O Nuno tem demonstrado ser uma pessoa diferente. É amigo, é divertido, é conselheiro, muito bom ouvinte e muito bom conversador, é dono de uma personalidade incrível. Pronto, é a pessoa que encaixa perfeitamente no "preciso conhecer pessoas novas".
Temos saído algumas vezes, estamos a conhecer-nos aos poucos, e a cada dia que passa, ele surpreende-me cada vez mais pela positiva.
SMS recebida.
"Olá, como estás? Café hoje às 17h:00.
P.s: Já sei como és, logo não julgues isto um pedido ou uma espécie de convite.
P.s.2: É uma ordem.
P.s.2: É uma ordem.
N."
Sorrio e respondo rapidamente:
"Ok. Apanha-me às 17h.
S."
Pousei o telemóvel e continuei a digitar no computador.
Olhei para o relógio e ele marcava exatamente 16h:30. Imprimi o trabalho até então e coloquei-o sobre a secretária do meu chefe, com um bilhete:
"Saio mais cedo hoje, para compensar as horas extra que fiz ontem. O trabalho está finalizado, tal como pediu.
Até amanhã e não se mate com trabalho. S."
Saí do edifício e ele já estava à minha espera. Entrei no carro, cumprimentei-o com os dois beijinhos em ambas as bochechas e pousei a mala.
- Olá princesa. - Diz-me ele com um sorriso.
- Olá. Isso faz de ti o sapo?
- Depende. Queres me beijar?
As minhas respostas dissiparam-se. Respondi-lhe com um breve sorriso e olhei para a janela. Aquela pergunta fez-me pensar. Será que queria? Ou melhor...Será que conseguia?
A viagem foi um pouco longa e o silêncio tornava-se cada vez mais pesado. Mas eu acabei por matá-lo.
- Como foi o teu dia?
- Cansativo. Estive a tratar de papelada e a adiantar trabalhos, nada demais. E o teu?
- Igual, cansativo também. - Respondo com um meio sorriso e volto a centrar os meus pensamentos no que acontece lá fora.
Os campos verdes. As flores que ainda não estão completamente abertas, mas os raios de sol ajudam-nas a habituarem-se à estação que acabara de chegar.
Passamos por uma praia e ele pergunta-me se quero caminhar um pouco. Respondo-lhe positivamente, com a cabeça.
O som do mar, transmite-me tanta tranquilidade que é difícil não aceitar.
Caminhamos lado a lado e ele aproxima-se da água, tenta mantê-la na sua mão e tenta molhar-me. Conseguiu.
Rio-me, tentando afastar a camisola molhada e fria do meu corpo. Olho-o.
- Ups, a tua cara de má! Por favor, não queria fazer isto. Estou tãããoooo arrependido. - Diz ele num tom irónico enquanto faz gestos de encenação dramática.
- Uma coisa sobre mim: Vingativa. Molhas-me com umas gotas, eu ofereço-te um oceano!
- Ei lá, que generosa!
Neste exato momento, o telemóvel dele toca. Ele tira-o do bolso e atende. Afasta-se um pouco e eu aproximo-me da água para molhar os pés.
Não sei explicar o quão relaxante consegue ser o mar, para mim. Traz-me memórias envelhecidas de quando era criança e sonhava que tudo era possível…Traz-me também recordações que
outrora imaginei nunca chegarem a ser apenas meras lembranças. Faz-me recordar pessoas, momentos, lugares, palavras e gestos que bons ou
maus eu nunca vou esquecer. Devolve-me o sorriso, mesmo que por apenas algumas horas,
faz-me esquecer tudo à minha volta e ser só eu. Eu e o
imenso mar que se estendia a minha frente.
O
mar tranquiliza-me, dá-me serenidade, mas ao mesmo tempo dá-me medo,
provoca-me arrepios, tremores gélidos que se fazem sentir por todo o meu
corpo. O mar, o imenso mar, mar este que tantas vezes dá tudo e tira
tudo momentaneamente, o mar que traz e leva, que pode ser tão dócil ou
ser um tormento para a alma de quem nada entende. E olho e volto a
olhar, olho incessantemente como se procurasse algo, com se o mar me
pudesse dar todas as respostas de que preciso. Como se o mar fosse capaz
de me ajudar, como se me fizesse acreditar de novo, como se me desse um
novo fôlego de ar puro, ar renovado, ar fresco. O ar de que sinto falta
agora. O ar que me deixa a sufocar, que está tão perto mas que não
chega até mim e que as vezes eu simplesmente finjo estar longe de mais
do meu alcance.
O
mar, as saudades que tinha do mar. É estranho, a última vez que olhei o
mar estava exactamente com este mesmo sufoco, com o mesmo sentimento,
com a mesma ausência de alegria e vivacidade. Apenas eu e o mar.
Tínhamos
algo em comum, não só o facto de ambos guardarmos segredos que já mais o
deixarão de ser por estarem muito bem guardados. Lugares que nunca
ninguém conheceu em nós, mas também ambos partilhamos todos os dias de
um paladar salgado. Sob a forma de lágrimas que de alguma forma se
comparam às ondas, que transportam as emoções. São o culminar de algo
que vem de não sei onde e que ao chegar à costa desfaz-se sobre a areia,
e mistura-se com ela não deixando perceptível onde começa uma e acaba a
outra. Isso inquieta-me, não quero que este sabor salgado se misture
comigo ao ponto de se tornar parte inseparável de mim.
Ao
olhar o mar perco-me no seu imenso azul. Medo,
inquietude, ansiedade. A tempestade em mim traz-me os mesmos
sentimentos. Tenho medo de me perder no meio desta tempestade e de não
conseguir mais encontrar o caminho de volta para o meu porto seguro.
Volto
a sentir a areia molhada nos meus pés, aquele cheirinho a maresia, uma
brisa leve, o murmurar das ondas, as gargalhas das crianças que brincam
alegremente na areia, o sol lá no alto, os casais de tenra idade na
descoberta do que é o amor ou algo parecido e aqueles casais que
passeiam de mãos dadas à beira-mar e cujas rugas contam sem necessitarem
de palavras, uma história de quem já viveu muito. E eu continuo ali,
serena, a sentir a água a gelar-me os pés, a pensar no final de toda
esta tempestade. Não vou desistir antes de conseguir chegar a terra
firme porque eu quero, eu quero muito conhecer o final destas histórias
que o mar traz e leva, de todos estes pensamentos e desejos confessados
ao mar. Eu não vou perder este final.
Sinto-o a voltar.
- O que fazes? - Pergunta-me ele quando me vê a olhar fixamente para algo na água.
- Não te aproximes. Pode ser perigoso.
Curioso, ele aproxima-se.
Sinto-o mesmo atrás de mim, ele baixa-se. Aproveito o movimento e rapidamente empurro-o para dentro de água.
- Aí tens o teu oceano, ó tubarão!
Enquanto falo, distraio-me e num lapso, ele puxa-me pelo braço e acabo por cair também na água. As ondas preenchem-nos, mas quando elas se afastam, ficamos deitados na areia, ele por cima de mim. Fico sem jeito, ele afasta o cabelo molhado da minha cara e beija-me.
O pôr-do-sol aproxima-se morno, acolhedor, melancólico. Uma onda volta a tocar nos nossos corpos colados na areia. Essa onda faz com que eu volte à realidade.
- Leva-me a casa, por favor.

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