Cheguei cerca de 20 minutos mais cedo, porque detesto esperar, e faço com que as pessoas também não passem por isso. Sentei-me, pedi uma água e uma sandes enquanto esperava. Passou-se 10 minutos e o meu pedido, chegou. O empregado pousou-o em cima da mesa.
- Desculpe, está sozinha?
- Teoricamente, sim. Estou à espera de uma pessoa.
- Se não for saber demais, homem ou mulher?
- É saber demais. - Mandei-lhe um olhar e um "meio-sorriso" como que a dizer que já se podia retirar. E ele assim o fez.
Eram exatamente 15h:00. Olhei à minha volta e o bar estava um pouco vazio. Um casal sentado ao fundo a conversar, uma mulher um pouco mais perto de mim, a falar ao telemóvel, um outro sujeito a ler o jornal no outro lado. A decoração do bar, não é muito proporcional ao local em si. Mas em geral é um sitio bastante agradável. 15h:10. Começo a dar suspiros enquanto olho para o relógio. Volto a "bisbilhotar" a vida das pessoas, para me entreter. O casal lá ao fundo já não conversam, comem as refeições que lhes foram apresentadas à frente. Uma vez ou outra, olham-se. Com um olhar tão apaixonado que se nota de longe. E só eles percebem aquele olhar. A mulher, mais perto de mim, já não está em chamada mas responde a uma ou outra SMS enquanto ri para o ecrã. Como eu a entendo. Saudades daqueles dias em que eu recebia uma SMS, com as palavras certas, da pessoa certa. Vejo que o "bisbilhotar" da vida dos outros está-me a deprimir e volto à realidade. Olho para a porta e nada de ela aparecer. Mais 5 minutos e vou embora.
Olho para o balcão e o empregado que me atendeu está a sussurrar com um sujeito que aparenta ser cliente. Este, tem um estilo muito próprio: Veste umas calças de ganga, um camiseiro e um blazer, acompanhados de uns sapatos de vela castanhos. (Adoro ver um homem assim vestido!) Aparenta ter cerca de 25/26 anos. Enquanto sussurram, olham para mim. Espero que seja apenas impressão minha. Infelizmente, não é.
O sujeito em frente ao balcão, aproxima-se. Levanto-me para ir embora e simultaneamente ele agarra-me no braço.
- Espere, não vá. Podemos falar? - Diz o desconhecido.
Milésimos de segundo depois, alguém apoia a mão no meu ombro. Não sei para onde deva olhar, não sei o que pensar, o que dizer. Porque decidiu tudo tocar-me naquele momento? Sinto a mão do desconhecido a agarrar-me no braço, outra mão a tocar-me no ombro, que até ao momento, não sei de quem é. Desvio o olhar do desconhecido e tento descobrir quem é a ultima pessoa. Suspiro. É a Laura.
Olho para o desconhecido, solto o meu braço e digo:
- Desculpe, conhece-me?
- Não...mas pod... - Tenta ele dizer, mas interrompo-o.
- Exato. Não me conhece. O que deseja? Seja rápido.
- Podemos conversar, só os dois?
- Não me parece. Fique bem.
Afasto-me agarrando a Laura pelo braço. Fomos para a esplanada do bar, para nos afastarmos daquele ambiente lá dentro.
- Podes explicar-me o que acabou de acontecer ali? Porque é que aquele "gato" estava a agarrar-te no braço? E porque é que eu não o conheço? - Ela esmaga-me com mil e uma perguntas.
- Calma! Antes de mais, sabes perfeitamente que detesto ficar à espera. Cerca de meia hora!
- Desculpa, atrasei-me.
- Jura...
- Mas vá, esquece. Quem é o giraço?
- Não sei.
- Não sabes? Como assim?
- Sabes tanto quanto eu. Ele puxou-me pelo braço porque eu já ia embora porque estava farta de esperar por ALGUÉM. E como ouviste na breve conversa que tive com ele, ele queria falar comigo em particular.
- E não foste por alma de quem? Nunca ouviste dizer que oportunidades como estas só acontecem uma vez?
- Oh, cala-te. Continuas a mesma vadia de sempre! - Rio-me e ela mostra-me o dedo maior, como que a mandar-me para outro lado, nada bonito.
Ela levanta-se para ir buscar qualquer coisa ao balcão.
- Queres alguma coisa?
- Não. Já comi. Mas vais lá porquê? Podes chamar o empregado.
- Ah...está bem, com sorte vem cá o giraço.
Lanço-lhe um olhar de raiva e ela quase que corre lá para dentro.
10 minutos depois e volta.
- Tanto tempo só para pedir um café?
- É, pois...um café.
Conversa puxa conversa, falamos de diversas coisas. O que mudou, o que não mudou, o que fizemos sem a outra. Até que ela lembra-se de me falar do Pedro. Fala e fala e fala e eu ali à procura de um buraco.
- Já chega! Sabes que estou mal com tudo isto, que é tudo recente e estás a tocar na ferida?
- Oh minha linda, desculpa! - Ela levanta-se e dá-me um abraço. Que nostalgia daquele momento, aqueles abraços calorosos e sentidos que só ela sabe dar! Não aguento e desmorono-me.
- Ehh!! Nada de lágrimas, vá! És linda, porquê estragar isso? Ele nunca te mereceu. É um otário que não deu valor à mulher mais preciosa do mundo. Nenhum homem será uma sorte para ti. Sorte é alguém ter-te ao seu lado. E olha a sorte que eu tenho agora!
Não consigo dizer nada, apenas entregar-me aos seus braços e desfrutar, por mais uns momentos daquele abraço, que já não sentia há bastante tempo.
Por fim, afasto-me. Ela escreve qualquer coisa num papel e entrega-mo.
- Está aqui um site, onde podemos conhecer diversas pessoas. Eu sei que não gostas destas coisas, mas tenta. Far-te-á bem. E quem sabe, ao conheceres pessoas novas, distrais-te e esqueces o "gajo".
E é aí que tudo começa: "O que faço aqui?".
Segui o "fabuloso" conselho da Laura e inscrevi-me no site. Conheci uma pessoa que aparenta ser divertida, dona de uma personalidade única. Depois de algumas semanas de troca de e-mail's, decidimos marcar um encontro. E aqui estou eu...
Já estou a remoer o juízo e a tentar descobrir as respostas, mas só me aparecem mais e mais perguntas. "Que raio me passou pela cabeça? Sofia, tu não eras assim, o que mudou? Não podes confiar nestes sites, sempre soubeste isso! Iludes-te e depois queixa-te!"
Uma voz masculina interrompe todos os meus pensamentos.
- Olá, Sofia.
Levanto a cabeça que estava apoiada nas minhas mãos, olho para os sapatos de vela, amarrados de forma perfeita. Enquanto me levanto para ver a cara que completa aquela voz doce, máscula e simultaneamente cristalina, a minha boca abre-se em forma de espanto. Não pode ser. Não respondo. Continuo ali, paralisada, incrédula. Ele interrompe o silêncio:
- Sou assim tão diferente daquilo que imaginou?
- Uh...não...uh... - As palavras falham-me.
- Não sabe o quanto custou estar a falar consigo durante estas semanas e não poder dizer-lhe quem sou.
- Então, isso não é uma coincidência?
- Não. A Laura deu-lhe o site, porque quando ela foi pedir o café, combinou comigo isto.
A Laura... Odeio-a tanto neste exato momento. Não sei eu que ela afinal, não fez nada de errado.
- Não me dê com os pés como no primeiro dia que nos encontramos. Por favor.
Suspiro e respondo:
- Recomecemos então. Sofia Bonito e o prazer é todo seu. - Levanto a mão para cumprimentá-lo.
- Nuno Silva. Tem toda a razão, o prazer é todo meu. - Ele agarra-me na mão, puxa-me para si e cumprimenta-me com dois beijos.
- Se tem amor à vida, não volte a fazer isso. - Digo-lhe.
- Eishh, atrás do monitor, eras mais amorosa.
- Porque eu não sabia que estava a ser enganada.
"Quando tudo nos parece dar errado, acontecem coisas boas que não teriam acontecido, se tudo tivesse dado certo." Renato Russo
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