domingo, 3 de junho de 2012

Parte # 1

            “O que faço aqui?” – É esta a pergunta que preenche todos os meus pensamentos. Porque me fui meter nisto? Nem parece meu. É certo que temos de conhecer pessoas novas, seguir em frente. Viver. Mas se nunca deu certo, porque haveria de ser agora que as coisas mudariam?
            Ontem resolvi colocar para trás das costas todo o meu passado. Colocar recordações, memórias, vivências, tudo fechado num cofre onde a chave foi se perdendo ao longo dos meus passos. Resolvi que tudo aquilo a que me prendi e que acabei por desprender, deveria não ser esquecido, mas sim guardado. Arrependo-me de algumas coisas, e como é óbvio nunca me esquecerei de nada do que vivi, nem das pessoas que conheci e, por breves momentos, marcaram-me. Mas está mais do que na hora de parar de viver no passado. Viver um dia de cada vez, passar mais tempo com que importa e com quem me faz feliz, fazer coisas de que gosto, ler, escrever, praticar desporto, caminhar. Conhecer pessoas novas? Sim, é normal, mas desta vez perdi mesmo a cabeça.
            Numa manhã de sábado, decidi aproveitar o pouco sol primaveril que ainda há uns dias, teimava em se esconder. Levantei-me, tomei um duche rápido e vesti um fato de treino confortável e saí para caminhar. Chegando ao Pavilhão do Mar, sentei-me numa esplanada e pedi uma água. Coloquei o telemóvel e o leitor Mp4 em cima da mesa, este último, decidi não o utilizar porque adoro o cantar dos pássaros e o murmurar do vento contra as árvores.
            Enquanto o empregado pousava na mesa o meu pedido, o meu telemóvel toca. Número não listado.
            - Sim? – Atendo curiosa para saber quem é.
            - Olá, Sofia. Como estás?
            - Bom, pelo que vejo, estamos em desvantagem, sabe o meu nome, mas eu não sei o seu.
            - Ok, passaram-se alguns meses, mas não reconheces a minha voz? Ai ai…
            A sério que não fazia a mais pequena ideia de quem poderia ser. Mas também, o que esperam? Que reconheça todas as pessoas que me deparo na rua, ou que cumprimento e memorize a voz conectando-a aos nomes e às caras? Automaticamente volto a alguns meses atrás e tento recordar-me de todas as pessoas com quem falei e que deixei de falar nos últimos meses; Era uma voz feminina, logo isso excluía metade da lista. A voz desconhecida interrompe-me os pensamentos:
            - A Laura! Esqueceste-te mesmo de mim?
            - Ahh, olá Laura! Não me esqueci. Pelos vistos, tu é que mudaste de número e ao que parece, sempre tiveste o meu.
            - Queres combinar um café?
            - Muito boa maneira de fugir ao assunto. – Digo eu, num tom sarcástico.
            - Oh, vá lá Sofia, não sejas assim. Hoje à tarde?
            - Está bem. Sítio e hora?
            - Às 15h:00 no Bar Mitolândia, na Ribeira Grande.
            - Lá estarei.

            A Laura era a minha melhor amiga na faculdade. Eu tirei formação para inspectores estagiários da Polícia Judiciária, e ela tirou medicina forense. Apesar, de serem cursos distintos com horários distintos, sempre que possível, andávamos juntas, falávamos sobre o futuro, em como eu, dentro da Polícia Judiciária, ia para o departamento de homicídios, e ela seria a médica legista. Éramos. Tanto quanto sei, ela deixou o curso a meio por causa de um “amor”. Eu disse-lhe que era o futuro dela que estava em jogo, visto ser um amor repentino. Mas ela trata da sua vida e eu da minha. Como sempre digo: Quer deixemos as coisas soltas ou as agarremos bem, tudo se quebra. A vida dá imensas voltas e muda diversas coisas que não era suposto mudar. Mas nós somos minúsculos para conseguirmos dizer, seja lá o que for, sobre isso. Só nos resta a aceitar e habituar-nos com as mudanças.

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