Um barulho irritante acorda-me pela manhã. Outra vez o raio da máquina eletrónica. Atendo. Uma voz familiar do outro lado, mas ainda não identificável.
- Bom dia, fofinha.
- Bom dia, Filipe.
- Eish, que voz de sono!
- Também.
- Também? Vá, levanta-te. Está um dia lindo e hoje decidi que o passaremos juntos.
- Não posso, eu... - Ele interrompe-me.
- Espera, será que eu perguntei se podias e não dei por isso? Reformularei a minha afirmação: Nós VAMOS passar o dia juntos, e não quero cá desculpas.
- Não mudaste nada. Está bem.
- Não mudei porque sei como é que tu és. Vá, despacha-te, estou quase aí.
O Filipe é, neste momento, o meu menino. É o meu melhor amigo, o meu "irmão" mais velho, mas às vezes, o mais novo. Não tem juízo nenhum, mas em contrapartida é o único que tem juízo o suficiente para me dizer as palavras certas. Mesmo que me magoem, mesmo que não sejam as palavras que eu queira ouvir, ele faz-me abrir os olhos e perceber que as coisas más, só servem para darmos valor às boas. É aquele rapaz que toma conta de mim, e vice-versa.
Sem vontade nenhuma, levanto-me e vou tomar um duche para acordar mais rápido. 15 minutos depois a campainha toca. Pego na toalha e enrolo-a no meu corpo. Desço as escadas a resmungar comigo própria, enquanto a campainha farta-se de tocar. Abro a porta.
- Então? O que pode ser assim tão urgente? A campainha não fez mal a ninguém. - Digo eu num tom chateado.
- Hey! Mais um pouco e recebias-me com um murro. - Diz ele.
- Fiquei seriamente a pensar nessa possibilidade, mas ias ficar em muito mau estado e decidi poupar essa tua carinha linda. - Finjo uma ligeira tosse, como se aquilo que tivesse dito não fosse, de todo, a verdade.
Ele entra e senta-se no sofá. Eu fecho a porta e digo num tom irónico:
- Entra, põe-te à vontade. Ah, espera, já trataste disso.
- Cala-te parva e vai mas é arranjar-te. Isto são maneiras de se receber visitas?
- Se tu não estivesses decidido a dar cabo do mundo, com a poluição sonora que fazias com a minha campainha, eu teria me arranjado. E olha lá posso saber porque não recebi nenhum abraço e nenhum beijo?
- Porque tu estás só de toalha e sabes que contigo, é difícil me controlar. - Diz-me ele a brincar.
- És parvo! Vá, já volto.
Subo rapidamente as escadas enquanto olho para ele e lhe faço caretas. É incrível o quão bem nos damos, estamos sempre a brincar, sempre a picar-nos e escusado será dizer que é das únicas pessoas que consegue de mim, sorrisos sinceros.
Grito-lhe:
- Ó gajo, vamos onde?
- Não te interessa! - Responde-me ele com outro grito.
- Mas eu tenho de saber! Assim, visto o quê?
- Desculpa? Mas ainda não estás vestida? Vais me obrigar a subir?
Neste momento desço as escadas, com umas calças de ganga escuras e justas, um top branco com um padrão floral em vários tons de rosa e umas sandálias de salto alto brancas.
- Hey, tenho uma irmã toda gira e boa e ninguém me avisou?
- Cala-te, tonto. Posso receber agora o abraço?
Ele abre os braços e sorri. Como eu tinha saudades daquele sorriso... Fechei-me de tal forma, que esqueci aquilo que realmente gosto. Aqueles olhos meigos, aquele sorriso carinhoso, aqueles braços reconfortantes. Salto-lhe para cima e ele quase me esmaga num abraço. E eu adoro ser esmagada por ele. Quase me emociono por perceber o quão estúpida fui por não ter dado valor a isto.
- Ena, eram tudo saudades? - Pergunta-me ele.
- Nem tu imaginas o quanto! - Afago-lhe o cabelo, despenteando-lhe.
Saímos e eu tranco a porta.
- Vamos onde?
- Antes de mais, vais tomar o pequeno almoço.
- Vou?
- Não. Vamos.
Sentamo-nos numa esplanada. Ele senta-se à minha frente, pousa o telemóvel em cima da mesa e olha-me fixamente.
- O que foi? - pergunto-lhe, curiosa.
- Isso pergunto eu. O que se passa contigo? Não me ligas nenhuma à dias, não sais, estás sempre em casa, só sais para trabalhar. Tu sorris, e mesmo que não sejam dos teus melhores sorrisos, são sempre sorrisos, mas nunca felizes. Os teus olhos demonstram aquilo que passas e sabes que eu os conheço. Tens um sorriso maravilhoso. E adoro quando sorris com os lábios e com o olhar. O que se passa?
Baixo a cabeça para a lista no Menu e neste momento o empregado chega.
- Já escolheram?
- Sim. Dois cafés com duas sandes mistas e um chocolate, por favor.
- É para já.
O empregado afasta-se. O Filipe levanta-se e senta-se ao meu lado.
- Sofy, podes falar comigo.
- Mas o problema é que não sei o que dizer exatamente, é tudo tão confuso.
- Eu percebo. E já te disse imensas coisas sobre isso, não podes te deprimir assim.
- O Pedro ligou-me, ontem à noite. - As palavras quase que ficam presas na minha garganta.
- O que quer esse gajo agora? Já não fez estragos suficientes?
- Pelos vistos está arrependido e quer voltar.
- Isso é não ter amor próprio. Linda, não te iludas outra vez. Ele não merece nem um terço das tuas lágrimas, quanto mais o teu todo.
- O pior é que aquilo que sinto é tão intenso, tão gigantesco que me dá medo. Medo que não tenha força suficiente para ultrapassar e seja estúpida ao ponto de lhe dar outra oportunidade.
- É que nem penses! Se não tens força, eu dou-te a minha, mas iludires-te para voltar a sofrer, eu não deixo. Existem pessoas que nem a primeira oportunidade merecem, quanto mais a segunda. Quero que vejas em mim um porto seguro, um amigo
confiável. Quero que desabafes comigo e chores num abraço meu. Porque é
para isso que servem os amigos. Mesmo que não suportes a minha voz, ou
que num desses momentos não queiras ouvir nada, eu escuto-te em silêncio.
Porque acima de tudo, respeito-te e gosto imenso da pessoa que és. Não
dessa que está à minha frente, mas aquela, que num ou dois momentos,
consegue esquecer tudo e vive sem pensar em nada.Quero que sorrias, mesmo que a tua maior vontade seja chorar. Quero que chores, mas de felicidade! Eu adoro-te, miúda.
Odeio quando ele me chama isso. Odeio mesmo. Mas nesse momento só quero a companhia dele, só quero "morrer" por uns minutos no abraço dele. E numa questão de frações de segundo, ele abraça-me, como se me estivesse a ler os pensamentos.
O empregado interrompe-nos, deixando o pedido em cima da mesa.
- O chocolate é para quem?
- Para a menina. - Diz o Filipe apontando com a cabeça para mim.
Adoro chocolate e ele, melhor que ninguém, sabe disso.
Eu sorrio e dou-lhe um beijo suave na face. Ele segura-me na mão, como que a dar-me força e parece que consegue. Sorrio, mas desta vez é mesmo sincero.
Comemos e entre uma e outra conversa, ele conta-me o que tem feito nestes dias, com quem tem saído, etc.
- Mas chega de falar de mim. E tu, para além de trabalhar? - Pergunta-me ele.
- Uhm... Conheci uma pessoa à uns meses. - Digo-lhe enquanto dou uma dentada na sandes.
- Uiii...esse brilho nos olhos agora...Conta!
- Oh, ainda estamos a conhecer-nos, e ontem enquanto passeávamos pela praia, entre uma ou outra brincadeira acabamos por nos beijar.
- Deixa-me adivinhar... isso assustou-te e foste para casa, refugiar-te.
- Exato. Foi um momento estúpido meu, mas depois disto ele disse-me algumas verdades, que apesar de tudo, são verdades que eu sempre soube e que não queria ver. Ele é uma pessoa maravilhosa e não quero magoá-lo.
- Eu percebo. Mas não te feches, Sofia. Se ao falares dele, já vi esse brilho nos teus olhos, continua a conhecê-lo. Sai com ele, diverte-te. Aprende a gostar de ti e quando estiveres preparada, e se ambos o permitirem, aprende a gostar dele. Mas por favor, promete-me que não deixarás mais nenhum gajo fazer-te sofrer.
- Quando estou com ele, sinto-me bem, a sério. E por momentos, esqueço-me de todos os problemas.
- Promete.
- Prometo, chato!
Ele responde-me com um sorriso, agarra-me na mão, põe uma nota em cima da mesa e puxa-me para fora da esplanada.
- Quero conhecer esse Nuno. - Diz-me ele enquanto caminhamos.
- Porquê e para quê?
- Para ver quais são as intenções dele para com a minha menina.
- Andamos protetores agora?
- Sempre fui o teu Anjo Protetor, ora admite!
- E se não o fizer?
- Começo uma terceira guerra mundial de cócegas na tua barriga!
- Ahm... desculpa desiludir-te, mas acho que não iam ter muita sorte numa guerra contigo como comandante. Já te esqueceste que não tenho cócegas?
- Ah ah ah, que piadinha que nós temos.
- Filipe, detesto isso, põe-me no chão!
- Se não o quê?
- Chateio-me a sério! - Apalpo-lhe o rabo quando lhe digo isto.
Ele pousa-me.
-Sua marota!
- Tenho de tomar medidas drásticas em relação a ti!
Ele ri-se. E continuamos a caminhar nessa tarde, conversamos, brincamos, comemos gelados, insultamo-nos... o costume. E as saudades que eu tinha disto!
O sol põe-se e ele leva-me a casa, despedimo-nos com dois beijinhos e eu saio do carro.
- Cuida-te, linda!
- Obrigada pelo dia, querido!
- Adoro-te milhões!
- E eu adoro-te mais!
Entro em casa e desta vez a escuridão não me abalou. Desta vez, estou a lutar contra a escuridão existente à minha volta. E sinto-me muito bem!


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