Silêncio. Não era aquilo que se passava pela minha cabeça, porque na verdade não conseguia pensar em nada. Mas silêncio era o que se passava naquele momento. Um silêncio absurdo, matador, sufocante. Num milésimo de segundo, a minha mente parecia uma estação de comboios, mas neste caso, avariados. Pensamentos grandes, pequenos, quentes, frios. Pensamentos de todas as formas e feitios. O silêncio apodera-se de mim. Não conseguia organizar a minha mente, não conseguia pensar em nada em concreto. O que se passava comigo? Teria eu me fechado de tal forma que não soubesse de nada? Não me reconhecesse? Afinal, quem sou eu, neste momento? Quem sou eu, para a pessoa que se encontra ao meu lado? Quem sou eu, para as restantes pessoas? Voltamos ao mesmo. Demasiadas perguntas para nenhuma resposta. O silêncio sufoca-me. Felizmente o Nuno consegue ser, mais uma vez, a minha base.
- Desculpa. - Diz-me ele num tom quase inaudível.
- Não tens de pedir desculpa de nada. As coisas acontecem, e ambos permitimos que isto acontecesse.
- Sendo assim, posso saber porque é que te fechas demasiado?
- Estás a falar do quê? - Digo eu, fingindo não perceber.
- Sofia, eu não nasci ontem. Já nos conhecemos a tempo suficiente para eu saber quando estás bem ou não. E acho que nesse tempo, já está mais do que na hora de perceberes que não tenho um T de "Tolo" escrito na testa.
Ele pára o carro em frente à minha casa e continua a falar.
- Fechaste-te por alguma coisa que te magoou, ou melhor, uma pessoa que te desvalorizou e com isso criaste várias barreiras à tua volta. Já destruí algumas delas, não as mais fortes, porque não me permites. Não te peço que me contes o que se passou, porque sei que isso te magoaria mais ainda, e isso é algo que não quero. Mesmo que não esteja dentro do assunto, nem que saiba exatamente aquilo que aconteceu, quero que saibas que estou aqui, para o bem e para o mal.
Estou contigo quase todos os dias, tentar fazer-te sorrir, fazer com que te conheça cada vez mais. Tu não facilitas e eu não sou de desistir facilmente, mas assim não me resta outra forma. Sofia, eu não te quero fazer sofrer, muito pelo contrário. O teu coração devia ser como um espelho, dá 7 anos de azar ao palhaço que o partir. Não te peço que mo deixes consertar. Mas deixa-me aproximar de ti, deixa-me conhecer-te melhor, saber o que gostas e o que não gostas. Deixa-me ser a tua base nestes momentos. Podes não querer um relacionamento sério, mas eu também não estou aqui para isso. Só te peço que vivas um dia de cada vez, está bem, princesa?
Os meus olhos enchem-se de lágrimas e não consigo pronunciar uma única palavra. E o pior, é que ele tem razão. Em tudo. E eu fui a única responsável, nunca deveria ter permitido que isto acontecesse.
Respiro fundo, dou-lhe um beijo suave na cara.
- Obrigada, Nuno. Obrigada por seres a pessoa que és, e por me conheceres melhor do que algumas pessoas chegadas. Desculpa por tudo.
Sorrio e saio do carro. Coloco a chave na fechadura e sinto o carro a arrancar.
Está escuro, e mesmo que eu acenda a luz ou que o dia chegue, continua a estar escuro como breu. Como é possível uma pessoa que me conhece à poucos meses, saber como estou e porque estou assim. Como? É inexplicável. Mas ele fez-me perceber muitas coisas. Tenho de ser forte e viver um dia de cada vez. Por uma pessoa em especial, e a única que neste momento importa: eu.
Coloco a água a correr na banheira, enquanto escolho um pijama confortável. Tomo banho, visto o pijama, escovo os dentes e o cabelo, e deito-me. Não que eu tenha sono, mas porque é a única coisa que me apetece fazer neste momento.
Oiço uma música. É o meu telemóvel. Prendo a respiração enquanto olho de soslaio para o pequeno ecrã ao lado da minha cama. Número restrito. O toque chega ao fim. Ignoro completamente a situação e procuro encontrar naquele negrume um refúgio. O meu acordo com o escuro acaba quando vejo o quarto a iluminar-se. O telemóvel toca mais uma vez, mas agora, pego-o. Olho para o ecrã. Os meus olhos embaçados não me permitem reconhecer o número, mas logo decifro o nome. Pedro. Atendo, mas nada falo. Não tenho forças para isso. Sempre gostei da maneira como ele respirou ao telefone, contemplando o silêncio, como quem não quer nada e conquista tudo.
- Como estás? - a sua voz soa ao meu ouvido como um punhal no meu coração.
(Como achas? Faz meses que não encontro nenhuma base aconchegante e não sei o porquê disso estar a acontecer. A tua afeição em relação a mim parece que se dissipou. Ressalto que falta de indivíduos nunca foi um problema, mas talvez, neste caso, o problema tenha sido a falta de amor que eu nunca faltei contigo. Como fico bem, ao saber que a pessoa que eu mais dediquei o meu amor foi-se embora, demonstrando ser tão fácil para si próprio, como não foi, nem um pouco fácil para mim?)
- Estou bem. - Tento ser breve para não desmoronar. A minha voz não parece convincente, mas é só o que consigo emitir, pois é mais fácil dizer que estou bem, do que explicar todas as razões para não se estar. Apesar de ele as saber.
- Sei que não estás. - Odeio nele, essa maneira desgraçada de chegar de mansinho na minha vida e monopolizar cada pedaço do meu coração.
- Não devias te importar. - Sinto-me congelada com a minha própria frieza.
- Mas eu importo.me.
Silêncio. Todo o meu esforço de tentar manter as aparências, dissipa-se com as centenas de milhares de lágrimas que os meus olhos já deixaram cair.
- Ok. Compreendo que não queiras falar, mas peço que me escutes.
Ele fala.
O meu coração bate acelerado como se todo o amor que eu tanto lutei para afastar de mim, nunca se tivesse ido embora realmente. E na verdade...nunca foi.
Ele sempre teve jeito de poeta, mas as suas atitudes nunca comprovaram a sua essência, talvez, aí devesse estar o seu problema. Seu, que se tornou nosso. Que agora, é meu.
Quebro o meu silêncio e interrompo-o:
- O tempo não facilita a tarefa de trazer o nosso passado para o teu presente. Para o meu presente. Já não existe um "nós". O meu caminho continua alinhado, como sempre foi. O que mudou, é que agora ele está a acumular-se com obstáculos, com pedras que as pessoas, principalmente tu, insistiram por me oferecer. E agradeço por isso. Pois sem essas pedras, não saberia dar valor às coisas boas da vida. São elas que me fazem ultrapassar cada obstáculo.
(Fico orgulhosa de mim mesma por mostrar ser mais forte do que eu pensei. Contudo, sinto-me vazia de alma, oca de sentimentos).
- Eu conheço-te, bebé. Sei que tu esperaste durante estes meses, que eu te ligasse. Mas quando o fiz, pensaste em recuar e não atender. Não atenderes seria considerado um absurdo no ponto de vista sentimental.
(A voz dele desmorona-me, mais um pouco. Sinto-me fraca, sem forças.)
- É aquela história de desejar que a pessoa que quebrou o teu coração, conserte-o... - Sussurro, mas é quase inaudível.
- E eu quero consertá-lo, mas dessa vez, para nunca mais estilhaçá-lo. Deixa-me fazer-te feliz de novo, dessa vez, para sempre.
Silêncio. Talvez eu esteja mesmo a por em prática aquela teoria de "quem cala, consente." porque eu não tenho coragem suficiente para lhe pedir que se afaste de mim, por mais que seja o meu maior desejo... Ou melhor, a minha maior necessidade.
O meu coração aperta-se num nó. A ligação caí. É como se uma parede esmurra-se contra mim, socando-me com força. Neste exato momento, faço uma promessa a mim mesma, e garanto que a vou cumprir.
Enxugo as lágrimas, e escrevo uma mensagem.
"Obrigada e desculpa pelo dia de hoje. Temos de repetir, pois tu fazes com que eu esqueça as coisas más.
Beijinhos, S."


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