Bom dia, Sofia.
- Bom dia! Tudo bem?
- Passou-se alguma coisa que eu não tenha dado por isso?
- Sim, ontem à noite a tua família veio cá buscar-te, num OVNI e agora reparei que não o fizeram. Ai ai essa minha triste vida. - Digo, sorrindo para que ele perceba que só estou a brincar.
- Não é que os teus "insultos" me animem, mas lá que já tinha saudades dessa tua boa disposição, ai isso tinha. Ganhaste o euromilhões?
- Se isso acontecesse, achas que estaria aqui neste momento, para começar a trabalhar daqui a 5 minutos? Bem, se calhar até cá vinha, para te provocar com um monte de notas na mão.
- Que má!

Caminhamos até aos escritórios.

- Como está a Matilde?
- Está bem, obrigada por perguntares.- Ele sorri.
- Que sorriso foi esse? - Pergunto-lhe curiosa.
- Nada. Não quero criar falsas expetativas e depois desiludir-me.
- Ui, sabes que sou curiosa, não sabes?
- Sei.
- Então chiba-te!

Neste momento o patrão chega.

- Que rica vida! Devemos ser das únicas empresas que todos se dão bem, mas trabalhar, zero.
- Fala o Senhor-Doutor-Chefe-que-só-sabe-mandar-e-queixar-se! -  Rio-me.
- Vê lá as confianças! - Responde-me ele despenteando-me.
- Eh, já devia saber que o cabelo, não!
- Por isso mesmo é que o faço. - Diz ele, afastando-se e a sorrir.

Sento-me na minha secretária e organizo as coisas. Ligo o computador. Olho para o Francisco que está na secretária ao lado.

- Eh, não te safas da conversa de à pouco.
- Que conversa? - Diz ele.
- Eu não nasci ontem, ó! Já devias saber que sou muito curiosa e teimosa.

Ele levanta-se, puxa a sua cadeira para o lado da minha e sussurra:

- Isto não sai daqui, ok?
- Sabes que podes confiar.
- A Matilde acha que está grávida. Mas ainda não temos certeza de nada, por isso é que não queria dizer.

Não me controlo e quase com um grito, digo:
- Vais ser pai?!
- Chiu! Fala baixo! - Continua ele a sussurrar.
- Desculpa. Ohh estou tão feliz por vocês!! - Sussurro enquanto abraço-o.

Ele levanta-se e agradece-me com um sorriso. Viro-me para o computador e começo a digitar.
Imprimo, levanto-me e entrego o trabalho ao Francisco.
- Podes terminá-lo? É a tua parte.
- Ok, obrigada.

Olho para o relógio e vejo o quão depressa o tempo passou. Hora de almoço, vou ligar ao Nuno. Pego no telemóvel e já lá tinha uma chamada dele. Ligo-lhe de volta.

- Olá, princesa.
- Olá, Sapinho. Não me respondeste à ultima mensagem.
- Desculpa, trabalho.
- Entendo. Encontramo-nos no restaurante ao fim da rua?
- Sim. Até já, beijinho.
- Beijo.

Preparo-me e saio do escritório, desejando bom almoço ao Francisco, quando ele saísse.
Enquanto isso, no restaurante, um indivíduo entra e caminha para a mesa junto da janela, está distraído e bate contra outro homem que se encontrava em pé, a teclar no telemóvel.
- Desculpe. Estava distraído.
- São coisas que acontecem, não se preocupe. - Ele levanta a mão, para darem um aperto de mãos e esquecerem o sucedido.
- Já agora, Filipe Lopes.
- Nuno Silva. Mais uma vez, desculpe.

Ele afasta-se e senta-se na mesa junto à janela, enquanto espera.

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